HQ TERRITORIO NEUTRO: BLUEBERRY – EDIÇÃO DEFINITIVA VOL. #1, PARTE 1: FORTE NAVAJO

Por Leo Banner

A obra e seu autor, o maravilhoso Moebius.

FORTE NAVAJO, primeira história de Mike Steve Donovan, foi, salvo engano, o álbum de Blueberry mais publicado no Brasil (duas vezes pela editora Abril, uma vez pela Vecchi e mais uma agora no compilado fabuloso da editora Pipoca e Nanquim que pretende publicar toda a saga do personagem), e é nosso ponto de partida para a análise do primeiro dos nove álbuns contidos em BLUEBERRY – EDIÇÃO DEFINITIVA VOL. #1. Antes de mais nada quero deixar claro que vou me ater apenas à história e, eventualmente, a uma ou outra curiosidade. Mas o objetivo aqui é apenas dar minhas impressões sobre este que considero um dos melhores quadrinhos de todos os tempos. As maiores curiosidades e detalhes dos bastidores dessa criação fantástica estão no farto material extra que essa Edição Definitiva contém. Conheci Blueberry aos 16 anos, quando adquiri a edição #21 da série graphic novel da editora Abril, de setembro de 1990. Naquela época, a paixão por quadrinhos já existia, acompanhava o que a situação permitia, e ainda que curtisse muito os formatinhos da Abril com as publicações Marvel e DC, começava a despertar em mim o desejo de ampliar os horizontes, de conhecer novos personagens e novas histórias. Ainda que gostasse bastante de filmes de faroeste, até aquele momento nunca havia me aventurado numa HQ de faroeste. Mas devo confessar que antes de mais nada, foi a genial estratégia da Abril que me fez adquirir o álbum. Explico. Alguns meses antes, na mesma série Graphic Novel, edição #11, havia sido publicada a história do Surfista Prateado intitulada PARÁBOLA, com arte de um tal MOEBIUS (de quem NUNCA tinha ouvido falar até então) e roteiro de STAN LEE (naquele que considero o melhor trabalho de sua vida, mas agora não é o momento de falar disso, certo?😉). Fiquei encantado tanto com a história e mais ainda com a arte daquele tal Moebius. Li e reli aquela história várias vezes, assim como os extras com os bastidores daquela produção e uma rápida entrevista com o tal Moebius, que vim a descobrir, era a persona artística de JEAN GIRAUD, um renomado artista das bande dessinée (quadrinhos franceses). Naquele momento, seu nome não ficou gravado na minha mente, apenas seu nome artístico: MOEBIUS. Daquele momento em diante, fiquei simplesmente fascinado e maravilhado pelo estilo do cara. Então, no ano seguinte, a Abril publica FORTE NAVAJO, com a capa quase exatamente igual a das outras vezes que a história fora publicada no Brasil, exceto por um detalhe: no logotipo com o nome do personagem que trazia os nomes dos autores, onde devia constar CHARLIER & GIRAUD, a Abril muito astutamente colocou CHARLIER & MOEBIUS. Naquele momento era o necessário para fisgar este escriba que vos fala. Feita a aquisição, li a breve introdução (não morro de saudade da Abril, mas uma coisa que ela fazia muito bem eram esses textos introdutórios) e desatei a ler. Num primeiro momento estranhei muito o estilo da arte, pois não lembrava em nada o do MOEBIUS de Parábola. Havia razões para isso que eu só viria a conhecer tempos depois. Mas ao mergulhar na leitura já comecei a me deparar com várias circunstâncias incomuns. Lembrem-se, para um moleque de 16 anos do final da década de 1980 o mocinho da história devia ser sempre o cara bonitão e virtuoso… de cara já se via que Blueberry não era absolutamente NADA disso. Muito pelo contrário. Com seu visual inspirado no do ator Jean Paul Belmondo, Blueberry já tem sua primeira aparição envolvida em confusão e tiros depois de trapacear num jogo de pôquer num saloon nos limites entre o Arizona e o Novo México. Naquele momento eu tinha meu primeiro contato com uma quebra de arquétipo propiciada pelo roteirista JEAN-MICHEL CHARLIER.

Blueberry e seu modelo o ator Jean Paul Belmondo

Nesse primeiro momento Blueberry conhece o tenente Graig, que havia acabado de chegar numa diligência e estava de passagem pela cidade. Ao reclamar da própria sorte, Blueberry (que não está fardado justamente para trapacear no pôquer) diz que está a caminho do Forte Navajo, localizado no meio de várias reservas indígenas, como punição por suas atitudes “pouco ortodoxas”… e que foi transferido por um ranzinza condecorado chamado General Graig… coincidentemente, pai do Tenente Graig, que Blueberry acabara de conhecer. Enfurecido com a forma desrespeitosa com que Blueberry se referiu a seu pai, Graig o desafia para um duelo, mas logo se dá conta de que não seria páreo para o habilidoso futuro colega, que lhe pede desculpas pelo mal-entendido. Na viagem para o forte, a diligência onde estão Blueberry e Graig se depara com o rancho familiar dos Stanton aparentemente massacrado e saqueado por índios. Antes de morrer, ao se dar conta de que seu filho fora levado pelos índios, Stanton suplica a Graig que o resgate das mãos dos indígenas. Com a diligência seguindo para o forte Navajo, Graig se lança numa insensata e frustrada missão de resgate mas é resgatado por Blueberry. No dia seguinte os dois encontram a tropa liderada pelo major Bascom, um oficial turrão e preconceituoso que odeia índios, que tem sua sanha de assassinar um grupo inocente de índios frustrada por Blueberry e Graig.


Algumas confusões depois (afinal não posso entregar tudo nessa resenha, certo?), a tropa de Bascom retorna ao forte Navajo acompanhada de Blueberry e Graig, que se apresentam ao Coronel Dickson, comandante do Forte. Ciente do massacre do rancho, Dickinson recebe mensageiro do chefe Cochise se dispondo a conversar para acertarem as coisas, para alívio de Blueberry. No entanto, ao passar em revista a estrutura montada fora do forte para receber Cochise e alguns de seus bravos, Dickinson é picado por uma serpente e se queda impossibilitado de prosseguir com a conferência. Recaindo sobre Bascom a liderança do Forte, o belicoso major prepara uma armadilha para assassinar Cochise e seus companheiros. Cochise comparece à tenda da conferência e relata que não foram seus índios que mataram a família Stanton, e se dispõe a enviar seus bravos para resgatar o jovem Stanton. No entanto, Bascom não lhe dá ouvidos e tenta assassiná-lo. Cochise consegue fugir mas encara a atitude de Bascom como declaração de guerra. E é dessa forma que termina o primeiro álbum de Blueberry. Com uma trama cheia de reviravoltas, roteiro ágil e a arte de Giraud ainda com muita influência de seu mentor Jijé, temos uma história no melhor estilo cinematográfico impressa em celulose.


Há muito mais a ser dito sobre toda essa trama, mas além de ainda não ser o momento, não posso privar quem lê essa resenha do prazer e da satisfação de descobrir por si mesmo todos os detalhes de bastidores trazidos nos extras espetaculares dessa edição definitiva de Blueberry, como mencionado no começo deste post. Mas tenham certeza que esta é uma das maiores e mais belas pérolas dos quadrinhos mundiais, e pela primeira vez no Brasil está sendo apresentada com o cuidado e apreço a que faz jus. Recomendo veementemente.

Em breve retorno com a resenha de TEMPESTADE NO OESTE.

Avaliação 4,5/5.

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