Adilson Santos

Um dos romance mais envolventes da literatura, O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights) é também um dos mais adaptados seja para TV ou cinema, publicado em 1847 saído da mente da escritora britânica Emily Bronte, sob o pseudônimo de Ellis Bell. Foi o único romance escrito pela segunda irmã mais velha das três irmãs Bronté (Anne e Charlotte), e também a mais misteriosa. Emily vivia reclusa por vontade própria, era introvertida e até hoje pouco se sabe sobre ela. Conta-se que tinha o braço deformado porque um cachorro a mordera, mas ela se recusou a procurar um médico, preferindo cuidar em casa de forma rudimentar, cauterizando sozinha a própria ferida. Publicado um ano antes da morte da autora, O Morro do ventos Uivantes (Wuthering Heights) não conquistou o público na época. Na história, Catherine Earnshaw e Heathcliff são irmãos de criação, apaixonados desde a criança. Heathcliff, de origem cigana, é humilhado pelo pai e pelo irmão dela. Anos depois, Heathcliff retorna rico e poderoso e reencontra Cathy casada com Edgar Linton, o vizinho rico, por pura conveniência e interesse. Vingativo, Heathcliff decide destruir a vida daqueles que o desprezaram, incluindo Cathy que não esperou por ele. O livro é um romance atípico, explorando o ódio, a rejeição, criticando as convenções sociais, e indo contra toda a tradição literária vitoriana.
A primeira adaptação cinematográfica da obra de Emily Brontë, foi lançada em 1920, ainda no período do cinema mudo cobrindo toda a narrativa no livro. Milton Rosman e Colette Brettel, respectivamente como Heathcliff e Cathy. Foi filmado em locações próximas à casa da família Brontë em Haworth, West Yorkshire, mas infelizmente não existem cópias do filme. A primeira adaptação do cinema falado foi dirigida por William Wyler, e é mais lembrada até hoje. Apesar de as gravações terem sido marcadas por um clima tenso e muitos desentendimentos, o filme se tornou um clássico e levou o Oscar de Melhor Fotografia em Preto e Branco naquele ano. Foi esta versão que inspirou a cantora Kate Bush a escrever sua música Wuthering Heights. O longa não cobre a história completa de Brontë, retratando apenas dezesseis dos trinta e quatro capítulos do romance, que teve a história deslocada para o século XIX, em vez do período 1771-1801 como no romance. A atriz Vivien Leigh (E O Vento Levou) queria interpretar o papel principal, ao lado de seu então amante e futuro marido Laurence Olivier, mas os executivos do estúdio decidiram oferecer a Vivien o papel de Isabella Linton, mas ela recusou, enquanto Merle Oberon ficou com o papel de Cathy.

Em 1954, o diretor espanhol Luis Buñuel fez sua adaptação da obra de Emily Brontë rebatizando de Escravos do Rancor, novamente uma adaptação parcial do livro, desta vez ambientada no México do século 19. Em 1988, foi a vez do Japão fazer sua própria versão chamada Arashi ga oka (1988) levando a história para o período feudal. Tivemos também uma telenovela brasileira, produzida pela extinta TV Excelsior, exibida de 6 de fevereiro a 28 de julho de 1967 em 125 capítulos, escrita por Lauro César Muniz e dirigida por Dionísio Azevedo, trazendo Irina Grecco como Cathy e Altair Lima como Heathcliff. Uma versão bem impactante, mas também não integral do texto, foi a de 1992, que marcou a estreia de Ralph Fiennes no cinema como Heathcliff, e Juliette Binoche como Cathy. O filme foi intitulado O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Bronte para evitar um processo da Samuel Goldwyn Co., que detinha os direitos do título desde o filme de 1939. A adaptação de 2003 é geralmente considerada a menos apreciada das versões cinematográficas de O Morro dos Ventos Uivantes. A premissa básica é a mesma: uma jovem chamada Cate (Erika Christensen) aceita o pedido de casamento de Edward (Christopher Masterson), mas continua apaixonada por outro homem, Heath (Mike Vogel), depois de se casar. Este filme introduz um aspecto musical, já que os personagens cantam canções originais ao longo da trama, mas o esforço acabou não sendo bem-sucedido. Ainda tivemos em 2011uma nova adaptação escrita e dirigida pela britânica Andrea Arnold, trazendo James Hawson, como o primeiro intérprete negro de Heathcliff, e Kaya Scodelario como Cathy. Apesar da bela fotografia, o filme cortou várias passagens do livro. O filme omite todos os acontecimentos após a morte de Catherine, incluindo o romance de Linton com Cathy e a morte de Heathcliff. A força do texto de Emily Bronté reside em sua narrativa atípica, em poder descritivo capaz de nos transportar para o tempo e o lugar e sobretudo em sua habilidade de trabalhar as contradições humanas, o amor e o ódio, a vida e a morte, dicotomias que a vida real e a arte tratam em uma intersecção em que os ventos uivam e nossos corações suspiram.