Por Adilson Carvalho

Recomeçar uma franquia do zero é sempre um risco, ainda mais se tratando de uma de grande sucesso e recente como a do personagem criado por Stan Lee & Steve Dikto em 1962, e que ainda hoje é um dos mais populares heróis da arte sequencial. O apelo de Peter Parker é forte, fala dos problemas de qualquer adolescente, os de hoje e os de outrora. É a dificuldade de se encaixar no mundo, de suportar o peso das responsabilidades que seus poderes trazem. Peter Parker foi perfeitamente retratado por Sam Raimi na trilogia original (2002, 2004 e 2007) e personificado por um Tobey McGuire extremamente convincente em suas inseguranças e revoltas com as perdas que a realidade lhe impõe. Em “O Espetacular Homem Aranha” (2012), a mudança do elenco trouxe Andrew Garfield (ator de “A rede social”), Peter ganhou um rosto mais jovial e um tipo físico mais franzino que lembra o traço de Steve Ditko e promove um rejuvenescimento do personagem que o põe mais em sintonia com uma gigantesca plateia teen que se identifica com aqueles dilemas. Para uma geração que se deixa apaixonar por romances impossíveis tipo Bella e Edward (Saga “Crepúsculo”), o amor de Peter e Gwen Stacy (Emma Stone) conquista até maior simpatia. Ecos de Smallville (a série de TV) aparecem nos momentos em que o envolvimento dos personagens precisa vencer obstáculos recheados de puros clichês que venham a justificar as batalhas internas e externas do herói. O diretor Marc Webb consegue captar essa essência , mas deixa escapar alguns elementos importantes para a história como a falta do editor J.Jonah Jameson. Este usa o poder da mídia para jogar a população e a polícia contra o herói escalador de paredes mas sua ausência no filme (justificada, no roteiro de James Vanderbilt, por se tratar de um reboot que retrata o herói bem em seu início, algo como “Spider man begins”) não só é sentida no campo do humor, mas por ser ele o elemento que mancha a reputação do Homem Aranha, atrapalha seus feitos e distorce a percepção de seus atos. O personagem do Capitão Stacy se distancia de sua personalidade dos quadrinhos tornando-se paranoico como Jameson, e quando o pai de Gwen revê seus conceitos finalmente, ele encontra seu prematuro fim, ficando outra lacuna que poderia render melhor nas sequências. Como não poderia deixar, Stan Lee faz sua esperada aparição a la Hithcock. A atuação de Rhys Ifans (O Lagarto) não impressiona mas também não decepciona. Enfim, o filme manteve o interesse na franquia, mas não impressionou na sua sequência

A sequência inevitável foi também dispensável pois “O Espetacular Homem Aranha 2 : A Ameaça de Elektro” (2014) foi um total equívoco. O vilão Elektro (Jaime Foxx) parece mais carnavalesco que ameaçador enquanto o Duende Verde (Dane Dehann) não apenas não tem o impacto de Willem Dafoe como também química com o Peter de Andrew Garfield. Melhores amigos que se tornam maiores inimigos já havia sido o tema explorado na trilogia e a repetição nada faz além de ser uma patética tentativa de produzir o mesmo efeito. Pior foi a morte de Gwen Stacy (Emma Stone) que deveria ser o gancho para uma continuação, mas que também não oferece o efeito dramático pretendido, muito abaixo das páginas desenhadas por John Romita em “Amazing Spider Man” #123 de junho de 1973. Apesar da intenção de fazer um terceiro filme estrelado por Andrew Garfield, a Sony desistiu e resolveu fazer um reboot tempos depois. Na semana que vem a 4ª e última parte dessa série.