Por Adilson Carvalho

Atriz e bailarina, graduada em Comunicação e Artes do Corpo pela PUC-SP, fez parte do corpo docente da Escola e Faculdade de Teatro Célia Helena de (2008-2012). Fez teatro, cinema e Televisão. Trabalhou ao lado de Selton Mello, Vincent Cassell, William Dafoe, Bruna Marquezine entre outros. Da parceria com o artista plástico uruguaio Victor Lema Rique, entre os anos de 2006 e 2010, nasceram seis trabalhos de vídeo-arte, que participaram de vários festivais internacionais na Grécia, Cuba, Alemanha, Portugal, Espanha e Uruguai. Tenho a honra de conversar hoje com Ondina, madrinha do 9º Santos Film Fest.
Adilson: Você desenvolveu trabalhos na dramartugia, sob uma perspectiva feminina, como o monólogo o monólogo Kantierina Ivanovna, personagem de Crime e Castigo de Dostoiévski. Você acha que atualmente esta perspectiva está bem representada nas artes cênicas ou ainda falta algo para alcançarmos uma maior valorização dos papeis femininos ?
Ondina: Eu acredito que o foco é na literatura feminina, nas artes plásticas femininas, também nas artes cênicas. Ele deu uma ampliada. O número de trabalhos que focam no feminino ou em autoras femininas aumentou como nas outras minorias. Mas ainda precisam de um trabalho de reparação pois o número de trabalhos masculinos, de autores masculinos, sempre foi maior. Então estamos no caminho, mas é necessário pensar sobre isso.
Adilson: Como foi contracenar com figuras internacionais como Vincent Cassell e William Dafoe ?
Ondina: Realmente foi uma história à parte. Comecei esse caminho contracenando com Leonardo Sbaraglia, um grande ator argentino, na série O Hipnotizador. O Sbaraglia fez o penúltimo filme do Almodovar, junto com o Javier Barden. Então quando fui fazer a série da HBO na Argentina com ele, e com outros atores brasileiros e uruguaios, fiquei impressionado. As escolas de teatro são o diferencial, o Uruguai tem, a Argentina tem, além de uma produção dramatúrgica absurda, de roteiristas, de atores, e que no Brasil não temos. A Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna no Rio de Janeiro está, por exemplo, caindo aos pedaços. Não temos uma escola de iniciativa pública, então como vamos formar atores? Isto ajuda já no momento da leitura do roteiro. Trabalhar com William Dafoe foi totalmente diferente de trabalhar com Vincent Cassell. Dafoe é um ator de teatro. Eu pude vê-lo ao vivo em uma peça. Ele é um ator de teatro que migrou, como muitos, para o cinema. Ele sabe como ensaiar e o Hector Babenco queria atores com formação no teatro e foi incrível o casting que ele fez. A filmagem foi na casa do Babenco e o William Dafoe fazia um papel que era o próprio Babenco, já que era um roteiro autobiográfico. Eu estava em um filme com Reynaldo Giannichini, Maria Fernanda Cândido, Dan Stulbach, Cristina Mutarelli, Ary França, um time peso pesado, gente de teatro, acostumado com teatro e isto é raro no cinema. Foi maravilhoso. O Babenco e o Dafoe trabalham com essas marcações, repetições sem criar nada além do que era feito nos ensaios, e envolvendo mais de 14 atores. Uma cena complexa que se passava em um sofá, em um tapete, uma mesa com um jantar. Essas cenas complexas são feitas seguindo uma marcação. Já o Cassell é um outro tipo de ator. Claro que o Selton Mello ensaiava, mas ensaiava o roteiro, o personagem. Não se ensaia mais roteiro assim, sem ler o roteiro e a partir do roteiro que começa a se pensar no personagem, e começa a se ensaiar. Algumas cenas são lidas, outras são conversadas. Mas não se ensaia a cena em si como ela vai ser encenada. Isto também é diferente, ne? Para os atores de teatro, a marcação não tem problema algum. As pessoas pensam que ela engessa mas ela na verdade liberta. Você consegue assim levar o texto e o personagem para um outro lugar. Tudo depende do estilo do diretor. O Vincent Cassell é um ator que nasceu do cinema, o pai dele também era ator de cinema. Ele tem um estilo delicioso, e eu e o Johnny Massaro procurávamos seguí-lo.
Adilson: Em João, o Maestro, do Mauro Lima, você viveu a mãe do João em sua infância. Os filmes biográficos sempre tiveram um público cativo, e o filme venceu o 10º Festival de Cinema da Lapa, além de ter sido indicado a outras honrarias. O Cinema brasileiro não poderia investir mais em filmes do gênero ou você acha que o nicho está sendo bem explorado pelos produtores?
Ondina: Eu gosto muito de filmes biográficos. Eu adoro biografias e autobiografias, e por isso eu adoraria ver mais filmes do gênero.

Adilson: Você trabalhou com o Hector Babenco em Meu amigo Hindu. Babenco foi um cineasta fantástico indicado ao Oscar por O Beijo da Mulher Aranha em 1986. O que está faltando para o Brasil levar um Oscar finalmente ?
Ondina: O Oscar é uma coisa complicada. Se atores como Leonardo Di Caprio só foi ganhar o Oscar por O Regresso, quando ele fez tantas atuações maravilhosas em filmes como A Ilha, O Grande Gatsby. A Fernanda Montenegro ter perdido para a Gwyneth Paltrow ninguém engoliu. Melhor filme é ainda mais complicado. É raro um filme ganhar todos os prêmios principais, e muitas vezes tem uma divisão de prêmio. Não tem como prever tantas variáveis. Tem muito a ver com o momento do filme.
Adilson: Poderia falar um pouco sobre sua participação no 9º Santos Film Fest e dizer ao público o que os aguarda no Festival? 6. Você fez O Filme da Minha Vida com Selton Mello em 2017. Ondina, qual seria o filme da sua vida?
Ondina: Difícil escolher um filme. Eu poderia dizer que nesse momento um filme que causou um estrondo em mim foi Memorias, com a Tilda Swinton. Todos os filmes do Fellini, do Bergman, do Béla Atar.
Adilson: Você fez séries como Sessão de Terapia, O Hipnotizador e A Vida Secreta dos Casais. As séries vem sendo cada vez mais um produto oferecido pelas plataformas de streaming. Acha que o formato está evoluindo ou estagnado uma vez que a expansão do streaming tem sido notável e oferecendo cada vez mais títulos, e muitas vezes os títulos acabam sendo mais do mesmo, em vez de algo inovador ? A Disney, por exemplo, esgotou a franquia Star Wars. O que você pensa a respeito ?
Ondina: Acho que houve uma melhora, um boom maravilhoso, as series quebraram o monopólio que era das grandes emissoras e criaram um mercado de trabalho magnifico para técnicos, roteiristas, iluminadores, atores. Meu caso por exemplo, sou de teatro e comecei a fazer Sessão de Terapia para a GNT com o Selton Mello. Essa ampliação do espaço criou oportunidade para atores que não tinham entrada por exemplo na Rede Globo, que sempre repetiu o mesmo elenco de atores sob contrato com a empresa.

Adilson: Quem são seus ídolos no cinema? Você tem como referência algum ator, atriz ou diretor específico?
Ondina: Marcello Mastroianni, Selton Mello, Hector Babenco, Fellini, Giulietta Massina. Dos Estados Unidos, Steven Spielberg, George Lucas, Clint Eastwood, John Ford. Lilian Gish, Greta Garbo, Meryl Streap, Vincent Cassel, Juliette Binoche. A lista é muito grande. Minhas referências são Tarkovsky, Kubrick, Woody Allen, Lucas e Spielberg. Da nova geração, a atriz que é minha inspiração é a Cate Blanchett. A Tilda Swinton também é. Eu posso dizer que são essas duas atrizes.
Muito obrigado Ondina