Marcelo Kricheldorf revisita o clássico de David Lean, vencedor de sete Oscars.

Lançado em 1957 e vencedor de sete estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Filme, A Ponte do Rio Kwai não é apenas um épico de guerra; é um estudo profundo sobre a fragilidade da psique humana e o absurdo inerente aos conflitos armados. Sob a direção meticulosa de David Lean, o filme utiliza o cenário da Segunda Guerra Mundial para questionar onde termina o dever militar e onde começa a cegueira moral.
A trama se desenrola em 1943, em um campo de prisioneiros japonês na Birmânia (atual Myanmar), parte da infame “Ferrovia da Morte”. O núcleo dramático reside no embate entre o Coronel Nicholson (Alec Guinness) e o Coronel Saito. Nicholson, um oficial britânico austero e perfeccionista, recusa-se a permitir que seus oficiais realizem trabalho braçal, citando a Convenção de Genebra. Após resistir a torturas brutais, ele “vence” psicologicamente Saito. Ironicamente, para provar a superioridade da disciplina britânica, Nicholson assume a liderança da construção de uma ponte ferroviária estratégica para o inimigo, transformando um projeto de escravidão em uma questão de orgulho e perfeccionismo técnico.
A obra explora como a busca pela dignidade pode se transformar em obsessão. Para Nicholson, a ponte é o único meio de manter a moral de seus homens sob custódia. No entanto, sua lealdade ao código militar o cega para o fato de que ele está construindo uma vantagem logística crucial para quem o aprisionou. Enquanto Nicholson se perde em seu monumento de engenharia, o marinheiro americano Shears (William Holden), que fugiu do campo, é forçado a retornar em uma missão de sabotagem para destruir justamente o que Nicholson criou. Este contraste entre a construção e a destruição simboliza o paradoxo da guerra.
David Lean utiliza o formato CinemaScope e o Technicolor para criar um espetáculo visual que contrasta a exuberante e indiferente natureza da selva com a rigidez das estruturas militares. A famosa trilha sonora, com o assobio da “Marcha do Coronel Bogey”, tornou-se um símbolo de resistência e, simultaneamente, de conformidade trágica. A ponte em si é o símbolo máximo da vaidade: um elo físico que une o esforço humano, mas que, no contexto bélico, serve apenas como alvo.
O clímax do filme é um dos mais impactantes da história do cinema. No momento da inauguração, Nicholson percebe o plano de sabotagem e, em um momento de confusão mental e lealdade distorcida, tenta protegê-la. Sua morte acidental sobre o detonador e o subsequente colapso da ponte encerram o ciclo de construção e destruição. A palavra final do Major Clipton, “Loucura… loucura!”, ecoa como o veredito definitivo sobre o esforço de todos os envolvidos.
Ficha Técnica
- Título original: The Bridge on the River Kwai
- Direção: David Lean
- Roteiro: Pierre Boulle, Carl Foreman e Michael Wilson (baseado no romance de Pierre Boulle)
- Elenco:
- Alec Guinness como Coronel Nicholson
- William Holden como Major Shears
- Jack Hawkins como Major Warden
- Sessue Hayakawa como Coronel Saito
- James Donald como Major Clipton
- Gênero: Guerra, Drama
- Duração: 161 minutos
- País de origem: Reino Unido/Estados Unidos
- Idioma: Inglês
- Lançamento: 11 de outubro de 1957 (Reino Unido)
- Produção: Sam Spiegel
- Cinematografia: Jack Hildyard
- Música: Malcolm Arnold
- Prêmios: 7 Oscars, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator (Alec Guinness), Melhor Fotografia (Jack Hildyard), Melhor Edição (Peter Taylor), Melhor Roteiro Adaptado (Michael Wilson, Carl Foreman e Pierre Boulle) e Melhor Trilha sonora (Malcolm Arnold).