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Publicado originalmente entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990 de forma seriada, TANGÊNCIAS consolidou MIGUELANXO PRADO como um dos grandes nomes dos quadrinhos europeus contemporâneos, e aportou no Brasil em um belo lançamento da Editora Conrad em 2021. Com roteiro, arte e cores de Prado, TANGÊNCIAS é uma obra que foge deliberadamente de estruturas narrativas convencionais, preferindo explorar a subjetividade humana, especialmente nas relações afetivas, desejos sublimados e encontros que jamais se completam. A edição brasileira da Conrad deu ao público nacional acesso a um dos trabalhos mais intimistas do autor espanhol.
TANGÊNCIAS não é um romance gráfico no sentido tradicional, mas um conjunto de histórias curtas interligadas por um conceito: relações humanas que se tocam, mas não se aprofundam totalmente — daí a razão do título. Não se trata necessariamente de amores frustrados, mas de conexões passageiras, marcadas por casualidade, introspecção e ausência de finalidades claras. São encontros que deixam marcas difíceis de explicar, como cicatrizes emocionais invisíveis.Prado investiga a psicologia dos personagens, revelando solidão, vazio existencial, rotina e a eterna dificuldade humana de comunicação. Muitas histórias são quase diálogos internos, revelando reflexões que os personagens jamais verbalizam. Há uma poética agridoce e, por vezes, amarga que permeia toda a obra: momentos de ternura e sensualidade coexistindo com desencanto e frustração.

Embora sejam histórias curtas, o autor utiliza uma linguagem quase literária, com diálogos enxutos, cheios de subtexto, onde o silêncio tem tanta importância quanto a fala. Alterna entre o realismo urbano e o lirismo. Prado é um mestre das entrelinhas: o que não é dito tem tanto peso quanto aquilo que o leitor lê.Os contos não oferecem respostas, muito pelo contrário, abrem espaços de reflexão. Muitas histórias terminam abruptamente, deixando um incômodo que é deliberado. TANGÊNCIAS é uma prosa visual madura, voltada a um público que aprecia quadrinhos como linguagem verdadeiramente artística, mais do que entretenimento imediato. Visualmente, TANGÊNCIAS é impecável, de tal sorte que há tanto a ser dito que este escriba precisa refrear sua empolgação diante de tão belo esplendor artístico. Prado utiliza cores suaves com predominância de tons terrosos, alaranjados e ocres, criando uma atmosfera melancólica e intimista. Seus cenários urbanos são cotidianos, mas profundamente expressivos — bares vazios, apartamentos solitários, ruas molhadas pela chuva, janelas abertas para noites silenciosas. Há um peso emocional em cada quadro. O artista é mestre em utilizar silêncio gráfico. Muitas páginas têm grandes áreas vazias — paredes lisas, céu apagado, cenários com poucos elementos — criando respiros que funcionam como pausas emocionais, sugerindo sentimentos não expressos.
Vale ressaltar que Prado não usa cores apenas como estética, mas como parte essencial da narrativa. Seu impressionante uso cromático reforça estados psicológicos e cria atmosferas que ampliam o sentido das histórias. Em vez de contrastes fortes ou paletas vibrantes, ele escolhe tons mornos, sombreados e melancólicos, num equilíbrio entre o realismo e a poesia visual. O simbolismo visual e cromático em TANGÊNCIAS constrói uma poesia gráfica madura. O autor não apenas ilustra emoções: ele as materializa no espaço, na cor e no silêncio. Cada quadro é uma tela emocional, cada cor carrega memória e desejo, cada sombra diz o que os personagens não ousam. As figuras humanas são desenhadas com um realismo expressivo: gestos contidos, olhares que denunciam inquietações, posturas que revelam desânimo, timidez ou desejo reprimido. Prado sabe representar o corpo de forma sensível e elegante, com sensualidade sutil e nunca gratuita.
A mise-en-page (estrutura e organização dos elementos da página de uma HQ)é fluida e contemplativa, muitas vezes com quadros amplos dedicados apenas ao ambiente, funcionando como pausas narrativas poéticas repletas de significados, entrelinhas e subtextos. TANGÊNCIAS é uma obra que transcende os limites dos quadrinhos tradicionais. Não busca apenas contar histórias, mas provocar sensações e reflexões. É leitura obrigatória para quem aprecia quadrinhos autorais e poéticos, ao lado de trabalhos de autores como Hugo Pratt, Enki Bilal ou José Muñoz. Influenciou toda uma geração de leitores e criadores ao mostrar que os quadrinhos podem abordar o universo emocional de forma profunda, adulta e filosófica.
Essa riqueza estética faz da coletânea uma obra que precisa ser sentida tanto quanto lida — uma verdadeira experiência sensorial e psicológica. Na edição da Conrad, a obra recebeu tratamento respeitoso com um formato diferenciado que valoriza todos os aspectos e nuances da arte de Prado, capa dura e miolo em papel couché de excelente gramatura, o que ajudou a firmar a reputação do artista no Brasil, pavimentando a valorização de quadrinhos europeus no país. À guisa de curiosidade, não obstante seja mais conhecido por seus trabalhos autorais no Velho Mundo (alguns dos quais já foram publicados no Brasil por outras editoras), Prado já emprestou seu talento à DC Comics, no ano de 2003, em uma das pequenas histórias da antologia SANDMAN – NOITES SEM FIM, com roteiros de Neil Gaiman. Por fim, TANGÊNCIAS é um mosaico de sentimentos e pequenas tragédias íntimas, uma obra sofisticada, elegante e atemporal que, em vez de respostas, oferece humanidade, em vez de clímax, entrega verdade emocional. Um livro que toca — mesmo que apenas de leve — e deixa marcas. Ideal para leitores que buscam quadrinhos com densidade literária e sensibilidade estética.
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻