Marcelo Kricheldorf iniciando uma série de artigos em homenagem à maravilhosa atriz.

Lançado em 1961, Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s) é muito mais do que uma comédia romântica estilizada; é um estudo melancólico sobre a solidão urbana e a construção da identidade na Nova York do pós-guerra. Dirigido por Blake Edwards e baseado na obra de Truman Capote, o filme equilibra a sofisticação da alta-costura com a crueza de personagens que tentam desesperadamente encontrar seu lugar em um mundo que só valoriza aparências. O enredo gira em torno de Holly Golightly (Audrey Hepburn), uma jovem que vive como acompanhante de luxo, navegando pelas festas da elite nova-iorquina em busca de um casamento vantajoso. Sua vida é pautada pelo improviso e pela negação de suas raízes. A chegada de Paul Varjak (George Peppard), um escritor que sofre de um bloqueio criativo e é mantido financeiramente por uma mulher mais velha, serve como o catalisador dramático.
A busca pela identidade é o eixo central. Holly não é apenas uma socialite; ela é Lulamae Barnes, uma menina órfã do Texas que fugiu de um casamento precoce para se reinventar na metrópole. O filme utiliza a joalheria Tiffany & Co. como uma metáfora poderosa: para Holly, o luxo não é apenas ganância, mas um símbolo de segurança. Em suas palavras, é o único lugar onde “nada de ruim pode acontecer”, contrastando com a ansiedade existencial (os “vermelhos”) que a persegue em seu apartamento vazio. A relação entre Holly e Paul desafia as convenções do gênero. Ambos são, em essência, figuras marginalizadas que vendem sua companhia em troca de estabilidade. Essa mútua vulnerabilidade permite que desenvolvam uma amizade profunda antes de se tornarem amantes. O amor, em Bonequinha de Luxo, é retratado como um ato de coragem. Holly teme o compromisso, vendo-o como uma gaiola — simbolizado pelo seu “Gato” sem nome. No clímax emocional sob a chuva, Paul a confronta com a verdade de que “as pessoas pertencem umas às outras”. A aceitação do amor torna-se, portanto, o ato final de aceitação de si mesma, abandonando a persona inalcançável para abraçar a realidade humana. Blake Edwards utiliza uma direção elegante, marcada pelo uso inteligente do espaço e das cores. Ele suavizou o tom sombrio e a bissexualidade presentes no livro de Capote para adequar o filme aos padrões de Hollywood da época, mas injetou doses de comédia física (slapstick) e sátira social. A cena da festa no apartamento é um exemplo magistral de como o diretor critica a frivolidade da sociedade através do caos visual e sonoro. No centro de tudo está Audrey Hepburn. Sua interpretação transformou uma personagem que poderia ser vista como moralmente ambígua em um ícone de vulnerabilidade e graça. Ao cantar “Moon River” na escada de incêndio, Hepburn humaniza Holly, revelando a nostalgia e a solidão que se escondem sob os vestidos de Givenchy. É uma atuação que define uma carreira e um arquétipo feminino no cinema.
O filme capturou a transição da década de 1950 para os anos 60, refletindo a mudança nos costumes e o surgimento da mulher moderna e independente. Contudo, o contexto histórico também traz uma mancha crítica: a representação caricata e racista do Sr. Yunioshi por Mickey Rooney. Esse elemento, amplamente condenado hoje, serve como um lembrete das falhas éticas da indústria cinematográfica da época. O legado de Bonequinha de Luxo é imensurável na moda e na cultura pop. Mas, para além da estética, o filme permanece relevante por sua exploração universal do desejo humano de pertencer a algum lugar enquanto se luta para manter a própria liberdade
Ficha Técnica
- Título original: Breakfast at Tiffany’s
- Direção: Blake Edwards
- Roteiristas: George Axelrod (baseado no romance de Truman Capote)
- Elenco principal & Dublagem: (Estúdios VTI)
- Audrey Hepburn como Holly Golightly / Lina Rossana.
- George Peppard como Paul Varjak / Elcio Romar
- Patricia Neal como 2E / Selma Lopes
- Buddy Ebsen como Doc Golightly / Waldyr Sant’anna
- Martin Balsam como O.J. Berman / Eduardo Dascar
- Mickey Rooney como Mr. Yunioshi / Ionei Silva
- Gênero: Comédia Romântica
- Duração: 1h 55min (115 minutos)
- País de origem: Estados Unidos
- Idioma: Inglês
- Prêmios:
- 2 Oscars, incluindo Melhor Trilha Sonora (Henry Mancini)
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