Por Adilson Carvalho
Apresentação: Ator, humorista e dublador Sergio Stern está no elenco da animação Patos, do Illumination Studios, em exibição nos cinemas. Sérgio é famoso por dar a voz ao personagem Quico na série Chaves em Desenho Animado, além de Mordecai em Apenas um Show, Mike Wazowski em Monstros S.A e Universidade Monstros, Pica Pau. Entre os atores que dublou estão os nomes de Steve Buscemi, Ty Burrell, Billy Cristal e também a voz do astrônomo Carl Sagan na série Cosmos.

Adilson: Você dublou C3PO na saga Star Wars, em Clone Wars, e nos episódios VIII (O Último Jedi) e IX (A Ascenção Skywalker). Como você explica o fascínio que a franquia Star Wars continua a exercer no público após todo esse tempo?
Sergio: Sagas de uma maneira geral costumam ser bem aceitas pelo público. No entanto, não adianta você ter simplesmente uma boa saga. Ela tem, acima de tudo, que ser bem contada e para isso você precisa ter excelentes roteiristas, além de excelentes equipes artísticas e técnicas. A saga de Star Wars consegue reunir um time de ponta sob todos esses aspectos e o resultado não poderia ser menos que um sucesso tão duradouro.
Adilson: Monstros S.A, Universidades Monstros, Chaves (série animada), Professor Ludovico (Duck Tales), Zé Carioca, Jimmy Neutron, e muitas outras animações. Você tem preferência pela animação? Ou por algum personagem especifico?
Sergio: Eu de fato tenho uma preferência por animações, em grande parte pela maior liberdade criativa que elas nos proporcionam. Só que nós, dubladores não fazemos estas escolhas (quais trabalhos vamos dublar) até porque de uma maneira geral não sabemos o que iremos dublar antes de entrarmos no estúdio. O diretor de dublagem nos escala e nós executamos o trabalho.
E dentro do universo das animações, gosto muito de todos os citados acima e ainda incluiria o Mordecai de Apenas Um Show e o Mordomotron de Projeto Clone.
Adilson: Que papel você gostaria de ter chance de dublar um dia?
Sergio: Eu não sei responder a esta pergunta, pois como grande admirador do trabalho dos dubladores brasileiros acho que praticamente todos estão perfeitos na condução de seus respectivos personagens e não consigo me imaginar dando voz a algum ator ou personagem que, digamos, já tem “seu dono”.

Adilson: Você dublou Steve Buscemi em mais de uma ocasião, como em Gente Grande 2, Cães de Aluguel e O Halloween de Hubie. Filmes de gênero bem distintos. Existe alguma particularidade na comédia que a torne mais fácil ou difícil na hora da dublagem?
Eu diria que dublar comédia é bem mais difícil e delicado do que fazer comédia num palco ou em frente às câmeras. Quando ensaia para atuar num palco ou em frente às câmeras, você busca o “tempo” correto das falas e das pausas, que são elemento fundamental para que a comicidade aconteça. E isso (esse “tempo”) cada comediante tem o seu próprio. Na dublagem, como o personagem já está pronto na tela imprimindo o ritmo dele, é bem mais complicado você acompanha-lo. Além disso, a adaptação do texto e das piadas para o Português, tem que ser criteriosamente feita, sob o risco de sua comédia ficar sem a menor graça.
Adilson: O trabalho em séries é mais cansativo do que em filmes? Ou mais prazeroso ?
Sergio: Não há uma diferença, em termos de dificuldade, entre um tipo de produção e outro. O que vai fazer com que a produção se torne mais cansativa ou não são vários fatores. Vou citar alguns: a dificuldade em interpretar o personagem, a dificuldade em dublar determinado ator, o excesso de cenas de ação com seus respectivos gritos e respirações ofegantes, dentre outros.
Adilson: Você participou das dublagens dos últimos filmes da franquia 007, estrelados por Daniel Craig no papel vivido pelo ator Rory Kinnear. Qual seu 007 favorito?
Sergio: Meus 007 favoritos (atores) são o Roger Moore e o Daniel Craig. E dos filmes estrelados por Daniel Craig o meu favorito é Skyfall.

Adilson: O que falta para um maior reconhecimento da dublagem como área profissional, na sua opinião?
Sergio: Talvez uma preocupação maior com a qualidade da dublagem por parte dos responsáveis pelas produções. Existe hoje em dia, uma quantidade bem maior do que o desejável, de produtos que são exibidos com uma dublagem cuja qualidade para ser considerada ruim, ainda teria que melhorar bastante. Felizmente ainda se trata de uma minoria, mas é uma minoria que a mim incomoda bastante, enquanto consumidor que paga assinaturas e recebe programas com dublagens pífias. Se eu produzisse programas para TV e os vendesse para outros países, jamais aceitaria que meu trabalho fosse dublado por empresas de fundo de quintal.
Adilson: Como foi dublar o astrônomo Carl Sagan na série Cosmos?
Sergio: Posso dizer sem medo de errar, que foi o trabalho da minha vida. A série é absolutamente apaixonante e o que aprendi com o saudoso Carl Sagan é de um valor inestimável. E como cereja do bolo, tive o privilégio de ser dirigido pelo mestre dos mestres Isaac Bardavid.
Adilson: Que conselho você daria para quem gostaria de entrar para essa área de trabalho?
Sergio: Antes de mais nada, tem que gostar muito, como aliás em qualquer profissão. Tenha persistência, se forme como ator (muito mais importante do que sincronizar a voz com movimentos labiais, é saber interpretar) e depois procure se informar a respeito de bons cursos de dublagem (existem vários). No mais é paciência para ir construindo a sua carreira e correr para o abraço, pois se trata de um trabalho apaixonante.