por Sérgio Cortêz

Eviscerar a essência do ser humano tantas vezes oculta por falsas aparências, tornou-se a especialidade do escritor e jornalista pernambucano Nelson Rodrigues. A despeito dos paradigmas sociais existentes em cada época, expôs como nenhum outro autor toda sorte de mazelas advindas de segredos, paixões e egoísmos inerentes à natureza humana. Mas nada que parecesse inverossímil: afinal, decisões e atitudes podem trazer consequências que nem sempre estão de acordo com aquilo que as pessoas – e, não raro, a própria sociedade – esperam.
* O Autor

Nelson Falcão Rodrigues nasceu na capital de Pernambuco a 23 de agosto de 1912, migrando para a cidade do Rio de Janeiro quatro anos depois. Foi na juventude que aprimorou sua técnica de escrita durante o período em que labutou no jornal A Manhã, que pertencia a seu pai, o jornalista Mário Rodrigues. Foi repórter policial durante muitos anos, experiência que lhe rendeu o precioso know how que seria utilizado em seus futuros escritos.
“A Mulher sem Pecado” (1941) foi a primeira peça escrita por Nelson Rodrigues, cujo sucesso rendeu-lhe certo prestígio dentro do cenário teatral – algo muito positivo para um autor em ascensão. A consagração veio com “Vestido de Noiva” (1943), considerado por muitos um texto assaz inovador para sua época: ao apresentar três planos simultâneos (realidade, memória e alucinação da protagonista Alaíde), “Vestido de Noiva” criou inovações estéticas que iniciaram o processo de modernização do teatro brasileiro.
Nos anos seguintes, Nelson Rodrigues ganhou fama e status com o sucesso obtido por outras obras, as quais elevaram-no ao patamar de maior dramaturgo brasileiro do século XX – ainda que alguns de seus trabalhos não escapassem ao crivo da crítica, sendo considerados imorais, vulgares e, por vezes, obscenos.

Na década de 1960, passou a dedicar-se também às crônicas esportivas, movido principalmente por sua notória paixão pelo futebol. Era também conhecido por suas frases ásperas que, entre uma e outra entrevista, causavam surpresa e espanto às pessoas, como:
“Invejo a burrice, porque é eterna”;
“Toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma”;
“Não existe família sem adúltera”;
“O brasileiro é um feriado”;
“Não há admiração mais deliciosa do que a do inimigo” e muitas outras.
* A Obra
Nelson Rodrigues escreveu inúmeros romances, contos e crônicas, muitos publicados e encenados até os dias de hoje. Escreveu dezessete peças teatrais divididas, segundo critérios do crítico Sábato Magaldi, em três grupos: Peças Psicológicas, Peças Míticas e Tragédias Cariocas.
“A mulher sem pecado” (1941), “Vestido de noiva” (1943), “Álbum de Família” (1946), “Perdoa-me Por Me Traíres” (1957), “Viúva, Porém Honesta” (1957) e “Bonitinha, Mas Ordinária” (1962) estão entre alguns dos seus trabalhos mais reconhecidos. Já na TV, telenovelas e séries como “A Morta Sem Espelho” (1963), “O Homem Proibido” (1982), “Meu Destino é Pecar” (1984), “Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados” (1995) e “A Vida Como Ela É” (1996) tornaram-se muito populares, concebendo projeção nacional à obra do autor.

“A Mulher Sem Pecado”, jornal A Manhã, 1942.
Não obstante, os textos de Nelson Rodrigues levados às telonas deram origem à películas que conquistaram uma legião de fãs, além de bilheterias substanciais. Entre os filmes mais conhecidos, destaque para “Meu destino é pecar” (1952, dirigido por Manuel Pelufo), “Boca de ouro” (1963, dirigido pelo icônico Nelson Pereira dos Santos), “Toda Nudez Será Castigada” e “O Casamento” (1973 e 1975 respectivamente, ambos dirigidos por Arnaldo Jabor), “A Dama Do Lotação” (1978, dirigido por Neville d’Almeida) e “Bonitinha, Mas Ordinária ou Otto Lara Rezende” (1981, dirigido por Braz Chediak).

* Os 13 Pontos
Nelson Rodrigues faleceu no Rio de Janeiro na manhã do domingo, dia 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos de idade, vítima de complicações cardíacas e respiratórias. Curiosamente, no fim da tarde daquele domingo, um bolão do qual participara ao lado de seu irmão Augusto e de amigos do jornal O Globo, acertou os treze pontos na Loteria Esportiva. Assim foi Nelson Rodrigues: imprevisível e surpreendente – até o fim.

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