MUSICA & POESIA | QUEEN: A MAJESTADE DA INOVAÇÃO

Marcelo Kricheldorf

A história da música popular é pontuada por fenômenos que alteram o curso da cultura, mas poucos foram tão audaciosos quanto o Queen. Formada em Londres, em 1970, a banda surgiu da dissolução do grupo Smile, quando o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor uniram forças ao carismático vocalista Freddie Mercury. Com a chegada do baixista John Deacon em 1971, consolidou-se o quarteto que viria a desafiar todas as convenções do show business. O nome Queen, sugerido por Mercury, não era apenas uma provocação à monarquia ou às normas de gênero da época; era uma declaração de intenções sobre a grandiosidade e a pompa que a banda pretendia imprimir em sua arte.

No coração do Queen residia a voz de Freddie Mercury, frequentemente citada como uma das maiores da história da música. Mais do que talento, sua voz era uma anomalia técnica: estudos acústicos modernos sugerem que Mercury possuía um vibrato excepcionalmente rápido e uma capacidade de usar sub-harmônicos que poucos cantores de rock conseguem atingir. Com uma extensão de quatro oitavas, ele transitava sem esforço entre um barítono profundo e um tenor agudo e cristalino. Freddie recusava-se a corrigir sua má oclusão dentária, acreditando que o espaço extra em sua boca era o segredo de sua ressonância única. Sua presença de palco, por sua vez, transformava estádios em espaços íntimos, onde cada espectador sentia-se conectado ao artista.

O Queen nunca se contentou em ser apenas uma banda de rock. Eles foram pioneiros na fusão de gêneros que pareciam irreconciliáveis: heavy metal, ópera, gospel, vaudeville e disco. Essa criatividade era impulsionada pela formação acadêmica diversificada de seus membros (em artes, astrofísica, odontologia e engenharia), o que lhes conferia uma abordagem intelectualizada da composição. A influência do teatro e do musical era evidente não só nos figurinos extravagantes e nas capas de álbuns, mas na própria estrutura das canções, que frequentemente abandonavam o formato tradicional de “verso-refrão” em favor de narrativas complexas e dramáticas.

Nenhuma música simboliza melhor essa ousadia do que Bohemian Rhapsody (1975). Com quase seis minutos de duração e sem um refrão definido, a faixa foi inicialmente rejeitada por executivos de gravadoras que a consideravam longa demais para as rádios. A gravação foi um feito de engenharia: os “overdubs” vocais eram tão numerosos que a fita original tornou-se quase transparente de tanto ser usada. A seção operística, os solos melódicos de Brian May e o final explosivo criaram um épico que mudou a percepção do que um single de rock poderia ser. O vídeo promocional da música é também creditado como o nascimento da era do videoclipe moderno, estabelecendo um padrão visual para a indústria décadas antes da MTV.

Diferente de muitas bandas dominadas por um único líder, o Queen era uma democracia criativa. Cada um dos quatro membros compôs ao menos um hit que alcançou o topo das paradas mundiais como Another One Bites the Dust de Deacon ou Radio Ga Ga de Taylor, esta retomando o visual do classico Metropolis de Fritz Lang.. Essa sinergia foi posta à prova na transição para os anos 80, culminando no álbum The Game (1980). Esta fase marcou o ápice comercial da banda nos EUA e no mundo, adotando ritmos de sintetizadores e influências de funk e rockabilly. Foi nesta época que o Queen se tornou a maior banda de turnês do planeta, lotando estádios na América Latina (como o lendário show no Morumbi em 1981) e quebrando recordes de público que perduram até hoje.

Apesar da imagem glamourosa, o Queen não se esquivou de temas complexos. O clipe de “I Want to Break Free tornou-se um símbolo de libertação, embora tenha sido censurado em partes conservadoras do mundo. A banda navegava por questões de identidade e repressão com uma ambiguidade poética. Nos anos finais de Mercury, após seu diagnóstico de AIDS, a música do Queen adquiriu uma camada extra de profundidade e urgência. Faixas como The Show Must Go On servem como um testamento político e pessoal sobre a resiliência humana diante da mortalidade, elevando a banda de ícones pop a figuras de profunda relevância humana.

O legado do Queen é uma força viva. A influência da banda estende-se para o cinema, com trilhas icônicas como em Flash Gordon e Highlander – as fabulosas A Kind of Magic e Primces of the Universe alem da cinebiografia Bohemian Rhapsody (2018), que reintroduziu a banda para as novas gerações e rendeu um Oscar a Rami Malek. No teatro, o musical We Will Rock You manteve o catálogo da banda em evidência por décadas. Hoje, o Queen não é apenas uma banda do passado; é um pilar da cultura global. Suas canções tornaram-se hinos universais de vitória, resistência e celebração da individualidade, provando que, décadas após o silêncio de Freddie Mercury, a majestade do Queen continua absolutamente inabalável.

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