CLÁSSICO REVISITADO: KING KONG 90 ANOS

Por Adilson Carvalho

King Kong de 1933 é uma das maiores obras-primas do cinema e isso é inegável. Espetacular perceber que apesar das limitações técnicas de 90 anos atrás, o filme original permanece insuperável e um dos melhores da história do cinema. Hora de revermos a evolução desse personagem que há tanto tempo fascina o público. A ideia dessa releitura de A Bela & A Fera partiu do diretor Merian C. Cooper que imaginou um gorila gigante no topo do Empire State Building, então o prédio mais alto do mundo. Para criar a história que conduzisse a esse momento peculiar, pediu ao escritor norte-americano Edgar Wallace (1875 – 1932), escritor de livros de mistério,  que criou o argumento. Este fez as linhas gerais, mas vindo a falecer aos 57 anos não concluiu o trabalho que passou para as mãos de James Creelman.

Na época, a sociedade americana vivia a lenta recuperação do new deal de Roosevelt e o público se conectou com um inusitado romance entre Ann Darrow (Fay Wray), uma jovem atriz aspirante e um gigantesco gorila, que na verdade era um boneco de 45,72 cm feito com esqueleto de metal revestido com borracha, espuma e pele de coelho, animado quadro a quadro pelo técnico Willis O’Brien. CooperErnest B.Shoedsack dirigiram juntos o filme para o qual pensaram em Jean Harlow para o papel de Ann Darrow, que acabou ficando com a atriz canadense Fay Wray, então com 26 anos. Wray na verdade era morena e usou uma peruca que ajudou a criar o visual de sua personagem, uma mistura de vulnerabilidade e sensualidade. Com um custo em torno de $670,000, a produção rendeu nove vezes mais na época de seu lançamento original, um fato surpreendente para um momento em que os Estados Unidos se recuperavam de uma recente depressão econômica. Seu sucesso salvou a RKO da falência, um milagre gerado por um filme B.      

Os produtores se apressaram em criar a sequência “O Filho de Kong” (The Son of Kong) no mesmo ano. Do elenco original somente quatro atores retornaram, incluindo Robert Armstrong que reprisou o papel de Carl Dehnam, convencido a voltar à Ilha da Caveira onde encontra o filho do gorila, igualmente gigante,mas de temperamento mais dócil. Sem Ann Darrow ou Jack Driscoll, o casal humano central, pouco ficou de interessante na história a ser contada e rodada às pressas para ser lançada seis meses depois do Kong original. Desta Willis O’Brien se envolveu menos no projeto, pois de acordo com o site imdb, havia mais interferência dos produtores no processo de “stop-motion”, e além disso, uma tragédia pessoal se abateu sobre O’Brien quando sua esposa atirou nos filhos do casal e tentou se suicidar em seguida. Nos anos seguintes o filme original veio a ser relançado outras vezes nas telas, com acréscimos de algumas cenas inicialmente apagadas da versão exibida em 1933. Refilmado em 1976 por John Guilhermin e em 2005 por Peter Jackson, o gorila foi reinventado para a nova geração como parte de um “Monsterverse” planejado pela Legendary Pictures em conjunto com a Warner, e que em breve prepara um novo filme.

Apesar de toda a tecnologia e de seu mérito em apresentar Kong a uma nova geração, o impacto do filme de 1933 é indelével, graças ao pioneirismo de seus realizadores que conseguiram humanizar uma miniatura sem se render aos clichês do maniqueísmo. Ora monstro assustador, ora herói apaixonado, Kong transita no imaginário cinéfilo como a mais humana das feras, um ícone que renasce a cada geração.

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