CLÁSSICO REVISITADO | MISSÃO IMPOSSÍVEL – 30 ANOS

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1996, o primeiro filme da franquia Missão: Impossível no cinema representou uma ruptura significativa com as fórmulas tradicionais de ação da época. Sob a direção de Brian De Palma, o filme transcendeu a mera adaptação da série de TV dos anos 60, tornando-se um exercício sofisticado de estilo, paranoia e suspense psicológico. Ao contrário das sequências posteriores, focadas na escala global e no impacto físico, a obra de 1996 é um thriller, onde o perigo reside mais na traição intelectual do que na força bruta.
A trama estabelece-se em torno de um fracasso catastrófico. Durante uma operação em Praga para recuperar a Lista NOC (um arquivo contendo as identidades de agentes infiltrados), a equipe da IMF é sistematicamente eliminada. O protagonista, Ethan Hunt (Tom Cruise) sobrevive apenas para descobrir que a missão era uma forma planejada para expor um traidor interno, e ele é o principal suspeito. Segundo o roteiro assinado por David Koepp e Robert Towne, a narrativa não se desenrola de forma linear e simples; ela exige que o espectador navegue por um labirinto de meias-verdades, onde o objetivo de Hunt não é salvar o mundo, mas limpar seu nome em um sistema que já o condenou.
A assinatura de Brian De Palma é onipresente, especialmente na exploração da identidade e da vigilância. Utilizando sua técnica favorita — o ângulo holandês (câmera inclinada) — o diretor traduz visualmente o desequilíbrio e a desconfiança de Hunt. A identidade é tratada como algo maleável; as famosas máscaras de látex servem como metáfora para a “dupla personalidade” intrínseca ao espião. De Palma, um estudioso de Hitchcock, utiliza a técnica de split diopter para manter dois planos em foco simultâneo, forçando o público a observar a reação do traidor e do traído ao tempo,
O filme aborda a moralidade ambígua do serviço secreto. A famosa frase “caso seja capturado, o governo negará qualquer conhecimento” deixa de ser um clichê para se tornar uma ameaça real. A ética da IMF é baseada em resultados: agentes são peças de xadrez descartáveis. Paralelamente, a tecnologia é apresentada não como uma facilitadora, mas como um obstáculo opressor. A icônica cena da invasão ao quartel-general da CIA em Langley é o ápice dessa tensão. O silêncio absoluto, a necessidade de evitar até o suor no chão e a luta contra sensores de temperatura mostram que, no universo de De Palma, a tecnologia é uma forma de vigilância totalitária que desumaniza o indivíduo.
O ponto mais controverso e brilhante do filme é a subversão da figura de Jim Phelps (Jon Voight). Ao transformar o herói da série original no vilão da versão cinematográfica, o filme comenta sobre o cinismo do pós-Guerra Fria. Phelps trai sua equipe não por ideologia, mas por desilusão e ganância. Essa transição de lealdade para traição serve como o rito de passagem para Ethan Hunt, que precisa aprender a operar sem diretrizes morais claras para sobreviver.
Missão: Impossível permanece como uma peça singular no cinema de entretenimento. É uma obra que equilibra a adrenalina com o suspense claustrofóbico de uma sala de interrogatório. A direção de De Palma elevou o material de origem ao status de arte cinematográfica, provando que um filme de grande orçamento pode ser, ao mesmo tempo, um estudo de personagem sobre a solidão e a paranoia. Mais do que o início de uma saga de ação, o filme de 1996 é um testemunho da era em que a inteligência era a arma mais perigosa de um espião.

Ficha Técnica

  • Título Original: Mission: Impossible
  • Direção: Brian De Palma
  • Roteiro: David Koepp e Robert Towne, baseado na série de TV criada por Bruce Geller
  • Elenco:
  • Tom Cruise como Ethan Hunt
  • Jon Voight como Jim Phelps
  • Emmanuelle Béart como Claire Phelps
  • Henry Czerny como Eugene Kittridge
  • Jean Reno como Franz Krieger:
  • Ving Rhames como Luther Stickell
  • Vanessa Redgrave como Max
  • Kristin Scott Thomas como Sarah Davies
  • Ingeborga Dapkūnaitė como Hannah Williams
  • Emilio Estevez (sem créditos) como Jack Harmon
  • Rolf Saxon como William Donloe:
  • Marcel Iureș como Alexander Golitsyn:
  • Gênero: Ação, Espionagem
  • Duração: 110 minutos
  • País de Origem: EUA
  • Idioma: Inglês
  • Estreia: 1996 (EUA)
  • Distribuidora: Paramount Pictures

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