# 9. O HOMEM INVISÍVEL (NETFLIX)
Por Adilson Carvalho

A literatura de ficção científica sempre se orgulhou de seu visionarismo como no submarino Nautilius ou na viagem à lua idealizados por Jules Verne (1828 – 1905), muitas décadas antes de sua concretização. Encabeçando a lista de avanços ainda não realizados está a invisibilidade, imaginada pelo escritor britânico H.G.Wells (1866 – 1946) não como o resultado de uma mágica, mas provocada por um soro capaz de impedir a reflexão e a refração da luz. De lá para cá, o mundo mudou e tendo e tendo em vista o erro estratégico quando transformaram “A Múmia” (The Mummy) em filme de ação centrado na figura de Tom Cruise, a produtora Blumhouse assumiu a responsabilidade de tentar reiniciar o “Dark Universe”. O projeto, que nos seus estágios iniciais teve o nome de Johnny Depp atrelado a ele, foi refeito como uma história de relacionamento abusivo entre a personagem de Cecilia Kass (Elizabeth Moss, de The Handmaid’s Tale) e seu ex-marido cuja aparente morte a deixa uma mulher rica.

O diretor e roteirista Leigh Whannell foi feliz na decisão de jogar o foco da história na vítima em vez do monstro. Cecilia, papel de Elizabeth Moss, é perseguida por seu ex marido, que desenvolveu a invisibilidade. O tema ganha a luz da atualidade por tratar de um relacionamento abusivo, como se seguisse a cartilha do movimento #metoo por denunciar uma violência não apenas física, como também psicológica. Poderíamos estar ouvindo a melódica “Woman in Chains” da banda Tears For Fears e assim também lembrar da condenação do ex magnata Harvey Weinstein. É curioso que seja um filme intitulado “Homem”, mas que saiba se identificar tão bem com a “mulher” atual. A modernização ainda funciona por resvalar na vulnerabilidade diante de um avanço tecnológico que viola a privacidade, sendo isso um grande acerto principalmente por se tratar de uma história que traz o legado de ter sido filmado pelo genial James Whale em 1933, e criado por um gênio da literatura de ficção científica, no caso de H.G.Wells.
Essa reinterpretação consegue aproveitar a essência desse legado com os monstros do mundo moderno, com os ecos de opressão vivido ainda por milhares de mulheres presas a um relacionamento violento. Já quanto à forma, Whannell nitidamente se permite enveredar pelo thriller hitchcockiano colocando sua heroína uma solitária diante de uma ameaça que a deixa muitas vezes à beira da insanidade. No filme, Cecília encontra ceticismo de todos, mas apoio do amigo de infância James (Aldiss Hodge) e sua filha adolescente Sydney (Storm Reid) contra uma ameaça que não pode ser vista, pode estar em qualquer lugar, se beneficiando do estado de paranoia que a vida moderna parece nos infundir. Não é exagero afirmar que o embate entre o vilão invisível, vivido por Oliver Jackson – Cohen de A Maldição da Residência Hill, e a heroína visível, interpretada por Elizabeth Moss certifica que os monstros do passado da Universal podem ser criativamente reimaginados seja em sua forma, ou sua temática.

A atuação de Moss é intensa, sem exageros, crível, movimenta a trama conferindo credibilidade e conduzida pelo mesmo diretor que evitou que Sobrenatural 3 caísse no desgaste natural de uma sequência. O tema musical de Benjamin Wallfisch é essencial para emoldurar o isolamento da protagonista sem precisar cair no clichê do jump scare gratuito que o gênero muitas vezes acaba por empregar. O efeito é permitir uma cumplicidade com a personagem que consegue ser vulnerável na medida certa, mas que desperta para a bravura de uma Sarah Connor, ou uma Ripley só para lembrar alguns personagens femininos icônicos do cinema. Cecilia enfrenta seu nêmesis oculto cuja genialidade só é superada por seu ilimitado sadismo.

O cinema já mostrou o potencial militar de uma camuflagem invisível em O Predador e nas naves romulanas de Star Trek, mas coube a Elizabeth Moss enfrentar essa ameaça não como uma super heroína dos quadrinhos mas como uma mulher que não aceita mais ser refém de um jogo doentio, e se descobre capaz de se reerguer forte e corajosa, se fazendo antes de tudo visível.
É sempre delicioso viajar no tempo através de filmes inesquecíveis!!!
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