CINEFILIA POÉTICA | O DISCURSO FINAL DE O GRANDE DITADOR

André Azenha

Não é por acaso que O Grande Ditador (The Great Dictator) foi proibido na Alemanha e em todos os territórios ocupados pelos nazistas em 1940. Um filme que satirizava Adolf Hitler, expondo o ridículo e a brutalidade do poder autoritário, jamais seria tolerado pelo regime. O mais inquietante, visto hoje, é que Charlie Chaplin também foi alertado de que o longa poderia enfrentar censura na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. À época, a política de apaziguamento ainda vigorava e a guerra parecia, para muitos governos, um problema distante. Dirigido, escrito e estrelado por Chaplin, O Grande Ditador marcou sua estreia definitiva no cinema falado. Enquanto escrevia e filmava, colegas da United Artists temiam que nenhum país aceitasse exibir uma obra tão frontalmente anti-Hitler. Cartas chegaram implorando que desistisse do projeto. Chaplin seguiu em frente. Sabia que aquele filme não era apenas uma comédia: era um posicionamento histórico. Lançado em 1940, o filme usou o humor como arma política para denunciar o nazismo e alertar o mundo. Chaplin não caricaturou apenas Hitler, mas o mecanismo do autoritarismo em si — um modelo que se repetiria ao longo do século. Ao interpretar dois papéis, o ditador Adenoid Hynkel e um barbeiro judeu anônimo, criou um contraste brutal entre o delírio do poder e a fragilidade das vítimas da perseguição. O clímax rompe a ficção. No discurso final, Chaplin abandona o personagem e fala diretamente à humanidade, num apelo por paz, união, decência e fraternidade. Chamado de exagerado na época, o discurso hoje soa profético. Mesmo envolto em cenas cômicas inesquecíveis, o filme carrega um peso emocional raro, alternando humor e terror com precisão desconcertante. O Grande Ditador foi um enorme sucesso de bilheteria e permanece vivo porque teve coragem de dizer o que muitos temiam. Um clássico que atravessa décadas não apenas como cinema, mas como testemunho moral de um artista que enxergou o perigo antes que o mundo quisesse ver. 

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