por Sérgio Cortêz
Ian Fleming: As Seis Faces De Um Espião

Da imaginação do escritor britânico Ian Fleming nasceu o maior entre todos os espiões do cinema – sim, seu nome é Bond: James Bond, agente 007 a serviço de Sua Majestade e com permissão para matar. Tudo começou com a publicação de uma série de romances e contos no longínquo ano de 1953.
O autor escreveu um total de doze romances e duas coleções de contos, valendo-se da tranquilidade de sua propriedade na Jamaica, a famosa casa Goldeneye, lar de histórias incríveis que ganharam as telonas, as telinhas e, claro, as estantes das livrarias.
* Os Livros Originais de Ian Fleming

Foi em fevereiro de 1952 que Ian Fleming começou a escrever a primeira aventura do agente 007, “Cassino Royale”. O escritor apresentou a obra à editora Jonathan Cape que, a princípio, mostrou-se relutante em publicar o livro. Com uma ajudinha de seu irmão, o também escritor Peter Fleming (que já tivera trabalhos publicados pela editora), “Cassino Royale” foi lançado em abril de 1953, edição em capa dura e com ilustração de autoria do próprio Ian Fleming.
Sucesso imediato, a primeira edição de “Cassino Royale” esgotou-se em menos de um mês, fato que levou ao lançamento de uma segunda edição – vendida com igual celeridade. Publicada no ano seguinte, a terceira edição também desapareceu das prateleiras, chancelando o sucesso de James Bond junto aos leitores.
* 007 e Suas Curiosidades
Como qualquer personagem de grande sucesso, James Bond possui características bem próprias desenvolvidas à medida que a personagem evoluiu com o passar dos anos. Destacamos algumas delas:
– O agente é oficial da Inteligência, Seção 00 do Serviço Secreto Britânico, conhecido como MI6. James Bond ostenta ainda o posto de Comandante da Reserva Naval Real;
– Ian Fleming encontrou o nome perfeito para seu agente no ornitólogo norte-americano James Bond, um especialista em pássaros caribenhos, que autorizou o seu uso;
– Eventualmente, Fleming se baseava em pessoas que conheceu no período em que labutou na Divisão de Inteligência Naval, chegando a admitir que Bond originou-se de uma combinação de todos os agentes secretos e pessoas que conhecera durante a Segunda Guerra Mundial;
– No total, doze romances de Bond e duas coletâneas de contos foram publicadas entre 1953 e 1966, sendo que os últimos dois livros, “O Homem Com a Pistola de Ouro” e “Octopussy/Marcado Para a Morte” foram publicados após a morte de Ian Fleming;
– Carismático e galanteador, James Bond faz o coração das moças bater mais rápido e “sabe como chegar” em cada uma delas. Mesmo as mais ferozes, como May Day de “007 Na Mira Dos Assassinos” (brilhantemente interpretada por Grace Jones), acabam por sucumbir ao charme e à “conversa macia” do agente. Porém, não se faz de rogado em bancar o “durão” quando é trapaceado por algumas delas – e aí as “feminazis” piram!
– Por isso, leitores, antes que críticas ácidas sejam fomentadas, lembremo-nos: trata-se apenas de entretenimento, ficção, e não de um indicativo psicológico/comportamental a ser seguido por quem quer que seja;

* Os Livros e Os Filmes
Enquanto os romances de Ian Fleming foram lançados originalmente pela editora Jonathan Cape, os filmes chegaram às telonas pelos estúdios da EON Productions – empresa fundada em 1961 pelos produtores Albert R. Broccoli (1909-1996) e Harry Saltzman (1915-1994), que em 1975 abandonou-lha por razões financeiras.

Todavia, em 1995, a EON productions passou às mãos de Michael G. Wilson e Barbara Broccoli – respectivamente, enteado e filha de Albert R. Broccoli. Com a chegada dos novos produtores, os filmes com o agente britânico ganharam um ritmo muito mais dinâmico e moderno nas produções estreladas por Pierce Brosnan e, marcadamente, por Daniel Craig.
Os filmes da EON foram produzidos a partir dos livros de Ian Fleming, embora alguns tenham se limitado a pinceladas ou simples referências à obra do escritor. A coluna Prelo e Película preparou uma relação com os filmes que se basearam nos livros de Fleming, a despeito de levarem ou não à risca os textos originais.
– Cassino Royale

O romance foi publicado em 1953 e contou com duas adaptações para o cinema. A primeira, lançada em 1967, trazia David Niven no papel de Sir James Bond (confusa e arrastada, essa versão não oficial deixou a desejar nas bilheterias). A segunda, de 2006, marcou a estreia de Daniel Craig como 007 (esta sim um grande sucesso de público e crítica).
– Com 007 Viva e Deixe Morrer:

Publicado em 1954, foi lançado no Brasil com o título “Os Outros Que Se Danem”, que mudou posteriormente para “Viva e Deixe Morrer”. Foi adaptado para o cinema em 1973, sendo o primeiro filme a contar com o icônico Roger Moore no papel de 007 – que voltaria a interpretar James Bond em outras seis películas, tornando-se assim o ator que por mais vezes deu vida ao agente britânico na série oficial de filmes.
– 007 Contra o Foguete da Morte:

O livro foi lançado em 1955 e só chegou aos cinemas em 1979, com significativas alterações – tantas que ganhou deliberadamente um viés de ficção científica, de modo a pegar carona no sucesso de “Guerra Nas Estrelas” e assim faturar mais. Parte da película foi rodada no Brasil, com belas tomadas realizadas no Rio de Janeiro e na região das Cataratas do Iguaçu.
– 007 Os Diamantes São Eternos:

O romance foi publicado originalmente em 1956, chegando às telonas em 1971. Foi a última participação do talentoso Sean Connery na série oficial de filmes – diga-se de passagem, o James Bond preferido da maioria dos fãs. O ator voltaria a interpretar o agente em “Nunca Mais, Outra Vez” (1983), uma refilmagem de “007 Contra a Chantagem Atômica” (1965). No entanto, essa é uma versão que “corre por fora”, uma vez que não foi produzida pelo detentor dos direitos do personagem para o cinema na época, o produtor Albert R. Broccoli. Basicamente é a mesma história, apenas contada em produções diferentes.

– 007 Da Rússia Com Amor:

O romance chegou às livrarias em 1957 e foi publicado no Brasil com os títulos “Espionagem”, “Moscou Contra 007” e, em edições mais recentes, “Da Rússia Com Amor”. Estreou nos cinemas em 1963, sendo praticamente uma continuação de “007 Contra o Satânico Dr.No”. No Brasil prevaleceu o estranho título “Moscou Contra 007” – estranho não apenas por nada ter a ver com a tradução do nome original, mas porque, na história, os planos para eliminar James Bond partiram da SPECTRE e não da capital russa. Porém, na dublagem para a TV realizada pelos estúdios Herbert Richers, o título “Da Rússia Com Amor” foi resgatado.
– 007 Contra o Satânico Dr.No:

“Dr. No” foi publicado em 1958 e, inicialmente, recebeu no Brasil o título “Terror No Caribe”, passando posteriormente para “O Satânico Dr. No”. Foi adaptado para o cinema em 1962, tornando-se assim o primeiro filme da série oficial. Estrelado por um Sean Connery ainda bem jovem, a película foi um verdadeiro arrasa-quarteirão, cujo bom desempenho nas bilheterias estimulou a continuidade das produções subsequentes levadas aos cinemas nas décadas seguintes.
– 007 Contra Goldfinger:

O romance chegou às livrarias em 1959, enquanto o filme estreou nos cinemas cinco anos depois. Mesmo após décadas desde o seu lançamento, mantêm-se entre os preferidos por um número significativo de fãs – rivalizando de igual para igual com produções mais recentes do agente secreto, como “Operação Skyfall” (2012), “Cassino Royle” (2006) e “007 O Mundo Não é o Bastante” (1999).
– 007 Somente Para Seus Olhos* :

Publicado em 1960, tornou-se o oitavo livro protagonizado por James Bond e o primeiro a trazer contos sobre o agente. Foi lançado no Brasil em 1965 com o título “Para Você, Somente”. Chegou às telonas em 1981, sendo considerado por muitos fãs como um dos melhores filmes da série. Como bônus, podemos mencionar a atriz Carole Bouquet no papel de Melina Havelock, indubitavelmente uma das mais belas bondgirls entre tantas outras, e a alucinada perseguição com 007 e Melina a bordo de um improvável Citroën 2CV amarelo, ainda na primeira hora da película.

*Nota: os cinco contos presentes no livro de 1960, “Somente Para Seus Olhos”, “Na Mira dos Assassinos”, “Quantum of Solace”, “Risico” e “The Hildebrand Rarity” foram usados de diversas maneiras na série de filmes ao longo dos anos;
– “007 Somente Para Seus Olhos” e “007 Na Mira dos Assassinos” tornaram-se, respectivamente, o 12º e o 14º filmes da série, lançados em 1981 e 1985;
– Embora “007 Na Mira dos Assassinos” só tenha o título do conto original de Ian Fleming, partes das histórias de “Risico” e “Somente Para Seus Olhos” foram aproveitadas na versão cinematográfica de “007 Somente Para Seus Olhos”;
– Já o conto “The Hildebrand Rarity” teve alguns de seus elementos incorporados ao filme “007 Permissão Para Matar” (1989), enquanto “Quantum of Solace” tornou-se o nome do 22º filme da série, lançado em 2008.
– 007 Contra a Chantagem Atômica:

O romance de Fleming foi publicado em 1961 e chegou às livrarias brasileiras com o título “Chantagem Atômica”. O filme – o quarto da série – chegou aos cinemas oficialmente em 1965 e, como mencionamos antes, não oficialmente em 1983, com outro nome, “Nunca Mais Outra Vez”.
– 007 O Espião Que Me Amava:

O livro foi publicado em 1962 e recebeu no Brasil o título “Espião e Amante”. Foi lançado nos cinemas em 1977 e, assim como em outros filmes da série, sua história, as personagens e os locais foram modificados em relação ao romance de Ian Fleming. Nunca é demais lembrar que todo o imbróglio judicial envolvendo os direitos sobre o uso da SPECTRE estava longe de ser resolvido, obrigando os roteiristas a recorrer a “gambiarras criativas” que, não raro, fugiam ao texto original. O carro anfíbio Lotus Spirit S1 é um dos grandes destaques do filme e acaba compensando alguns “defeitos especiais” bem evidentes – como o uso bonecos voando para todos os lados nas excessivas cenas de destruição.

– 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade:

A obra de Ian Fleming chegou às livrarias em 1963 e foi adaptada para o cinema em 1969. Não fosse a recusa de Sean Connery em voltar ao papel, George Lazenby jamais teria conquistado seu lugar ao sol – até porque, depois de James Bond, nada de realmente expressivo apareceu para o ator. Além de muito longo, arrastado e com uma desnecessária alfinetada em Connery logo no início da história, “007 A Serviço Secreto de Sua Majestade” teve aquele que pode ser considerado o pôster mais horroroso dentre todos os filmes da série. Como ponto positivo, as atuações da talentosa Diana Rigg, impecável no papel de Teresa Bond, e do magnífico Telly Savalas como o vilão Ernst Stravo Blofeld, o número 1 da SPECTRE.
– Com 007 Só Se Vive Duas Vezes:

O romance original foi publicado em 1964 e chegou aos cinemas três anos depois. Sua produção primou pela excelência e, visivelmente, seu roteiro buscou no Karatê (arte marcial em alta na época) uma forma de maximizar os ganhos na bilheteria. Destaque para o ator Donald Pleasence, que mandou muito bem como Ernst Stravo Blofeld. Porém, como exemplo de que nem tudo é perfeito, a transformação de Bond em japonês é um dos disfarces mais fajutos da história do cinema – talvez só não perca para Kal-El querendo se passar por Clark Kent em “Super Homem – O Filme” (1978). Não é à toa que o pessoal da SPECTRE rapidamente o descobre.
– 007 Contra o Homem Com a Pistola de Ouro:

Publicado em 1965 após a morte de Ian Fleming, o livro foi lançado no Brasil com o título “O Homem do Revólver de Ouro”. Recebeu sua adaptação para o cinema em 1974 – embora a EON Productions tenha feito planos para rodar a história no final da década de 1960, adiada por questões geopolíticas do Sudeste Asiático. O ator Christopher Lee (que era primo de Ian Fleming) deu vida ao vilão Francisco Scaramanga, enquanto seu capanga, o irritante Nick Nack, foi vivido por Hervé Villechaize, mais conhecido por seu papel de Tattoo no seriado “A Ilha da Fantasia”. Boa produção, belas locações, cenas de ação na medida certa e grandes atuações – incluindo Roger Moore em sua segunda inserção como 007.
– “007 Contra Octopussy” e “007 Marcado Para a Morte”* :

Os contos “Octopussy” e “Marcado Para a Morte” (lançados no Brasil com o título “Encontro Em Berlim”) também foram publicados postumamente (1966) e deram origem a dois filmes da série: “007 Contra Octopussy”, lançado em 1982 e com Roger Moore interpretando James Bond, e “007 Marcado Para a Morte”, que chegou às telonas em 1987 já com Timothy Dalton no papel do agente.
*Nota²: a primeira edição do livro continha apenas os contos “Octopussy” e “Marcado Para a Morte”. Já as edições subsequentes incluíram dois outros trabalhos do autor: “The Property of a Lady” e “007 em New York”.
* Outros Autores de James Bond
Desde a morte de Fleming, diferentes autores dispuseram-se à tarefa de manter vivas as histórias de 007. Alguns lançamentos foram, na verdade, versões literárias de roteiros cinematográficos da série, enquanto outros foram romances e contos originais. Dentre tais mentes pensantes e criativas, destacamos:
– Kingsley Amis: escreveu seus trabalhos sob o pseudônimo Robert Markham;
– Christopher Wood: o escritor assinou duas obras ainda na década de 1970;
– John Gardner: trabalhou a convite da Ian Fleming Publications entre 1981 e 1996;
– Raymond Benson: assumiu o lugar de Gardner entre 1996 e 2002;
– Sebastian Faulks: seu romance foi lançado somente em 2008 durante as comemorações do centenário de Ian Fleming, encerrando seis anos de pausa nas publicações;
– Jeffery Deaver: o romance de Deaver chegou às livrarias em 2011;
– William Boyd: teve seu livro lançado em 2013.

Na próxima edição da coluna Prelo e Película, apresentaremos aos visitantes do site mais informações sobre os atores que deram vida a James Bond e também sobre Ian Fleming, a mente criativa por trás do espião mais famoso do cinema. Até lá.
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Dicas Coluna – Onde Encontrar:
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[…] Link da matéria de Sergio Cortêz – Part 1: https://cinemacompoesia.wordpress.com/2022/02/13/prelo-e-pelicula-4/ […]
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