André Azenha

Por trás do sorriso mais generoso de Hollywood havia um silêncio. Robin Williams era um furacão em cena — um comediante capaz de transformar o caos em harmonia, de mudar de personagem no meio de uma frase, de fazer rir com uma dor que parecia não ser dele. Mas era.
Antes de ser astro, Robin era o garoto solitário de Chicago que inventava vozes para afastar o vazio. O humor foi sua armadura e sua salvação. Nos palcos, ele era um relâmpago; fora deles, um homem que se movia entre o espanto e a ternura. Quando surgiu em Mork & Mindy, nos anos 70, a televisão americana descobriu algo que não sabia nomear — uma mistura de genialidade e vulnerabilidade que logo o levaria ao cinema.
Vieram Bom Dia, Vietnã, Sociedade dos Poetas Mortos, Tempo de Despertar, Gênio Indomável. Cada papel parecia revelar um fragmento do homem que ele tentava esconder: o professor que acreditava nos sonhos, o médico que curava com riso, o amigo que enxergava a dor dos outros porque reconhecia a própria. Nos bastidores, Robin lutava contra o vício, a ansiedade, a solidão. Era o homem que fazia todos rirem, mas saía dos palcos exausto, drenado, perseguido por fantasmas invisíveis. Os amigos diziam que ele era “o mais rápido do mundo” — ninguém improvisava como ele —, mas também o mais sensível, o primeiro a oferecer ajuda, o último a pedir.
O público via o comediante incansável; poucos enxergavam o artista que, ao fim de cada performance, parecia ter deixado um pedaço de si. “Eu só quero fazer as pessoas se sentirem menos sozinhas”, dizia. E talvez essa tenha sido a sua missão — e o seu fardo. Em agosto de 2014, o riso cessou. A notícia de sua morte percorreu o mundo como uma piada cruel. Descobriu-se depois que sofria de uma doença neurodegenerativa devastadora, que lhe roubava a clareza, o corpo e a alegria — a demência com corpos de Lewy. Ele havia tentado suportar, mas a mente que sempre correra mais rápido que o resto do mundo, enfim, se cansou.
Robin Williams foi tudo o que o cinema e a vida podiam pedir de um artista: alma. Era o palhaço e o poeta, o mágico e o homem comum. Fez do riso uma forma de resistência e da dor uma forma de arte.