LEO BANNER RELEMBRA FATOS MARCANTES E O TÍTULO INÉDITO NO BRASIL.

Os anos seguintes à saída de Roy Thomas como roteirista regular do título do Hulk foram curiosos pois, enquanto o ex-professor assumira o posto de editor do título, a revista do gigante verde passaria por uma rotatividade de roteiristas pouco comum em títulos mainstream, com destaque para STEVE ENGLEHART, que assumiu o título por aproximadamente um ano em alternância com outros escritores até a chegada de LEN WEIN em 1974. Nesse ínterim, além de Englehart, roteiristas como GARY FRIEDRICH, ARCHIE GOODWIN, STEVE GERBER, CHRIS CLAREMONT, TONY ISABELLA e GERRY CONWAY contribuíram com o título do Gigante Verde, com histórias que levaram o Hulk a um julgamento em INCREDIBLE HULK #152-153 de 1972 (publicada no Brasil uma única vez em O INCRÍVEL HULK #8 da RGE em 1979) e também a novas incursões ao mundo subatômico de KAI, onde o Hulk encontrou novamente a princesa esverdeada Jarella, que ocasionou o afastamento entre Bruce Banner e Betty Ross, com o consequente casamento da filha do general Ross com o major Glenn Talbot. A princesa do mundo subatômico surgiu em INCREDIBLE HULK #140, a partir de uma premissa criada por um dos maiores escritores de ficção científica dos últimos tempos, HARLAN ELLISON, adaptada por ROY THOMAS e arte de HERB TRIMPE (esboços) e SAM GRAINGER (arte-final), na qual o Hulk é reduzido a um tamanho microscópico e chega ao mundo de KAI, onde ajuda o povo de pele verde contra uma ameaça que pairava sobre aquele mundo. E é nesse mundo que o Hulk conhece, pela primeira vez, a sensação de ser aclamado, reconhecido como herói e amado pelo povo de Jarella, que passa a ver no Gigante Verde um poderoso salvador e protetor. Todas as histórias do Hulk com Jarella foram compiladas na coleção MARVEL GRAPHIC NOVELS (Clássicos XXII) – HULK: NO CORAÇÃO DO ÁTOMO da Editora Salvat, de 2017, incluindo o desfecho com relação ao corpo de princesa em função do seu trágico destino.
As histórias envolvendo Jarrella serviram para sacolejar o status quo do personagem, mostrando que o Hulk poderia vir a ser mais do que apenas um monstro incompreendido com mentalidade limitada; no entanto a equivocada (na opinião deste que vos fala, claro) decisão da morte da personagem encerrou uma possibilidade narrativa com considerável potencial que não chegou nem perto de todo seu potencial. Uma grande bola fora de LEN WEIN, que, na época (1976), era roteirista e editor do título do Hulk. E é forçoso registrar que diante de tantas ressurreições no mundo dos quadrinhos, essa foi uma morte que não foi desfeita com nenhuma explicação idiota ou forçada. Outro grande destaque da fase de Len Wein no comando do Gigante Verde foi a primeira aparição de WOLVERINE, em INCREDIBLE HULK #180, de 1974, publicada pela primeira vez no Brasil pela RGE no título O Incrível Hulk #22, de 1980 e, mais recentemente, na coleção FABULOSOS X-MEN – EDIÇÃO DEFINITIVA #4 da Panini Comics, de 2022. A edição THE INCREDIBLE HULK #194, de 1975 (no Brasil, O Incrível Hulk #29, de 1981, da RGE) tem sua importância por marcar a estreia do lendário e recentemente falecido SAL BUSCEMA como novo desenhista regular do título, ao lado de Len Wein (roteirista) e Joe Staton (arte-finalista), naquele que, salvo engano, foi seu trabalho mais longevo e marcante, e pelo qual foi sempre reconhecido pelos fãs mais antigos do Gigante Verde. Agora abriremos um parêntese para falar de THE RAMPAGING HULK, um título que praticamente nunca foi publicado no Brasil, exceto por duas edições da Editora Abril, sobre as quais falaremos adiante, e que retratou a face sombria e madura do Gigante Esmeralda nos anos 1970.

Lançada pela Marvel Comics em 1977, THE RAMPAGING HULK foi uma revista que se destacou por apresentar uma abordagem mais madura e experimental do personagem, em sintonia com o espírito de reinvenção que marcava o final da década de 1970. Diferente das tradicionais aventuras coloridas de THE INCREDIBLE HULK, a série nasceu dentro da linha Marvel Magazine, voltada ao público adulto e impressa em preto e branco, formato mais sofisticado e associado às publicações de tom sombrio e introspectivo, a exemplo de THE SAVAGE SWORD OF CONAN. O conceito inicial da revista situava suas histórias nos primeiros anos da vida errante de Bruce Banner, entre os eventos da fase clássica de Stan Lee e Jack Kirby. Assim, THE RAMPAGING HULK funcionava como uma prequela, explorando o lado mais trágico e alienado do Hulk, reforçando o caráter de figura trágica e incompreendida, quase um monstro expressionista em conflito constante entre humanidade e fúria. Os primeiros números tiveram roteiros de DOUG MOENCH, um dos escritores mais sensíveis da Marvel naquela época, conhecido por seu trabalho em Moon Knight e Werewolf by Night. Moench trouxe uma densidade psicológica incomum às tramas, fazendo de Banner um homem perseguido não apenas por militares, mas por seus próprios dilemas existenciais. O Hulk, por sua vez, era retratado com nuances de melancolia e isolamento, refletindo a visão pós-Vietnã e o desencanto político-cultural do período. Talvez um dos melhores trabalhos do roteirista. A arte foi outro ponto alto: WALTER SIMONSON, ainda em início de carreira, foi responsável por algumas das edições mais impactantes, ao lado de KEITH POLLARD, JIM STARLIN e JOHN ROMITA, entre outros — nomes que imprimiram dinamismo e dramatismo às páginas em preto e branco. As ilustrações, ricas em contraste e textura, muito provavelmente por conta da esplêndida arte-final do sensacional ALFREDO ALCALA, ampliavam a sensação de brutalidade e solidão, destacando o Hulk como uma força quase mitológica.

A revista teve uma curta duração inicial, de 1977 a 1978, com nove edições no formato preto e branco. A partir do número #10, em 1978, foi reformulada e passou a se chamar simplesmente THE HULK!, assumindo o formato colorido e histórias mais convencionais, aproximando-se do tom popularizado pela série de TV estrelada por Bill Bixby e Lou Ferrigno, retratando a constante fuga de Bruce Banner e sua incessante busca de uma cura definitiva para sua maldição. Essa segunda fase continuou inicialmente sob o comando de DOUG MOENCH e contou, em sua grande maioria, com os desenhos de RON WILSON abrilhantados predominantemente pela fantástica arte-final de ALFREDO ALCALA, mantendo-se até o início da década de 1980, e embora haja quem considere que sem o mesmo vigor criativo dos primeiros números, é possível perceber que o título manteve a densidade psicológica e o tom mais maduro e complexo do que o título de linha regular. Em retrospecto, THE RAMPAGING HULK permanece como um experimento ousado dentro do cânone do personagem, um momento em que a Marvel tentou elevar o monstro verde a um patamar literário e psicológico mais sofisticado, com suas páginas representando um raro instante em que o Hulk foi tratado como metáfora existencial — não apenas como símbolo de força descontrolada, mas como um ser dilacerado pela culpa, pela perda e pela busca por identidade. Uma das maiores falhas – dentre tantas outras – das editoras RGE e Abril, que detiveram os direitos de publicação do Hulk entre o final da década de 1970 e decorrer da de 1980, foi nunca ter dado a devida importância e atenção a este título. A Abril lançou mão de várias capas do título THE HULK, mas só se dispôs a publicar as histórias da revista em O INCRÍVEL HULK #7, 16 (1984) e uma história curta de 6 páginas no número 23 (1985). A polêmica história do número 16 – originalmente publicada em THE HULK #23 – conta com roteiro de JIM SHOOTER e arte de JOHN BUSCEMA e ALFREDO ALCALA, e sofreu uma das famosas “adaptações” da Abril (sim, as mesmas que ocorreram na primeira publicação de GUERRAS SECRETAS no Brasil), por conta de uma insinuação de estupro. Na cena em questão Bruce Banner se encontra no chuveiro de uma acomodação de baixo custo (os famigerados YMCA) em que é abordado por dois marginais, e um deles começa a desabotoar as calças… Banner consegue se livrar da investida ao revelar sua verdadeira identidade e, pouco depois, ao se dar conta do que poderia ter acontecido, se transforma no Hulk. A Abril adulterou a cena do marginal descendo o zíper da calça, numa clara demonstração de suas nefastas intenções, para a de um homem segurando uma faca. Uma medida tomada para atenuar uma cena realmente forte planejada para um título destinado a leitores mais maduros. Apesar de as chances serem remotíssimas, este escriba ainda guarda esperanças de que os títulos THE RAMPAGING HULK / THE HULK possam vir a ser publicados no Brasil de forma satisfatória em alguma edição Omnibus ou em algum outro formato preferencialmente mais acessível. No próximo post falaremos sobre a marcante fase de Bill Mantlo no título do Hulk! Não deixe de conferir!😉
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻