Por Paulo Telles

E vamos para mais um caso em nossos registros em Isto é Fato…Não Fita!

Clifton Webb (1889-1966) foi um dos atores mais admirados do cinema norte-americano. Vindo dos palcos da Broadway e também de Londres e Paris (embora fosse um genuíno estadunidense nascido em Indianápolis) cuja carreira iniciou ainda na década de 1920. Atuou em alguns poucos filmes na era dos silents, mas somente a partir de 1944, com mais de 50 anos de idade, que este carismático artista foi notado por Hollywood, vivendo o assassino que cerca Gene Tierney (1921-1991) e Dana Andrews (1909-1992) no clássico noir Laura (Laura, 1944) de Otto Preminger (1909-1986). A personificação rendeu-lhe elogio da crítica. Daí seguiram-se outros trabalhos cinematográficos ao longo das décadas de 1940 e 50, sob contrato do estúdio da raposa, a 20ª Century Fox.

Homem culto e inteligente (falava cinco idiomas!), e sendo profundo conhecedor de literatura inglesa, Webb era respeitado por todos os colegas e produtores da indústria cinematográfica. Jamais casou ou teve filhos e era assumidamente gay. Por conta de sua respeitabilidade e até mesmo de sua aparência um tanto aristocrática, Webb jamais sofreu nenhum tipo de perseguição por parte de Hollywood, da imprensa ou mesmo por fãs que apreciavam suas atuações na tela. Sempre era escalado para viver professores, filósofos, conselheiros, comandantes e heróis intelectualmente maduros, como o agente da Inteligência Britânica que engana os alemães em O Homem que Nunca Existiu (The Man Who Never Was, 1955) thriller de suspense detetivêsco dirigido por Ronald Neame (1911-2010), ou mesmo um chefe de família como em Papai Batuta (Cheaper by the Dozen, 1950) de Walter Lang (1896-1972), como o marido de Myrna Loy (1905-1993) e com seus doze filhos, revelando também talento para as comédias.

Em épocas que não se permitia nem falar sobre os direitos dos LGBTS, Clifton Webb assumia publicamente não só seu posicionamento referente a sua sexualidade como também não admitia nenhum tipo de preconceito óbvio contra os homossexuais. O Fato aqui apresentado encontra-se no livro Os Bastidores de Hollywood, a Influência Exercida por Gays e Lésbicas entre 1910 a 1969, de William J. Mann, lançado no Brasil pela Editora Landscape de São Paulo, em 2003. Ray Stricklyn (1928-2002), jovem ator que foi colega de set de Webb no filme Tudo Azul com o Barba Azul (The Remarkable Mr. Pennypacker, 1959) deliciosa comédia de Henry Levin (1909-1980), deu declaração para o livro de Mann, lembrando-se de um incidente ocorrido durante as filmagens, que deixou Webb indignado.
Clifton havia comprado entradas de uma peça de teatro, para ele e outro jovem ator do elenco, Ron Ely, que mais tarde seria o famoso Tarzan da clássica série de TV (1966-1968). Eles assistiriam ao famoso ator e dramaturgo Noël Coward (1899-1973) na peça Nude With Violin. Ao término, Webb perguntou para quem estava a sua volta o que acharam da peça. Ron Ely comentou:
– Ah, foi boa, eu gostei! Mas…aquele tal de Coward, como é que vou dizer…hummm – disse o jovem ator fazendo um gesto de desmunhecar.

Ray Stricklyn, que testemunhou de perto o caso, ainda lembrou:
– Pensei que Webb fosse explodir ali mesmo. No dia seguinte, ele saiu do nosso set de filmagem pisando duro no chão. Depois me disse que tinha ido ao gabinete de Buddy Addler, o produtor, para exigir a demissão de Ron nestas palavras: “ Eu me recuso a trabalhar com alguém tão burro no meu filme”. Mas já era tarde para achar outro ator para ocupar o lugar de Ron, de forma que, simplesmente, Webb foi obrigado a dar-lhe gelo durante todo resto das filmagens.
Naturalmente, o veterano ator assumiu compromisso de trabalho até o fim das filmagens. Orgulhoso em sua dignidade como artista e ser humano, não seria ele a permitir tal afronta homofóbica na sua vista. Talvez tivesse sido uma das raras ocasiões em que o ético, elegante e polido Clifton Webb perdesse as estribeiras, em sua indignação por justa causa.
Um caso em nossos registros, afinal, Isto é Fato…Não Fita!
Paulo Telles é crítico de cinema, escritor e radialista (DRT 21959-RJ) além de colunista e redator do blog Cine Retro Boavista.
https://cineretroboavista.blogspot.com/
“Isto é Fato… Não Fita! “ Era um quadro do extinto programa Cine Vintage, pela Web Rádio Vintage.