PRELO & PELÍCULA | O FALCÃO MALTÊS

Adilson Carvalho

A recente notícia de que o livro O Falcão Maltês (The Maltese Falcon) de Dashiell Hammett entrou para o domínio público traz à tona uma das grandes obras da literatura detetivesca que as novas gerações precisavam redescobrir. O autor, nascido na Filadelfia, chegou a trabalhar como detetive para a renomada agência Pinkerton por volta de 1915, cerca de 14 anos antes da publicação original do livro que introduziu o detetive Sam Spade em capítulos serializados na revista pulp The Black Mask. O autor usou seu primeiro nome “Samuel”, para o protagonista da história, Sam Spade. Já no ano seguinte foi publicada como livro, a obra se tornou a essência de um gênero analisando a natureza humana, suas paixões e ambições. Na história, Sam Spade é um detetive particular em São Francisco, contratado pela bela Srta Wonderley para seguir Floyd Thursby, que ela alega ter fugido com sua irmã. Miles Archer, sócio de Spade, é encontrado morto, assim como Thursby também, deixando Spade como suspeito. Em seguida a Srta Wonderley logo se revela uma aventureira gananciosa chamada Brigid O’Shaughnessy, interessada em achar uma estatueta negra de valor inestimável, na forma de um falcão, e atrás deste estão também Joel Cairo, um criminoso afeminado, e Casper Gutman, um homem gordo acompanhado por um jovem pistoleiro cruel, Wilmer Cook. A obra de Hammett estabelece os arquétipos da literatura policial como a femme fatale, o capanga ameaçador e a figura moralmente ambígua do anti-herói representado por Spade, que justifica suas ações através de seu próprio código de conduta. A história se desenvolve em torno da busca pela estatueta, mas menos importante é o valor real desta em comparação à natureza humana exposta no pós guerra, lembrando que o livro foi escrito após a Primeira Guerra.

O livro já ganhou uma adaptação para o cinema em 1931 com Ricardo Cortez como Sam Spade. Em 1936, a Warner Brothers tentou relançar o filme, mas a aprovação foi negada pelos censores do Código de Produção Hays devido ao seu conteúdo considerado imoral, e somente depois de 1966 é que cópias não editadas do filme de 1931 puderam ser exibidas nos Estados Unidos. A versão considerada absoluta é a dirigida por John Houston e estrelada por Humphrey Bogart, Mary Astor, Peter Lorre, Sydney Greenstreet, Elisha Cook Jr e Gladys George. Esta versão eliminou grande parte do conteúdo tido como desconfortável na versão de 1931. Oito falcões malteses foram usados no filme — dois de chumbo e seis de gesso. Os falcões de chumbo pesavam cerca de 23 kg cada, e a atriz Lee Patrick acidentalmente deixou cair um deles no pé de Humphrey Bogart durante as filmagens. Ele está em exibição no museu do cinema dos estúdios da Warner Bros., e suas penas da cauda estão visivelmente amassadas devido à queda. Uma cópia do primeiro rascunho do roteiro de John Huston foi acidentalmente enviada ao diretor do estúdio, Jack L. Warner, e ao produtor designado do filme, Henry Blanke. Para surpresa de Huston, Warner adorou o roteiro e insistiu que Huston começasse a filmar imediatamente. Embora os executivos da Warner Bros. estivessem satisfeitos com o rascunho do roteiro de John Huston, eles impuseram restrições à produção do diretor estreante, concedendo-lhe apenas seis semanas para filmar o filme com um orçamento de US$ 300.000. Se Huston ultrapassasse o orçamento, a Warner Bros. o avisou que ele teria que procurar outro emprego. No entanto, Huston não deixou nada ao acaso. Ele adaptou o roteiro para incluir instruções cena a cena para ele e sua equipe, detalhando a configuração de cada cena. O roteiro final foi tão bem elaborado que era possível ler o roteiro e visualizar perfeitamente o filme finalizado. Esse método foi usado por Huston apenas para este filme. Outros diretores, como Alfred Hitchcock e, mais tarde, Steven Spielberg, empregariam esse método com mais frequência ao longo de suas carreiras. O filme foi a estreia do ator Sydney Greenstreet, então com 62 anos, e pela qual ele conquistou sua única indicação ao Oscar, uma outra estatueta que para muitos é o material da qual são feitos os sonhos.

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