Adilson Carvalho

Toda vez que estava pronto para filmar, o saudoso Jack Lemmon costumava dizer “É Hora da Mágica!“. E não há dúvida que seu talento em cena extrapolava as telas com sua versatilidade. Ator, produtor e músico hábil, um auto-didata que sabia tocar piano, gaita, contrabaixo e outros instrumentos, útil para seus papéis em Sortilégios de Amor (1958) e Quanto Mais Quente Melhor (1959) John Uhler Lemmon III completa hoje (08/02) 100 anos, uma vida e carreira prolífica com sete indicações ao Oscar de melhor ator, sendo também o primeiro ator a ganhar tanto o Oscar de melhor ator coadjuvante (Mister Roberts em 1955) como melhor ator (Sonhos do Passado em 1973). Ganhou em Cannes duas vezes na categoria de Melhor Ator, por Síndrome da China (1979) e Missing – O desaparecido (1982), fora Festival de Berlim, Festival de Veneza, Globo de Ouro e outras honrarias.

Nascido em 8 de janeiro de 2025, filho do presidente de uma empresa de Donuts, ele frequentou ótimas escolas e cursou ciências políticas em Harvard além de ter servido em um porta aviões durante a Segunda Guerra. Nunca esqueceu seu sonho de atuar, que alimentava desde os oito anos. Seu primeiro papel foi na série de TV That Wonderful Guy (1949-1950). No cinema seu primeiro filme foi Demônio de Mulher, em 1954 sob a batuta de George Cukor. Era o início de seu contrato com a Columbia Pictures e o chefão do estúdio Harry Cohn queria que Lemmon mudasse seu nome de tela para Jack Lennon. Cohn temia que os críticos fizessem uso do sobrenome de Lemmon (ou seja, Lemmon em inglês é um limão”). O ator convenceu Cohn de que, se ele mudasse seu nome para “Lennon”, todos pensariam que ele era parente de Vladimir Lênin, o fundador do comunismo soviético (isso foi na década de 1950, em plena guerra fria, e anos antes do surgimento de John Lennon e dos Beatles). Referindo-se a Vladimir Lênin, Cohn teria dito a Lemmon: “Não, isso está errado. Eles pronunciam seu nome como ‘Len-IN’”, ao que Jack teria respondido com firmeza dizendo “Não, pronuncia-se ‘LEN-in‘.” Depois de fazer uma ligação telefônica para um associado russo, que confirmou que o nome de Lênin era pronunciado como “LEN-in”, Cohn concordou em deixar Lemmon manter seu próprio nome.

Em 1959 fez um de seus filmes mais marcantes, Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot), ao lado de Marilyn Monroe e Tony Curtis. No filme Jack interpreta Jerry, um músico que junto de seu amigo Joe (Curtis) testemunha um crime da máfia. Fugindo para se proteger se disfarçam de Daphne e Josephine, membros de uma banda só de mulheres. Enquanto Joe conquista a bela cantora Sugar (Monroe), Daphne/Jerry é assediado pelo milionário Osgood Fielding III (Joe E. Brown). A atuação de Jack está em 29º lugar na lista dos 100 Maiores Personagens de Filmes de Todos os Tempos pela Premiere Magazine. A sequência final é uma das mais divertidas e curiosas da comédia hollywoodiana, tendo sido imitada no final de As Branquelas (2004). Depois de Quanto Mais Quente Melhor (1959), o ator voltou a trabalhar com Billy Wilder em mais 6 filmes: Se Meu Apartamento Falasse (1960), Irma la Douce (1963), Uma Loura por um Milhão (1966), A Primeira Página (1974), Avanti ! Amantes à Italiana (1972), e Amigos, Amigos, Negócios à Parte (1981).
A versatilidade de Jack Lemmon o permitia transitar por vários gêneros. Em 1962 teve uma atuação sofrida em Vício Maldito (1962) como um alcoolatra contracenando com Lee Remick. O papel foi catártico para o ator, que sem que ninguém soubesse também tinha problemas com a bebida, condição que o ator só revelou em uma entrevista ao Actor’s Studio em 1994. O filme foi um apurado trabalho sobre o dependência da bebida com supervisão do co fundador do AA (Alcoolatras Anônimos). Em 1965 interpretou o cartunesco vilão Professor Fate na aventura cômica A Corrida do Século (The Great Race), personagem que foi a inspiração para que a Hanna Barbera criasse o divertido Dick Vigarista do desenho A Corrida Maluca.

Jack teve longa parceria com Walter Matthau atuando juntos em 10 filmes: Uma Loura por um Milhão (1966), Um Estranho Casal (1968), A Primeira Página (1974), Amigos, Amigos, Negócios à Parte (1981), JFK: A Pergunta que Não Quer Calar (1991), Dois Velhos Rabugentos (1993), Dois Velhos Mais Rabugentos (1995), Ensina-me a Viver (1995), Dois Parceiros em Apuros (1997) e Meu Melhor Inimigo (1998). Lemmon também dirigiu Matthau em Ainda Há Fogo Sob as Cinzas (1971). Apesar de ter passado muito tempo em sua carreira associado a comédias, Jack mostrou sua força dramática constantemente em filmes como Aeroporto ’77, Síndrome da China (1979), Desaparecido – Um Grande Mistério (1982) e Meu Pai – Uma Lição de Vida (1989). Sua relação com seu filho na vida real, Chris Lemmon, inspirou uma peça sobre o relacionamento de pai e filho, escrita pelo próprio Chris. A peça estreou no St James Theatre, em Londres, de 1º a 18 de junho de 2016, 15 anos depois da morte de Jack aos 76 anos, vitimado pelo câncer de bexiga, quatro dias antes de completar um ano da morte de seu amigo Walter.