Por Adilson Carvalho

Enola Holmes 2. Dir: Harry Bradbeer. Com Millie Bobby Brown, Henry Cavill, Helena Bohman Carter, David Thewlis,Hannah Dodd, Himesh Patel. (Disponível na Netflix)
Fabuloso quando um personagem literário ganha vida própria, atravessando gerações como o detetive da Rua Baker, criado há mais de 130 anos, por Sir Arthur Conan Doyle. Holmes já passou por incontáveis reinterpretações e adaptações, nos levando a sua irmã adolescente da série derivada “Enola Holmes” escrita por Nancy Springer e que conta com 8 volumes. Millie Bobby Brown deixou o olhar dramático de Eleven em “Stranger Things” e mostrou versatilidade para fazer de Enola uma personagem divertida para desvendar mistérios e inteligência fazendo jus ao sobrenome do icônico detetive. Enola, anagrama para “alone” (sozinha em inglês), está no centro da ação e nunca à sombra de seus irmãos detetives Shelock (Henry Cavill) e Mycroft (Sam Cafflin, que não retorna nesta sequência). A jovem parece ter o mesmo talento que Sherlock pois se disfarça, briga, observa pistas e demonstra admirável capacidade dedutiva., ainda quebrando com a quarta parede, da mesma maneira que fizera no filme de 2020. O diretor Harry Bradbeer (O mesmo do primeiro fime) continua a levar Enola a quebrar a quarta parede tornando o telespectador um cúmplice de sua aventura, encontrar uma menina desaparecida com a ajuda de Sherlock (Cavill).

O filme é movimentado desde o início com Enola (Brown) correndo de policiais, o que será explicado ao longo da divertida narrativa, que mistura humor e ação ininterrupta. A personagem amadurece desde sua estreia no primeiro filme, de 2020 e desenvolve suas habilidades detetivescas com a ajuda de seu famoso irmão e sua mãe, a excelente Helena Bohman Carter. A volta de Louis Partridge como o Visconde de Tewkesbery, garante o interesse romântico da notável detetive que faz uma releitura do Doyleverso para atrair a atenção das plateias atuais, principalmente os que nunca leram um mistério de Holmes. Personagens icônicos como Dr. Watson (Himesh Patel, de Yesterday), Inspetor Lestrade (Adeel Akhatar) e Moriarty (SEM SPOILERS !!) são (re)introduzidos na história de forma gradativa e curiosa, mantendo o interesse dos novos e velhos admiradores do cânone sherlockiano. A escolha de um fato real como pano de fundo funciona bem criando sustentação para uma aventura passada na Inglaterra Vitoriana. Era final do século XIX e várias mulheres sofriam com as condições desumanas de trabalho, morrendo por envenenamento com fósforo. A personagem de Sarah Chapman (Hannah Dodd) viveu nesse período e trabalhava na fábrica Bryant & May, no leste de Londres, com sua irmã e mãe. Sua postura no final do filme remete à imagem de Sally Fields em “Norma Rae” (1979) e engtra em sintonia com o empoderamento feminino. Esse segundo filme consegue ser melhor que o primeiro e mostra que o mito de Holmes sobrevive a múltiplas interpretações; no caso da criação de Nancy Springer, uma capaz de reunir pais e filhos para duas horas divertidas assistindo a um mistério nada elementar, pois o jogo ainda continua.
