SUSPIRIA DE DARIO ARGENTO VOLTA AOS CINEMAS

Marcelo Kricheldorf nos lembra do clássico que volta às telas do cinema a partir de 23 de abril.

Lançado em 1977, Suspiria, dirigido por Dario Argento, não é apenas um marco do cinema de horror, mas uma obra-prima do expressionismo moderno. O filme transcende a narrativa convencional de “casas mal-assombradas” para mergulhar em uma experiência sensorial e onírica, onde a lógica cede lugar à atmosfera e o medo é pintado em cores vibrantes. Ao analisar a jornada de Suzy Bannion, percebemos que o filme opera em múltiplas camadas: do terror visceral à crítica social.
A trama inicia com a chegada da jovem bailarina americana Suzy Bannion à prestigiada Academia de Dança Tanz, em Freiburg – Alemanha. Desde o primeiro frame, Argento estabelece uma narrativa de desorientação. A tempestade torrencial e a fuga desesperada de uma aluna (Pat Hingle) sinalizam que Suzy não está apenas entrando em uma escola, mas atravessando um portal para um mundo governado por leis arcaicas. O roteiro, embora simples em sua premissa de investigação, funciona como um fio condutor para uma série de sequências coreografadas de puro horror, onde o mistério sobre a identidade dos administradores da escola revela uma conspiração milenar.
O diferencial absoluto de Suspiria reside em sua identidade visual. Argento e o diretor de fotografia Luciano Tovoli utilizaram o processo de impressão Technicolor de matriz de transferência (já obsoleto na época) para alcançar uma saturação de cores sem precedentes. O uso de tons primários; o vermelho sangue onipresente; o azul elétrico e o amarelo ácido; retira o filme da realidade. A academia de dança, com sua arquitetura Art Nouveau distorcida e corredores infinitos, assemelha-se a uma pintura viva. Essa artificialidade deliberada transforma o terror em algo estético e hipnótico: a violência é brutal, mas é apresentada com uma beleza plástica que choca e fascina simultaneamente.
A experiência de assistir a Suspiria seria incompleta sem a trilha sonora da banda de rock progressivo Goblin. Diferente das trilhas tradicionais que apenas pontuam a ação, a música aqui é agressiva e onipresente. O uso de sintetizadores, sinos, batidas tribais e, crucialmente, sussurros ofegantes que parecem vir de dentro da cabeça do espectador, cria uma sensação de desconforto. O som em Suspiria atua como um personagem invisível, uma presença sobrenatural que sufoca a protagonista e o público, intensificando a sensação de que o perigo é onisciente.
No coração da Tanz reside uma sociedade secreta de bruxas, o coven de Helena Markos, também conhecida como a “Mãe dos Suspiros“. Este elemento introduz o conceito da trilogia das Três Mães de Argento, explorando o medo de forças ancestrais que operam nas sombras da modernidade. A academia, um local de refinamento e arte, é apenas uma casca para um poder predatório que consome a vitalidade dos jovens. Aqui, a identidade e a transformação são temas centrais: Suzy entra como uma aluna passiva e precisa passar por uma metamorfose espiritual para enfrentar a corrupção absoluta. Sua vitória final não é apenas uma sobrevivência física, mas uma destruição simbólica de um mal sistêmico.
A estrutura da academia é profundamente autoritária e repressiva, espelhando sistemas de controle sobre o corpo e a mente. As diretoras exercem um poder absoluto e punitivo sobre as alunas, exigindo conformidade e obediência. A jornada de Suzy pode ser lida como o despertar de uma consciência individual contra uma instituição opressora que busca drenar sua autonomia. Ao final, o incêndio da escola simboliza a purificação e a libertação de uma linhagem de poder que sobreviveu além do seu tempo.
A influência de Suspiria no cinema de terror é incalculável. Elevou o gênero a uma dimensão sobrenatural, provando que o horror poderia ser uma forma de arte erudita. De diretores contemporâneos como Guillermo del Toro a Nicolas Winding Refn, o estilo visual de Argento; onde a cor narra tanto quanto o diálogo; continua a ressoar. Suspiria permanece como o ápice do terror barroco: um pesadelo inesquecível que nos ensina que, às vezes, o maior horror não está no escuro, mas sob a luz mais brilhante e vermelha que se possa imaginar.

Ficha Técnica

  • Título Original: Suspiria
  • Direção: Dario Argento
  • Roteiro: Dario Argento e Dacia Maraini (baseado no romance de Thomas De Quincey)
  • Gênero: Terror, Suspense
  • Duração: 98 minutos
  • País de Origem: Itália, Alemanha Ocidental
  • Idioma: Inglês, Italiano, Alemão
  • Estreia: 1 de fevereiro de 1977
  • Distribuidora: Produzioni Atlas Consorzi (PAC)
  • Classificação: R (Estados Unidos)
  • Elenco:
  • Jessica Harper como Suzy Bannion
  • Stefania Casini como Sarah
  • Flavio Bucci como Daniel
  • Miguel Bosé como Mark
  • Alida Valli como Miss Tanner
  • Joan Bennett como Madame Blanc

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