EDITORIAL: Em defesa de Will Smith. O que mais agride? A Violência Física ou a Violência Moral?

Por Paulo Telles

Will Smith recebendo a estatueta no Oscar de 2022

A noite do Oscar de 27 de março de 2022 foi um acontecimento histórico, pelo menos, registrado para sempre na lembrança dos espectadores que puderam acompanhar a cerimonia. A premiação de 2022 é a primeira a ser celebrada do modo tradicional após dois anos de restrição por conta da pandemia. O nosso crítico Adilson Carvalho, que assistiu aos filmes candidatos ao prêmio já fez um balanço do evento em sua matéria  Oscar 2022 – Uma Noite Memorável (https://cinemacompoesia.wordpress.com/2022/03/28/oscar-2022-a-noite-memoravel/). Aliás, título bem pertinente, pois memorável não foram apenas os filmes (por sinal bons filmes!) a tentarem ganhar a estatueta, atores e atrizes ganharem uma colocação como melhor nas suas atuações, ou diretores com suas obras. A noite foi marcada também pela agressão que o ator Will Smith desferiu no comediante (e muito sem graça!) Chris Rock.

Tudo começa com Chris Rock como Mestre de Cerimônia (geralmente são comediantes que presidem esta função, e na história da Academia, Bob Hope, Billy Crystal e Jerry Lewis foram os anfitriões). Chris, talvez motivado por falta de inspiração para fazer piadas, resolveu atingir Will Smith. Até aí, tudo bem, já que os mestres de cerimônia fazem piadas e brincam com os candidatos ou mesmo com a plateia. O problema que a “brincadeira” passou para direção da esposa de Will, Jada Pinkett Smith, por conta de sua cabeça raspada. Ela sofre de uma doença chamada alopecia, doença que causa falhas no couro cabeludo, e decidiu raspar os cabelos para lidar com a condição.

A belíssima Jada Pinkett Smith, esposa do ator Will Smith

Foi demais para o talentoso Will, que não resistiu, se levantou e dirigiu-se a Chris deferindo-lhe um tapa na cara. Daí podemos pensar várias coisas, do tipo: “poxa, o Will podia ter se segurado e levar isso a um tribunal e processa-lo”; ou “ele agiu errado, pois isso é sinal de retrocesso” ou ainda, “nada justifica!”. Ah! Verdade! Nada pode justificar a violência física, nada pode justificar a agressão contra Chris, mas mais ainda, nada justifica a violência moral cometida por esse a esposa de Will e fazer pilhéria com sua doença.

O momento do tapa

A violência física causa danos e todos nós sabemos, mas temos mais facilidade na recuperação que dura com o tempo. Já com a violência moral a coisa se complica, pois as lesões que ficam são internas e deixam traumas que os anos não conseguem curar. Como se não bastasse a tristeza e a infelicidade de se conviver com um dano físico, podemos ser denegridos com o preconceito, o desdém, a intolerância e a repulsa. A “piada” lançada contra a esposa do ator Will Smith por este “comediante” de nome Chris Rock foi um ato muito mais profano, intolerável, e sórdido do que o tapa no rosto que recebeu, aliás bem merecido. Devemos lembrar que este universo gigantesco que habitamos é cercado pelas leis da ação e reação, e tudo que você faz ou diz tem consequência. Will Smith, certamente na hora avaliou sua reação, contudo o ator tem sangue nas veias e não água. Somente uma pessoa que não tem empatia não vai se colocar no lugar de Will. Irá criticá-lo. A estes, só posso dizer que nestes não corre sangue nas veias e se insultarem sua esposa, ou sua mãe, seu filho, ou toda sua família, vão deixar por isso mesmo. Ninguém precisa responder a insultos, mas também ninguém precisa engoli-los, e se resolver insultar quem quer que seja, pode apostar que não ficará sem resposta.

Will Smith

Will Smith já era a grande promessa de premiação, e quando seu nome foi anunciado como Melhor Ator no filme King Richard – Criando Campeãs, Will foi além do discurso. Ele chorou e pediu desculpas a plateia pelo ato contra Chris Rock. Um ato de humildade tendo em vista que perdeu a cabeça e foi tirado do sério por um bufão. Ontem, na noite de 28 de março, Smith em sua rede social manifestou um pedido de desculpas a Rock, pedido de desculpas, na opinião deste crítico, que Smith não deveria ter feito, pois Rock não merece consideração. Aliás, o certo seria este a dever desculpas a Smith e, principalmente, a esposa dele.  Resta saber como será a conduta da Academia de Hollywood e avaliar o caso de Will Smith, que mereceu o prêmio, e agora corre o risco de anular sua premiação. Ele poderia ter engolido e deixado de lado, mas nem todo mundo tem água ou “sangue de barata” nas veias, e só digo para aqueles que defendem “o diálogo”, “a paz”, “o entendimento” contra quem te agride moralmente: engula, se quiser… ou se puder! Ninguém é obrigado a engolir insultos e, muito menos, piadas de mal gosto.

Paulo Telles é crítico de cinema, escritor, produtor e apresentador do programa Cine Vintage, redator do blog Filmes Antigos Club – A Nostalgia do Cinema e colunista do Cine Retro Boavista no site CINEMA COM POESIA.

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