Por Adilson Carvalho

A Warner é uma idiota ! Digo isso por terem implodido o lançamento de Jurado Nº 2 (Juror #2), último filme da carreira do icônico Clint Eastwood, que nas últimas 4 décadas vinha de uma frutífera parceria com o estúdio, e que resultou nos aclamados Os Imperdoáveis (1992) e Menina de Ouro (2004), ambos oscarizados. O canto do cisne para o diretor que hoje tem 94 anos é um excelente trabalho sobre consciência e justiça, encenado segundo a linha de obras clássicas do gênero como Anatomia de Um Crime (1959) e Doze Homens & Uma Sentença (1957). É admirável que em tempos de um cinema sem personalidade própria dependente de franquias, reboots e remakes, Eastwood entrega um trabalho com alma, narrativa empolgante e que só peca pelo final, talvez aberto demais ou sem um efeito maior que o esperado. Porém, o ex Dirty Harry consegue instigar debates e questionamentos sobre os paralelos entre verdade e justiça, como comentado por Justin Kemp (Nicholas Hoult), um ex alcóolatra prestes a ser pai e começar uma vida nova em família quando percebe que talvez ele seja o responsável pela morte da jovem Kendall Carter (Francesca Eastwood, filha de Clint). O filme move sua narrativa em torno de Justin ser membro do juri que pode condenar James Sythe (Gabriel Basso) como assassino de Kendall. Apesar de circunstanciais, todas as provas o apontam como culpado, ao menos no que depender do empenho de Faith Killebrew (Toni Collette), a obstinada advogada de acusação. O que se desenvolve na tela é um sutil jogo de probabilidades: Deve Justin confessar seu envolvimento no caso e arriscar perder tudo e ser preso por um mero “acidente” ? Matar alguém sem plena consciência de tê-lo feito constitui um crime hediondo ? Omitir-se com a desculpa de proteger sua família é justificativa válida ? Eastwood não parece estar tão preocupado em oferecer respostas quanto em promover discussões tal qual fizera com o paralelo vingança/justiça em Sobre Meninos & Lobos (2003) ou intriga política/justiça em Poder Absoluto (1997).

Ser capaz de instigar, provocar questionamentos é o que faz a filmografia de Eastwood tão impecável em sua versatilidade e talento de contador de histórias. lamentável que o diretor desperdice os talentosos J. K. Simmons e Kiefer Sutherland com aparições menores, embora importantes para o desenrolar da história. Kiefer conseguiu seu papel aqui escrevendo para Clint Eastwood, dizendo-lhe que era seu grande fã e que queria estrelar um de seus filmes antes de se aposentar. O pai de Kiefer, Donald Sutherland, havia contracenado com Clint em Os Guerreiros Pilantras (1970) e Cowboys do Espaço (2000). Já Toni Collette e Nicholas Hoult brilham em seus papéis como dois polos de forças opostas já tendo contracenado antes como mãe e filho em Um Grande Garoto (2002), primeiro filme de Hoult. O filme teve bilheteria de cerca de US$ 20 milhões na Europa apesar de ter tido distribuição limitada, chegando no Brasil direto no streaming. É visível que a Warner não acredita nos produtos que possuem, sendo essa a razão pela qual Christopher Nolan desfez sua parceria com a Warner após os desentendimentos deste gerados pelo lançamento de Tenet (2022). Se Eastwood vai levar a sério a aposentadoria anunciada, fica aqui uma ótima despedida, de um ator e diretor que soube deixar sua marca, mesmo que os executivos da Warner sejam cegos demais para perceber.