ARANHAVERSO: QUEM É MILES MORALES

Por Leo Banner

Tudo começou em 2000, com o surgimento do título ULTIMATE SPIDER-MAN #1, que trazia o primeiro de uma nova linha de títulos cujo principal objetivo era atualizar os consagrados heróis Marvel livres de décadas de amarras cronológicas e apresentá-los para a audiência do século 21 sem amarras e o peso de décadas de cronologia que, na maioria das vezes, desestimulava o consumo de histórias desses personagens! Os principais responsáveis pelos títulos Ultimate – aqui no Brasil conhecidos inicialmente como “Marvel Millennium” – foram as estrelas em ascensão Brian Michael Bendis e Mark Millar. Enquanto Bendis se encarregava dos roteiros do Homem-Aranha Ultimate, ao lado dos artistas Mark Bagley e Art Thibert, Mark Millar comandava os títulos ULTIMATE X-MEN, juntamente com os irmãos Adam e Andy Kubert cuidando das ilustrações, e THE ULTIMATES (a versão Ultimate dos Vingadores conhecida por aqui como OS SUPREMOS (particularmente adoro essa designação)), ao lado dos talentosos Brian Hitch, Paul Neary e Andrew Currie. Mantendo totalmente a essência do conceito original, Bendis insere elementos mais atuais que dão grande coerência às circunstâncias que levaram o adolescente Peter Parker a obter suas habilidades aracnídeas; numa excursão escolar aos laboratórios da OSCORP, do empresário Norman Osborn, Peter Parker é picado por uma aranha geneticamente modificada, e adquire força e habilidades proporcionais às de uma aranha! Passando pela mesma tragédia da perda de seu querido Tio Ben indiretamente ocasionada por sua atitude (ou FALTA dela), Peter aprende da pior maneira o significado das palavras de seu tio quando lhe disse que “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”! A partir de então, o pesaroso adolescente transforma o remorso que corroía sua alma em uma força motriz para combater as injustiças em todas as suas formas com sua identidade de Homem-Aranha. E assim Bendis prossegue nos roteiros atualizando e melhorando boa parte das ideias e conceitos clássicos relacionados ao personagem! Não é possível dizer que ele tenha acertado em tudo, mas conseguiu acertar na maioria dessas tentativas, tendo, por exemplo, feito uma “Saga do Clone” versão Ultimate bem superior à malfadada saga homônima do universo “tradicional” da segunda metade da década de 1990, e, também – agora é uma opinião muito pessoal – tendo criado um conceito bem mais interessante para o surgimento do Venom! Nesse sentido, atualizou também o Duende Verde, que surgiu de uma tentativa malsucedida de Norman Osborn em replicar o incidente genético que conferiu as habilidades sobre-humanas de Parker, e o surgimento de vários outros vilões que originaram o Sexteto Sinistro.

Em 2011, Bendis ousou além do que se esperava, e não somente surpreendeu o fandom ao anunciar a morte de Peter Parker (Ultimate, claro), como também anunciou o surgimento de um NOVO Homem-Aranha! A princípio, as duas ideias pareciam absurdas! No entanto, além de Brian Michael Bendis ainda estar no auge de seu talento como roteirista, vale lembrar que havia muito mais liberdade para ousar no universo Ultimate do que naquele considerado o universo “tradicional” ou “oficial”. E Bendis decidiu arriscar! Numa demonstração de ousadia poucas vezes vista no mundo das HQs, o roteirista nos brindou com a derradeira história de Peter Parker num arco de oito partes – Ultimate Spider-Man #153-160, republicada no Brasil pela última vez em 2016, na coleção MARVEL GRAPHIC NOVELS #69 – A MORTE DO HOMEM-ARANHA – que traz uma das mais violentas e ferrenhas batalhas de que se tem notícia, em que o Espetacular Homem-Aranha enfrenta o Sexteto Sinistro e, por fim, tem sua derradeira batalha com o Duende Verde para salvar seus entes queridos! A história realmente é uma das mais tocantes e emblemáticas do mundo dos quadrinhos, e, ao contrário do que se esperava, não teve naquele momento seus efeitos desconsiderados ou desfeitos por algum recurso narrativo ou explicação mirabolante que acabaram se tornando lugar comum nas HQs nesses últimos 30 anos! Não, de fato Peter Parker estava morto, havia sucumbido numa tremenda batalha… e aí surgiu aquele anúncio de um NOVO Homem-Aranha, que NÃO era Parker! Num primeiro momento a gente pensa que é inadmissível! Histórias com substitutos de personagens clássicos estabelecidos invariavelmente estão fadadas ao fracasso ou a durarem poucos meses! Então veio aquela prévia em ULTIMATE FALLOUT #4, escrita por Bendis e ilustrada pela talentosa Sara Pichelli, onde um desajeitado Homem-Aranha enfrenta um vilão de segunda chamado Cangurú! Longe de ser uma batalha memorável, o suposto Homem-Aranha consegue levar a melhor sobre o vilão, e na última das sete páginas desse recorte, vemos o Aranha tirar a máscara e nos deparamos pela primeira vez com o rosto de um adolescente afrodescendente… e daí somos direcionados para o título ULTIMATE COMICS SPIDER-MAN #1, de novembro de 2011, onde começamos a acompanhar uma história que se desenrola ONZE meses antes dos eventos que levaram à morte de Peter Parker, num laboratório da OSCORP em que Norman Osborn ainda tinha uma obsessão com Peter Parker assim como o desejo de replicar de alguma forma o experimento que conferira as habilidades aracnídeas ao adolescente! Pouco tempo avança e somos levados para a época em que a verdade sobre a ligação de Osborn e o Duende Verde vem à tona! Algum tempo depois, o ladrão chamado Gatuno realiza um roubo nas instalações abandonadas da Oscorp e, inadvertidamente, uma das aranhas geneticamente modificadas do laboratório se esconde em sua bolsa!

No dia seguinte, o jovem Miles Morales juntamente com seus pais Rio e Jeff Morales comemoram o ingresso do adolescente numa escola especial de ensino médio. O adolescente decide partilhar a boa nova com seu tio, Aaron Davis, que na verdade, é o Gatuno! Ao sentar perto da sacola de seu tio, Miles é picado pela aranha geneticamente modificada! Depois de se recuperar e testemunhar uma discussão entre seu pai e seu tio, Miles foge e começa a sentir os efeitos da picada da aranha! Ao partilhar esses acontecimentos com seu melhor amigo Ganke, Miles decide seguir com sua vida e esquecer das habilidades recém-adquiridas! Mas ao tomar conhecimento da violenta batalha do Homem-Aranha contra o Sexteto e o Duende Verde, Miles se dirige para o local da luta a tempo apenas de ver Peter desferir o golpe fatal no Duende Verde e sucumbir em seguida em função de vários ferimentos fatais por conta da violenta batalha! Ao trocar algumas palavras com Gwen Stacy, uma das pessoas queridas por Peter, Miles pergunta a ela nome do herói e porque ele fazia aquilo… Gwen rapidamente explica a Miles as motivações de Peter e lhe diz a frase do seu querido Tio Ben que lhe servia de fundamento: “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”.

A partir desse momento, Miles passa a refletir sobre as razões de ter ganho suas habilidades e toma as atitudes de Peter Parker como exemplo para se tornar o novo Homem-Aranha! Depois de ajudar Nick Fury e os Supremos a impedir a fuga do vilão Electro do Triskelion, após superar uma considerável relutância num primeiro momento, Fury entrega a Miles um uniforme para ser o novo Homem-Aranha! Dotado de habilidades que vão de força e e agilidade proporcionais às de uma aranha, sentido de aranha e capacidade de aderir a superfícies como Peter Parker, Miles tem além disso a capacidade de se camuflar como algumas aranhas e de emitir uma descarga de choque eletroquímico capaz de abalar quem receber seu toque “venenoso”! Esse arco foi republicado na edição da Salvat mencionado anteriormente e também na coleção MARVEL TEENS: MILES MORALES #1, que hoje se encontra na edição #4 (essa última infelizmente, a um preço proibitivo, pois a Panini reajustou o valor em MAIS de 100%)! Bendis manteve o bom nível nas histórias de Miles ao lado de Sara Pichelli e de David Marquez, um artista com estilo limpo, expressivo e impactante! Meu primeiro contato com essas histórias não foi há muito tempo, mas garanto que são tramas muito bem engendradas e conduzidas, valendo a pena destacar que – na minha opinião – a melhor forma de consumi-las é através dos encadernados, uma vez que as histórias individuais que compõem os arcos muitas vezes podem dar a impressão de uma trama mais arrastada e enfadonha se acompanhadas mensalmente! Uma coisa é certa, não há absolutamente NADA genial na concepção de Miles Morales, mas é uma história muito boa por ser muito bem contada, muito bem estruturada e, acima de tudo, Miles é um personagem extremamente cativante justamente porque suas histórias mantiveram a essência do que fez o Homem-Aranha ser o sucesso que é até hoje, e certamente continuará sendo ainda por muitos e muitos anos! Uma prova disso é o sucesso que ele vem fazendo nos dois filmes HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO e HOMEM-ARANHA: ATRAVÉS DO ARANHAVERSO! Miles ganhou destaque e relevância ao longo dos últimos anos e provou ser capaz de manter seu título por seus próprios méritos! Se eu tivesse que indicar o GRANDE acerto da carreira de Brian Michael Bendis como roteirista de quadrinhos, certamente seria a criação de MILES MORALES, O NOVO HOMEM-ARANHA!

Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻

Um comentário

  1. Matéria Sensacional!!!! Publicada na hora certa !!! Vi o novo filme é realmente incrível e juntamente com essa matéria deixa qualquer leitor feliz da vida !! Vida longa e próspera a Leo Banner e ao canal Cinema com Poesia !!!🤩🤩🤩🤩

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