WARNER 100 – AS AVENTURAS DE ROBIN HOOD

Por Adilson Carvalho

Errol Flynn e Olivia DeHavilland

A Warner teve excelentes resultados com romances históricos, lançando ao estrelato o nome de Errol Flynn em 1935 com Capitão Blood, supra sumo dos filmes de piratas. Nada mais natural que Flynn fosse o nome escolhido para a primeira filmagem sonora da lenda de Robin Hood, vivido por Douglas Fairbanks no período do cinema mudo. O personagem que entrou para a história como aquele que rouba dos ricos para dar aos pobres nasceu na época dos grandes trovadores que narravam grandes feitos em cantigas passadas de geração a geração, até que o poema Piers Plowman de 1377 tornou-se o primeiro registro escrito da lenda, de autoria de William Langand. A referência ao herói é breve, através de rimas, mas o suficiente como prova de sua existência. O problema é que a coletânea de histórias que se seguiram divergem entre si desde então, e isso dificulta o trabalho de historiadores em determinar o que é fato e o que foi ficção na história de Robert Locksley, um nobre privado de suas terras pelo Príncipe John que usurpou o trono do Rei Ricardo Coração de Leão, enquanto este participou das cruzadas. Na floresta de Sherwood adotou o nome de Robin, sendo Hood uma referência a um tipo de chapéu com pena.

Errol Flynn encara Basil Rathbone

Nottingham, a cidade inglesa em que se desenrola a história, hoje homenageia o herói com estatua, museu, passeio pelos locais citados pela lenda e até mesmo uma bandeira ostentando a silhueta do herói desde 2010. Na literatura, Alexandre Dumas (autor de “Os Três Mosqueteiros”) escreveu dois volumes intitulados “Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões” (de 1872) e “Robin Hood, o Proscrito” (de 1873).  Dez anos depois o escritor e ilustrador americano Howard Pyle publicou “The Merry Adventures of Robin Hood of Great Renown in Nottinghamshire”, revistando os vários feitos que entraram para o cânone da história como a luta de bastões com João Pequeno, o torneio de arco e flecha entre outras. Maid Marian, o interesse romântico do herói, não aparece em nenhuma das cantigas originais da lenda, aparecendo pela primeira vez em versões mais tardias, a partir do século XVII. Em 1820, Robin Hood apareceu como um personagem menor na obra de Sir Walter ScottIvanhoe”, considerado primeiro romance histórico do romantismo. Nessa como em outras encarnações, Hood é retratado como elemento fundamental na guerra entre Saxões e Normandos na Inglaterra medieval.

Os Vilões

Normal que da literatura, o personagem fosse retratado posteriormente no teatro, e no cinema, começando em 1908 com o curta inglês “Robin Hood & His Merry Men” dirigido por Percy Stow. Em 1912, uma nova adaptação da lenda foi feita na America intitulada apenas “Robin Hood” com Robert Frazer no papel título. Ainda haveriam mais três versões entre 1912 e 1913, além de uma adaptação de “Ivanhoe” em 1913 até a versão mais famosa do período, em 1922 igualmente chamada “Robin Hood”  e estrelada por Douglas Fairbanks, que no período do cinema mudo incorporou vários heróis similares. Acreditava-se que esta pérola tivesse sido perdida mas foi redescoberto nos anos 60, sendo restaurado em 2009 pelo Museu de Arte Moderna. 16 anos depois a Warner e a MGM disputavam realizar a primeira versão falada, mas foi a Warner quem acabou levando a cabo sua realização. Convidaram Douglas Fairbanks Jr para o papel central, mas este não estava disposto a repetir os feitos de seu pai. Foi então que o papel ficou com Errol Flynn, então com 28 anos, vindo do sucesso estrondoso alcançado em fitas como “Capitão Blood” (1935) e “A Carga da Brigada Ligeira” (1936), ambos dirigidos por Michael Curtiz e co-estrelado por Olivia DeHavilland. Curtiz foi chamado pela Warner para concluir as filmagens de “As Aventuras de Robin Hood”, iniciadas por William Keighley cuja lentidão nas filmagens ameaçava inflar orçamento e atrasar seu lançamento que veio a acontecer em maio de 1938.

Olivia DeHavilland e Errol Flynn

Curtiz e Flynn se odiavam e, segundo consta certa vez Flynn teria se ferido superficialmente quando um dos dublês, em cena de duelo, teria lutado sem a proteção na ponta da espada, isso sob ordens de Curtiz. Os duelos foram exímios e coreografados com perfeição sob a supervisão do especialista Fred Cavens, que também teria treinado Flynn e Basil Rathbone em “Capitão Blood”. Apesar de Flynn ter corpo atlético e de notável elasticidade para o manejo da espada, Rathbone era um espadachim superior em cena. A bilheteria do filme encheu os cofres da Warner e, além do público, a crítica deu sua benção ao filme que teve 4 indicações ao Oscar, levando 3 (melhor edição, trilha sonora e direção de arte). O elenco de coadjuvantes também brilhou: Claude Rains foi um odioso Príncipe John; Alan Hale repetiu o papel de João Pequeno que também fizera na versão de Fairbanks, e que repetiria anos depois em “O Cavaleiro de Sherwood” (1950), além do casal cômico Bess (Uma O’Connor) – aia de Maid Marian – e Much (último papel de Herbert Mundin) – um dos fiéis homens de Robin. O filme foi um prodigioso roteiro equilibrando momentos cômicos com pura ação. Nos diálogos do roteiro de Norman Reilly Raine e Selton Miller momentos memoráveis como Robin (Flynn) dizendo “Normandos ou Saxões não importa, o que odeio é a injustiça”. A Warner chegou a cogitar fazer uma sequência, mas acabou não acontecendo. Um clássico do gênero, ainda superior a todas as refilmagens e reinterpretações da lenda.

No próximo artigo em celebração aos 100 anos da Warner teremos uma rajada de balas.

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