Andre Azenha

Antes que o cinema aprendesse a falar, Buster Keaton já dizia tudo com o silêncio. Era o comediante de rosto imóvel, o “homem que nunca ria”, e talvez por isso tenha se tornado um dos artistas mais profundos que o cinema já conheceu. Filho de artistas de circo, Keaton aprendeu desde cedo a cair — literalmente. Jogado pelo pai em números acrobáticos, transformou a dor física em espetáculo. Quando descobriu a câmera, percebeu que podia transformar o perigo em poesia. Em seus filmes, prédios desabavam, trens avançavam, o mundo ruía sobre ele — e ainda assim, o olhar permanecia sereno. Durante os anos 1920, Keaton foi um dos grandes arquitetos da linguagem cinematográfica. Inventou planos impossíveis, fez acrobacias sem dublês, criou cenas que ainda desafiam a lógica. A General, sua obra-prima, uniu humor e épico em uma só respiração. Ele era o corpo em movimento, o homem que enfrentava o caos com elegância. Mas o advento do cinema sonoro quebrou o feitiço. A MGM o contratou, podou sua liberdade e o transformou em mais um funcionário da fábrica. O artista que dançava com locomotivas passou a filmar roteiros que não o pertenciam. Afundou no álcool, perdeu fortuna, esposa, prestígio. O rosto impassível escondia agora um homem em ruínas. Décadas depois, a crítica o redescobriu. O mundo entendeu que Keaton não era apenas um palhaço — era um poeta visual, um engenheiro da emoção. Recebeu homenagens, prêmios, aplausos tardios. Buster Keaton morreu em 1966, tranquilo, como quem enfim encontrou o silêncio que tanto procurava. O rosto imóvel continua projetado nas telas, e, mesmo sem sorrir, ele ainda nos faz rir — e pensar. Porque talvez o segredo de Buster sempre tenha sido esse: não rir do mundo, mas resistir a ele com um olhar firme e um coração em movimento.