Por Adilson Carvalho

Durante décadas seu nome levava a uma associação inevitável com todo um gênero: O Cowboy durão, obstinado, xerife, pistoleiro ou oficial da cavalaria, John Wayne marcou um longo período do cinema hollywoodiano imprimindo seus rosto nas telas. Republicano convicto, um ufanista, um defensor fundamentalista de uma América que há muito foi desnuda. Ainda assim, seus filmes são parte da história do cinema, então vamos rever a vida e a carreira de Marion Morrison, apelidado de Duke mas nas telas apenas John Wayne, que hoje faria 118 anos.

Filho de um farmacêutico, ele odiava seu nome e o trocou por algo mais impactante ao entrar para uma Hollywood recém nascida, a principio como figurante em fitas mudas até conseguir chamar a atenção do estúdio é conseguir protagonizar A Grande Jornada (1930) com o diretor Raoul Walsh. Os diretores do estúdio tiraram o sobrenome de Anthony Wayne, um oficial da Guerra de Independência americana. O primeiro nome veio em seguida por ser um nome comum, facilmente identificado. Passaram se quase 9 anos, 79 filmes inexpressivos, até que John Wayne fosse aceito para trabalhar com seu amigo John Ford no papel de Ringo Kid em No Tempo das Diligências (Stagecoach). John Ford se recusara a usar Wayne dizendo que ele precisava esperar até que ele estivesse “pronto” como ator. A cena inicial em que Ringo para a diligência para dar uma volta e gira seu rifle Winchester enquanto a câmera dá um zoom em seu rosto é o ponto que prova o esforço de Wayne. Juntos viriam a fazer vinte e dois filmes, entre eles O Céu Mandou Alguém (1948), Depois do Vendaval (1952), Rastros de Ódio (1956), Asas de Águia (1957), Marcha de Heróis (1959) e O Homem que Matou o Fascínora (1962), além da chamada trilogia sobre a Cavalaria, composta por Sangue de Herói (1948), Legião Invencível (1949) e Rio Bravo (1950).

Outro diretor renomado com quem Wayne trabalhou foi Howard Hawks, um dos maiores realizadores do período clássico hollywoodiano. Juntos, realizaram vários dos maiores sucessos, não apenas de suas carreiras, mas de todo o gênero do faroeste, como: Rio Vermelho (1948), El Dorado (1967) e, principalmente, aquele que é um dos mais irretocáveis exemplares do gênero, Onde Começa o Inferno (1959), que Wayne fez como resposta a Matar ou Morrer (1958), que considerava uma afronta ao que o Western deveria representar. Durante sua carreira foi notório a amizade entre o ator e Maureen O’Hara, com quem fez 5 filmes sendo um dos melhores Depois do Vendaval (The Quiet Man), que Ford dirigiu em 1952. Na história, baseado em um conto homônimo de 1933 do Saturday Evening Post, do autor irlandês Maurice Walsh, Wayne faz um pugilista que viaja para sua terra natal na Irlanda e se envolve com a indomável Mary Kate (O’Hara). A química do casal na tela muitas vezes levou à especulação de que eles também eram amantes na vida real. Embora a dupla sempre tenha rido disso, o neto de Maureen admitiu muito tempo depois que eles tiveram um breve romance na vida real. Maureen O’Hara o presenteou com o People’s Choice Award de ator de cinema mais popular em 1976.

Casou-se três vezes. A primeira, em 1932, com Josephine Saenz, que lhe deu quatro filhos. Em 1946, casou-se pela segunda vez, com a atriz mexicana Esperanza Baur, de quem se divorciou sete anos depois, para casar-se com Pilar Palette, com quem teve mais dois filhos. Dirigiu a maior parte de Os Comancheros (1961) porque o diretor credenciado Michael Curtiz estava morrendo de câncer e frequentemente ficava doente demais para trabalhar. Wayne se recusou a ser creditado como codiretor. John Wayne chegou a dirigir duas vezes, nos filmes O Álamo (The Alamo) de 1960 e Os Boinas Verdes (The Green Berets) de 1968. Este último causou-lhe grandes problemas. O roteiro, pró-Guerra do Vietnã, representava as convicções conservadoras do Duke, e alimentou a fúria dos opositores a essa intervenção militar estadunidense, que realizavam na época vários protestos contra a exibição do filme. Um ano depois Wayne ganhou seu único Oscar pelo papel do xerife rabugento Rooster Cogburn em Bravura Indômita (True Grit). Na ocasião Duke De seus muitos papéis no cinema, seu favorito era o de Ethan Edwards em Rastros de Ódio (1956). Wayne chegou ao ponto de dar a um de seus filhos o nome de Ethan, em homenagem a esse personagem.

Wayne era um homem de convicções fixas e inflexível, um conservador. Em 1973, Clint Eastwood escreveu a Wayne, sugerindo que estrelassem um faroeste juntos. Wayne escreveu uma resposta irritada criticando o estilo revisionista e a violência do último faroeste de Eastwood, O Estranho sem Nome (1973). Consequentemente, Eastwood não respondeu e o filme não foi feito. No mesmo ano, no Oscar tentou atacar a ativista, modelo e atriz nativa americana Sacheen Littleafether que, em nome de Marlon Brando, ganhador do Oscar com O Poderoso Chefão, falava sobre a pouca representatividade de nativos americanos na indústria de cinema. Foi impossibilitado e levado para fora pelos seguranças do Oscar. Fumante desde a juventude, Wayne foi diagnosticado em 1964 com câncer de pulmão, tendo passado por uma cirurgia para remoção de todo o pulmão esquerdo, além de quatro costelas. Apesar dos esforços de seus agentes para evitar que ele tornasse a doença pública, ele mesmo anunciou seu estado à imprensa e apelou para que a população fizesse mais exames preventivos. Cinco anos depois, foi constatado que ele ficara livre da doença. Apesar da diminuição da capacidade pulmonar, pouco tempo depois Wayne voltou a fumar.
No final da década de 1970, Wayne envolveu-se como voluntário nos estudos de uma vacina para a cura da doença que o assombrara anos antes. Em 1975 voltou a interpretar o xerife Rooster Cogburn, seu personagem de Bravura Indômita em Justiçeiro Implacável (Rooster Cogburn), trabalhando ao lado de Katherine Hepburn. O ator deu seu adeus no ano seguinte em O Último Pistoleiro (1976) é amplamente considerado o melhor filme final de qualquer grande astro, rivalizado apenas pelo papel de Clark Gable em Os Desajustados (1961) e pelo papel de Henry Fonda em Num Lago Dourado (1981). Morreu em 11 de junho de 1979, aos 72 anos de idade, em decorrência de um câncer de estômago. Está sepultado no Pacific View Memorial Park, Corona del Mar, Condado de Orange, Califórnia. Foi enterrado em segredo e o túmulo não foi marcado até 1999, para evitar que manifestantes contra a Guerra do Vietnã o profanassem. Vinte anos após sua morte, ele finalmente recebeu uma lápide feita de bronze, um ator que deixou sua marca no cinema.