Por Adilson Carvalho

Dona de um estilo completamente oposto, nascida em 30 de julho de 1818, Emily Jane Bronté, fez de O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights) seu único romance narrando uma história de vingança cuja essência estava séculos à frente de sua publicação original em 1847, em plena era Vitoriana. Na época mulheres eram desconsideradas de qualquer atividade intelectual, por isso a autora usou o pseudônimo Ellis Bell para driblar a ridícula mentalidade vigente, e conseguiu. Abalou o público leitor ao construir uma história sem heróis, imbuído de amoralidade, desprovida dos clichês narrativos do gênero. Ao contrário de Hemingway, Bronté carregou seu romance de descrições e adjetivações, valorizou o cenário dos desolados charcos ingleses como reflexo de seus personagens repositórios de sentimentos de revanchismo, rejeição, ambição, mais ódio que amor, características desconfortáveis sobre a natureza humana. Talvez por isso, Emily foi mal compreendida pelos críticos de seu tempo. Heathcliff e Cathy são a personificação da ruína humana, vingativos e interesseiros, distantes do idealismo romântico. A autora, a mais reclusa das irmãs Bronté, deixou muito pouco material sobre sua vida, morrendo prematuramente de tuberculose aos 30 anos, um ano depois da publicação de “O Morro dos Ventos Uivantes”.

Já existem mais de 10 adaptações da obra de Emily Bronté., sendo a primeira vez ainda no período do cinema mudo, em 1920. Até hoje sua obra é adaptada, seja para o cinema, para a Tv (chegou a ser novela brasileira em 1967) e para a música, na voz da britânica Kate Bush em canção homônima de 1977. Na excelente versão de 1939 em que Lawrence Olivier vive Heathcliff e Merle Oberon vive Cathy, o roteiro usa apenas 16 capítulos do livro de Bronte, com William Wyler dirigindo de forma a acentuar o tema da obsessão e do revanchismo, sobretudo o tom sobrenatural em seu final, bem ao gosto do clima do livro. Segundo a lenda, Vivian Leigh, que na época era casada com Olivier, pediu o papel de Kathy, mas foi dispensada pelo estúdio. Em 1992, a estreia de Ralph Fiennes no cinema foi no papel de Heathcliff, com Juliette Binoche no papel de Cathy. Ainda houve o filme As Irmãs Bronté (2016) falando a história das três irmãs,Charlotte, Emily e Anne Brontë, que se tornaram escritoras de renome superando todos os preconceitos e restrições da sociedade de sua época. Li e reli a obra de Bronté, e sempre me senti atraído por sua narrativa hipnótica, e clima fantasmagórico que não esconde uma visão ácida sobre a ascensão social e econômica desmedida, a mentalidade aristocrática ou o papel relegado a homens e mulheres na sociedade de sua época.