
O diretor russo Timur Bekmanbetov tem uma filmografia bem irregular. Confesso que não gostei de Abraham Linconl – Caçador de Vampiros (2012) e detestei sua refilmagem de Ben Hur (2016), mas eis que me surpreendo com Justiça Artificial (Mercy) que chegou recentemente à Prime Video depois de ter sido ignorado, desprezado pela telona. A história de Chris Raven (Chris Pratt), detetive acusado de ter matado sua própria esposa, e que já começa o filme de frente para a implacável juíza Maddox (Rebecca Fergunson), uma inteligência artificial que é juíza, juri e executora no sistema dessa realidade não muito longe das probabilidades. O filme consegue questionar a validade da IA em nossas vidas, criando um suspense bem conduzido, embora as obviedades do roteiro e o vai e vem da investigação force bastante a condução da narrativa. As possibilidades do que o roteiro poderia render são bem perceptíveis ao longo de sua 1 hora de 39 minutos de duração, mas a preocupação de manter um ritmo de ação e ainda a inserção de dois plot twists antes do fim tornam o resultado apenas mediano. O diretor bem que tenta, mas fica na intenção, o que não significa que o filme não possa entreter. O roteiro de Marco Van Belle é uma boa diversão se desenrolando em tempo real, dado pela IA para que Raven prove sua inocência ou então será executado. A questão da pena de morte é outra que o roteiro deixa bem raso, preferindo se apoiar no tempo de tela quase que integral que o astro de Guardiões da Galáxia tem em um duelo constante com a personagem de Rebecca Fergunson, uma boa atriz mas desperdiçada em um papel que não lhe permite muito além da frieza no olhar. Chris Pratt está bem canastrão, sem saber deixar de lado os vícios de seu Peter Quill / Starlord dos filmes da Marvel. Com um orçamento de produção relatado de $60 milhões e, presumivelmente, mais gastos em refilmagens e marketing, analistas do setor estimaram que o filme precisava arrecadar de $120 milhões a $150 milhões em todo o mundo para se equilibrar. Acabou arrecadando apenas 55 milhões de dólares. Embora alguns possam considerar a trama fantasiosa, sua história que mistura elementos de O Fugitivo (1993) e Minority Report (2002) traz paralelos com a vida real. Em julho de 2025, uma mulher do Tennessee foi presa depois que a AI a sinalizou como suspeita em um caso de fraude bancária na Dakota do Norte com base em fotografias. Apesar de alegar que nunca tinha estado na Dakota do Norte, ela foi detida sem fiança por cerca de 4 meses antes de ser extraditada para Dakota do Norte, onde passou mais 6 semanas antes de as acusações serem retiradas depois que seu advogado mostrou que ela estava a mais de 1.000 milhas de distância no momento dos incidentes. Se a arte imita a vida, pensemos o que pode um dia vir a ser à medida que vemos crescer o misto de fascínio e medo exercido pela IA.