Marcelo Kricheldorf

O cinema de Stanley Kubrick é frequentemente definido por sua busca incessante pela perfeição técnica, mas em Barry Lyndon, essa técnica serve a um propósito maior: a reconstrução cirúrgica de uma época. Adaptado da obra de William Makepeace Thackeray, o filme não é apenas uma biografia ficcional, mas um estudo sobre a futilidade da ambição em uma sociedade estratificada, onde a estética e a violência caminham de mãos dadas. A trajetória de Redmond Barry (Ryan O’Neal) é o fio condutor de uma narrativa dividida entre o ímpeto da juventude e a decadência da maturidade. Ao transformar um jovem irlandês ingênuo em um oportunista cínico, Kubrick explora como o ambiente molda o caráter. A ascensão de Barry não se dá pelo mérito, mas pela sobrevivência através de jogos de azar, deserções e intrigas. No entanto, sua queda é inevitável. Ao tentar comprar um título de nobreza para se legitimar, ele descobre que a aristocracia é um clube fechado que tolera o seu dinheiro, mas jamais a sua linhagem.
A direção de Kubrick é o pilar que sustenta a atmosfera do filme. O uso inovador de lentes da NASA para filmar apenas com luz de velas não foi um mero capricho técnico, mas uma escolha narrativa. Essa iluminação, somada à composição inspirada em pintores como Thomas Gainsborough, cria o efeito de “quadros vivos”. O resultado é uma sensação de imobilidade: os personagens parecem prisioneiros de suas molduras sociais, sugerindo que, apesar de todo o movimento de Barry, o destino já está traçado pela rigidez da época.
A relação entre Barry e Lady Lyndon (Marisa Berenson) exemplifica a crítica de Kubrick à superficialidade aristocrática. O casamento, desprovido de afeto real, é uma transação de poder e status. Esse vazio emocional culmina na tensa relação com seu enteado, Lord Bullingdon. A cena do duelo no celeiro é, talvez, o momento mais emblemático do filme. Ali, a civilidade ríspida do século XVIII — com suas regras de honra e protocolos — mascara um ódio visceral. O erro de Barry ao disparar para o chão e a subsequente retaliação de Bullingdon simbolizam o momento em que a sorte do protagonista finalmente se esgota, selando sua ruína física e financeira. Diferente do livro, onde Barry conta sua própria história, Kubrick utiliza um narrador onisciente. Essa voz externa confere ao filme um tom de crônica histórica e distanciamento irônico. O espectador observa os esforços de Barry com uma melancolia antecipada, sabendo que, como afirma o epílogo do filme, no final, todos aqueles personagens — bons ou maus, ricos ou pobres — “são agora todos iguais”. Barry Lyndon permanece como uma das obras mais visualmente deslumbrantes da história do cinema, mas seu verdadeiro poder reside na forma como desmascara a hipocrisia humana. Kubrick utiliza a beleza plástica para contrastar com a feiura moral de suas figuras, entregando um artigo visual sobre como a busca incessante por poder e riqueza pode levar a uma existência ricamente adornada, porém profundamente vazia.
Ficha Técnica
- Título original: Barry Lyndon
- Direção: Stanley Kubrick
- Roteiristas: Stanley Kubrick, baseado no romance “The Luck of Barry Lyndon” de William Makepeace Thackeray
- Elenco principal:
- Ryan O’Neal como Redmond Barry
- Marisa Berenson como Lady Lyndon
- Patrick Magee como Chevalier de Balibari
- Hardy Krüger como Capitão Potzdorf
- Steven Berkoff como Lord Ludd
- Gênero: Drama, Histórico
- Duração: 3h 5min (185 minutos)
- País de origem: Reino Unido/Estados Unidos
- Idioma: Inglês
- Prêmios:
- 4 Oscars, incluindo Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Vestuário e Melhor Trilha Sonora Adaptada.