Andre Azenha

O Oscar de 2009 ficou marcado por premiar oito vezes Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire), incluindo Melhor Filme e Melhor Direção. A obra dirigida por Danny Boyle incorpora soluções estéticas popularizadas anos antes por Cidade de Deus: câmera nervosa, montagem acelerada, ritmo pulsante, fotografia saturada e um retrato cru da desigualdade urbana. E convenhamos: o filme brasileiro é muito melhor. Mesmo assim, 2009 é lembrado sobretudo pelas ausências. Aquele era um ano em que dois filmes de enorme impacto ficaram de fora injustamente da categoria principal: Batman: O Cavaleiro das Trevas (Batman: Dark Knight), de Christopher Nolan, sucesso de crítica e público, que elevou o cinema de super-herói a outro patamar. E WALL·E, aclamada animação da Pixar e vencedora do Oscar de Melhor Animação. A exclusão desses títulos para Melhor Filme gerou tanta repercussão negativa que a Academia mudaria definitivamente sua regra e ampliaria o número de indicados ao prêmio máximo. Mas o momento mais marcante daquela cerimônia não foi a vitória de Quem Quer Ser um Milionário?, e sim o prêmio póstumo de Melhor Ator Coadjuvante para Heath Ledger, o Coringa de Batman: O Cavaleiro das Trevas. Sua interpretação é uma das mais impressionantes da história do cinema — perturbadora, detalhada, profundamente estudada e emocionalmente exaustiva. O filme de Nolan, influenciado por Fogo Contra Fogo (Heat), de Michael Mann, retrata Gotham como uma metrópole viva e moralmente complexa. Era um trabalho de direção que, por si só, merecia figurar entre os indicados. Ao anunciar a vitória de Ledger, sua família subiu ao palco para receber a estatueta. A reação emocionada da plateia — colegas de profissão, diretores, atores e técnicos — demonstrou o respeito absoluto por um artista que já havia sido indicado por O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain) e que tinha repertório para se tornar um dos grandes nomes de sua geração. Ledger transitava com naturalidade por comédias, dramas e, enfim, construiu um dos vilões mais icônicos do cinema.