Por Leandro “Leo” Banner

Compilando as edições BLUEBERRY – INTÉGRALES #4 e 5 (2015), esse novo volume da Editora Pipoca e Nanquim traz histórias INÉDITAS do Tenente Mike Steve Blueberry publicadas nesse belo encadernado com capa dura e miolo com papel offset de boa gramatura. Considerando que esse segundo tomo reúne seis álbuns, faremos aqui neste post uma análise mais sucinta e objetiva dessa bela edição que se inicia com a história
GENERAL CABEÇA-AMARELA, publicado em forma de álbum em 1971, esta história mostra a conclusão do arco iniciado no volume #1 (CAVALO DE FERRO). Depois de ter sido arregimentado contra sua vontade nas tropas do General Allister no final da história NA PISTA DOS SIOUX, Blueberry se vê enredado na obsessiva perseguição aos índios por parte do referido comandante que busca com isso obter as loas e reconhecimento das altas castas políticas de Washington, não se importando que meios precise empregar para atingir seu intento. Ao ver todos os seus esforços em busca de conciliar os povos indígenas e o homem branco caírem por terra, Blueberry se vê dividido entre o dever para com o exército e aquilo que julga ser o correto, sobretudo ao perceber a sanha assassina direcionada aos índios que guia as ações do General Cabeça Amarela. Mantendo sua tendência de se valer de fatos históricos para composição das tramas, JEAN-MICHEL CHARLIER criou o irascível General Allister – o “Cabeça Amarela” do título – baseado na figura do General George Armstrong Custer, líder e estrategista militar que desempenhou papel fundamental na Guerra de Secessão Norte-americana, responsável por transformar a vida de Blueberry num verdadeiro inferno nas gélidas Black Hills habitadas pelas tribos Sioux e Cheyennes. Charlier conduz a trama com um ritmo acelerado ao mesmo tempo que temos uma persistente impressão de constante tolhimento em função da impotência de Blueberry ante os comandos insanos de McAllister. No entanto, mesmo com as mãos atadas pelo juramento do cumprimento do dever, Blueberry encontrará maneiras de salvar todos os peles-vermelhas que puder, não importando o custo. Como desfecho do segundo ciclo das “guerras indígenas” é impossível não sentir uma certa tristeza e melancolia por conta das atrocidades perpetradas por McAllister, potencializadas pela ambientação gelada proporcionada pela paleta de cores predominante frias nesse primeiro capítulo.

A MINA DO ALEMÃO PERDIDO e O ESPECTRO DAS BALAS DE OURO foram dois álbuns publicados em 1972 e trazem uma história fechada que se inicia com Blueberry como xerife da fronteiriça e distante cidade de Palomito para logo se ver envolvido numa tríplice perseguição ocasionada pela chamada “febre do ouro”, decorrente, de certa forma, pela fraqueza do leal, porém fraco, Jimmy Mac Clure. Foi meu primeiro contato com tais histórias e preciso me conter para não falar mais do que o necessário. Algumas coisas, porém, valem a pena ser mencionadas, e uma delas é que o díptico é um dos momentos criativos favoritos em termos artísticos do fantástico JEAN GIRAUD, e é fácil perceber o porquê. Se em GENERAL CABEÇA AMARELA já se percebe um óbvio e definitivo afastamento de Gir do estilo de seu mentor Jijé, é no díptico que percebemos o desabrochar de MOEBIUS, com seu estilo extremamente detalhado abusando das hachuras e pontilhismos tão característicos de sua arte magnifica. Se a trama em si já é instigante por si só, a arte pela sua qualidade fora do comum já nos arremata de forma inolvidável. Ao mergulhar na história o leitor facilmente perceberá não se tratar de uma história asséptica, como na maioria dos filmes de faroeste norte-americanos e algumas outras típicas HQs de faroeste onde personagens não se sujam e são, em grande parte das vezes, retratados limpos e impecáveis; nas histórias de Blueberry, uma vez que a paleta de cores empregada aliada à esplêndida arte de Moebius (nos remetendo à atmosfera dos faroestes espaguetes de Sérgio Leone) é possível perceber impressões de calor extremo e falta de higiene de ambientes e personagens. Não sem razão, essas histórias de Blueberry podem ser consideradas séries “olfativas”.

Terminando o segundo volume dessa Edição Definitiva, temos a trama que se desenvolve nos três álbuns seguintes: CHIHUAHUA PEARL (1973), O HOMEM QUE VALIA 500 MIL DÓLARES e BALADA PARA UM CAIXÃO (1974), mais uma trama envolvente que evidencia a genialidade do roteirista JEAN-MICHEL CHARLIER em função de uma ousada aposta: se utilizar do mesmo mote do díptico iniciado em A MINA DO ALEMÃO PERDIDO, qual seja, a febre do ouro, consubstanciando-se em mais uma busca frenética por uma vultosa quantidade de ouro. Mas não se engane, as histórias são totalmente diferentes e conduzidas magistral e habilmente por CHALIER, assumindo um tom ligeiramente mais soturno e sombrio, sobretudo com sua CONCLUSÃO, que é simplesmente fantástica e surpreendente. A arte de Jean MOEBIUS Giraud é um espetáculo à parte, com sua evolução evidenciada a cada página, valendo-se de várias sequências com belos planos abertos repletos de perspectivas que nos dão incríveis percepções de profundidade.
Outro detalhe dessa Edição Definitiva é a farta quantidade de extras, que nos revelam grandes curiosidades de bastidores da obra, algumas alterações nas versões originais publicadas na PILOTE feitas por MOEBIUS para os álbuns e, o melhor de tudo (na opinião deste escriba que vos fala, claro) é o dossiê (em forma de texto e “fotos”) sobre toda a vida do “verdadeiro” Tenente Mike Steve Donovan, vulgo Tenente Blueberry. São extras formidáveis que enriquecem a leitura e nos ajudam a entender várias etapas do processo criativo dos autores.
OBRA-PRIMA! Recomendadíssimo! Sem mais!😉
Avaliação: 5/5.
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻