MARVEL NA TV – O INCRÍVEL HULK (1977)

Por Adilson Carvalho

Com todo o sucesso da Marvel no cinema talvez seja difícil para os fãs mais novos imaginar que já houve uma época em que a editora estava bem longe do sucesso de crítica e público alcançado com o MCU. Apesar, no entanto, das dificuldades enfrentadas e das limitações técnicas de uma era pré CGI, os heróis da editora foram retratados na TV com criatividade suficiente para ter deixado saudade naqueles que, como eu, nos deixámos levar por homens musculosos pintados de verde, máscaras substituídas por capacetes ou cordinhas se passando por teias. Sim, no final dos anos 70 e início dos anos 80 a Marvel não contava com orçamentos milionários mas foi nessa época, anterior à aquisição da editora pela Disney, que os primeiros live actions da editora surgiram. Vamos relembrar com uma série de artigos, os primórdios do MCU. E para começar nada mais justo que o Hulk que foi publicado pela primeira vez em maio de 1962, saído da mente de Stan Lee e Jack Kirby há 60 anos.

Em 1978, em uma noite distante em minha memória a Rede Globo trouxe o filme “O Incrível Hulk” (The Incredible Hulk) e acreditem, a transformação no Hulk em uma noite de tempestade enquanto seu frágil alter-ego troca um pneu assustou a criança que eu era então, com 9 anos e leitor de quadrinhos. O sucesso que se seguiu levou a Globo a exibir regularmente um segundo telefilme entitulado “Morte em Família” e a série que se tornou uma das mais populares em um mundo pré-streaming, em que a TV era nosso ponto de encontro único com filmes e séries. O produtor Kenneth Johnson havia conseguido muito sucesso produzindo as séries “O Homem de Seis Milhões de Dólares” (1974) e “A Mulher Biônica” (1976), e isso lhe deu credibilidade com o estúdio da Universal para adaptar o Hulk para a TV, mudando algumas das características das histórias originais.

Lou Ferrigno sendo maquiado

Nos quadrinhos, o Dr. Bruce Banner é contaminado por radiação gama durante um experimento nuclear no deserto, uma origem mergulhada no clima da guerra fria com vilões espiões comunistas ou monstros. Na série, Johnson preferiu aproveitar a premissa da série “O Fugitivo“, ou seja, o Dr. David Banner atravessa o país como um andarilho, em busca de uma cura para sua transformação originada em um acidente de laboratório. Em suas passagens, o cientista ajuda pessoas com problemas, ou em perigo eminente, sendo perseguido por um repórter investigador, o implacável Jack McGee (Jack Colvin). A mudança no nome do cientista, de Bruce para David tornou-se uma lenda de bastidores. Muitos acreditam que Johnson achava Bruce um nome afeminado para um personagem como o Hulk, mas o produtor sempre negou isso e simplesmente usou David como nome porque era o nome de seu filho. O papel foi entregue para Bill Bixby (1934-1993), ator prolífico na TV americana nos anos 70 e 80, que havia feito as séries “Meu Marciano Favorito” (1963/1966) e “O Mágico” (1973/1974). Ao se transformar, o ator era trocado pelo ex mister Universe e fisioculturista Lou Ferrigno, escolhido depois da sugestão inicial que era um então desconhecido Arnold Schwarzenegger, considerado muito “baixo” para o papel. O ator Richard Kial, lembrado como o vilão Jaws de “007 O Espião que Me Amava“, chegou a filmar algumas cenas mas o filho de Kenneth Johnson teria reclamado que ele nada se parecia com o Hulk dos quadrinhos. Uma mudança ainda mais bizarra quase aconteceu quando Johnson pensou em fazer o Hulk vermelho em vez de verde, por acreditar que o vermelho seria melhor associado a um monstro enfurecido. Quando Ferrigno foi contratado várias cenas precisavam ser refilmadas, mas a narração da abertura da série permaneceu com a voz de Kial.

Uma das coisas mais marcantes da série era a música tema “Lonely Man” tocada ao piano ao final de cada episódio à medida que o Dr. Banner caminhava em direção a um futuro incerto e solitário, sem jamais encontrar a cura. A série foi exibida no Brasil pela Rede Globo, e mais tarde pela Rede Manchete, Canal USA (rebatizado de “Universal Channel”) e TCM, com 79 episódios. Durante a produção da série, no entanto, uma tragédia se abateu com o ator Bill Bixby. Durante a segunda temporada, seu único filho morreu em um acidente e sua mulher, mergulhada na depressão, cometeu suicídio. O ator Lou Ferrigno comentou que Bill nunca mais foi o mesmo, sempre com a mesma melancolia representada na tela. Bill mergulhou no trabalho para esquecer a dor se tornando um bem sucedido diretor de várias séries de Tv e voltou ao papel do Dr.Banner, junto com Lou Ferrigno como Hulk em três telefilmes “A Volta do Incrível Hulk” (1988), “O Julgamento do Incrível Hulk” (1989) e “A Morte do Incrível Hulk” (1990), realizados sem o envolvimento de Kenneth Johnson.

Thor, Stan Lee e Hulk

O SBT exibiu a trilogia da TV que encerrou a série e cada uma trazendo uma participação especial de outros heróis do panteão da Marvel, costurando um universo interligado muito antes do atual MCU. Em “A Volta do Incrível Hulk” (1988) o Dr. Banner busca a ajuda do Dr. Don Blake, que vem a estar ligado ao deus Viking Thor (Eric Allan Kramer), como duas entidades separadas. A ideia inicial era de que Thor estrelasse sua própria série de TV, o que acabou não acontecendo. Jack Colvin reprisou seu papel de Jack McGee pela última vez já que o ator precisou se aposentar depois de sofrer um AVC na época. O filme seguinte “O Julgamento do Incrível Hulk” (1989) juntou Hulk ao Demolidor (Rex Smith) vestido em um uniforme todo preto, além de John Rhys Davis como Wilson Fisk, vulgo O Rei do Crime. Na história, o advogado Matt Murdock tenta ajudar o Dr.Banner com as implicações legais de suas transformações. Foi a primeira aparição de Stan Lee em um filme da Marvel, o que voltaria a acontecer nos filmes futuros do MCU. Finalmente veio “A Morte do Incrível Hulk” (1990) que não usou nenhum outro herói Marvel. A ideia inicial seria usar o Homem de Ferro e a Viúva Negra, mas restrições no orçamento impediram. A NBC desistiu de continuar com outros filmes, mas Bill Bixby tentou negociar com outras emissoras, tendo a FOX se interessado em produzir o filme seguinte que se chamaria “Rebirth of the Incredible Hulk” ou “Revenge of the Incredible Hulk“, mas Bill Bixby foi diagnosticado com câncer de próstrata na ocasião, o que levou ao cancelamento do projeto.

Apesar da lamentável morte de Bill Bixby, a série continuou sendo reprisado em várias partes do mundo e Lou Ferrigno chegou a fazer aparição especial nos filmes “Hulk“(2003) e “O Incrível Hulk” (2008), além de dublar o gigante verde em animações, e ser o único membro do elenco da série sobrevivente. Uma série que soube falar de heroísmo com o pé no chão, tratando assuntos como alcoolismo, abuso infantil, corrupção além de explorar o campo da fantasia científica. Por isso, quando alguém falar que a série das restrições de orçamento na série do Hulk, ou da falta do clima das histórias em quadrinhos, não se irrite, nem se sinta ultrajado. As pessoas não gostarão de nos ver zangados.

Em uma semana, volte ao CCP para descobrir sobre o “Homem Aranha” dos anos 70, na segunda parte do artigo “Marvel na TV“.

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