PRELO & PELÍCULA | O GRANDE GATSBY – 50 ANOS DA MELHOR VERSÃO

Por Sérgio Cortêz

Qual o verdadeiro limite entre o amor e a obsessão? É possível confundir o orgulho ferido com um sentimento de amor? E quanto a este sentimento: é suficiente para justificar o crescimento pessoal e financeiro a qualquer custo?

Estes e outros questionamentos são inevitavelmente fomentados a partir da leitura do romance O Grande Gatsby. Escrito por F. Scott Fitzgerald e lançado em meados da década de 1920, o livro destaca o glamour, os excessos e a empáfia dos ricos e emergentes da sociedade norte-americana no período pós-Primeira Guerra Mundial.

Nesse contexto de materialismo exagerado, decadência moral e abandono de antigos costumes, deparamo-nos com um insensato triângulo amoroso envolvendo o bilionário Jay Gatsby, a insegura socialite Daisy Buchanan e seu infiel e desconfiado marido, o empresário Tom Buchanan. Lincando essa melindrosa relação, o jovem Nick Carraway, primo de Daisy e vizinho de Gatsby, que tenta flutuar incólume em meio à tão conturbada situação sem comprometer sua recente amizade com o abastado Jay Gatsby.

Além das versões feitas para o teatro e para a TV, “O Grande Gatsby” foi levado às telonas em quatro momentos diferentes.

* The Great Gatsby (1926)

Postêr da primeira versão cinematográfica lançada em 1926.

Lançado em 1926 e dirigido por Herbert Brenon, tratou-se da primeira adaptação cinematográfica do romance de F. Scott Fitzgerald . Contou em seu elenco com Warner Baxter no papel de Jay Gatsby, Neil Hamilton (o Comissário Gordon da série clássica Batman) como Nick Carraway e Lois Wilson interpretando Daisy Buchanan.

Embora tenha sido distribuída pela Paramount Pictures, essa versão de 1926 (que somava cerca de 80 minutos de duração) acabou sendo perdida. Foram realizadas buscas por cópias sobreviventes, uma delas seguindo rumores envolvendo um arquivo de Moscou – porém nada foi encontrado na capital russa. Não obstante, somente o trailer chegou aos nossos dias contendo algumas das raras imagens do filme.

Warner Baxter e Lois Wilson em “The Great Gatsby” (1926)

Confira abaixo o trailer de “O Grande Gatsby”, versão de 1926.

* Até o Céu Tem Limites (1949)

Cartaz da versão de 1949.

Dirigido por Elliott Nugent e estrelado por Alan Ladd (Jay Gatsby) e Betty Field (Daisy Buchanan), essa versão do romance de F. Scott Fitzgerald (trata-se mesmo de “The Great Gatsby”, apesar do infeliz título em Português) nos apresenta Ladd num grande momento de sua carreira, sendo considerado por alguns críticos como o ator mais convincente a viver o misterioso bilionário. Já a atriz Betty Field não recebeu comentários positivos à sua interpretação de Daisy, considerada “afetada” ou “petulante” por alguns críticos – diga-se de passagem, opiniões não muito justas se levarmos em conta a necessidade de adequar a personagem ao contexto da época apresentada na obra. Um fato curioso é que Alan Ladd chegou a recusar o papel, alegando que “não beijaria a personagem Daisy Buchanan por ser ela uma mulher casada”, algo que poderia chocar seus fãs mais jovens. Mas o ator acabou aceitando o papel, realizando a cena e se notabilizando por sua interpretação magistral.

Alan Ladd e Betty Field em cena de “Até o Céu Tem Limites” (The Great Gatsby, 1949)

* O Grande Gatsby (1974)

Pôster da versão de 1974.

Quando se fala em O Grande Gatsby, esta é indubitavelmente sua versão cinematográfica definitiva. A despeito do quanto cada diretor foi mais fiel ou não à obra de F. Scott Fitzgerald em cada um dos filmes produzidos, a versão dirigida por Jack Clayton prima pela caprichosa reconstituição de época, pelas atuações brilhantes de seu elenco principal e por uma trilha sonora impecável, que nos remete direto à década de 1920, sem escalas ou obstruções temporais. Com roteiro assinado por Francis Ford Coppola e contando com astros de primeira grandeza como Robert Redford (Jay Gatsby), Mia Farrow (Daisy Buchanan), Bruce Dern (que brinda o espectador com a melhor interpretação do empresário Tom Buchanan entre todas as versões) e Sam Waterston (Nick Carraway), o filme faturou duas estatuetas da Academia na edição do Oscar de 1975 (Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora, assinada pelo lendário Nelson Riddle).

Importante destacar os elogios feitos pela filha do autor, Scottie Fitzgerald Smith, à produção: a interpretação de Mia Farrow, a preocupação de Robert Redford em dar vida ao Jay Gatsby idealizado por seu pai e a interpretação de Sam Waterston, que fez Nick Carraway ir muito além de um simples narrador.

Robert Redford, Sam Waterston e Mia Farrow em cena da versão de 1974.

* O Grande Gatsby (2013)

A priori, destaquemos os pontos positivos observados na versão mais recente da obra de F. Scott Fitzgerald, dirigida por Baz Luhrmann:

– As irretocáveis interpretações de Carey Mulligan (que esbanja charme como Daisy Buchanan) e Leonardo DiCaprio (Jay Gatsby. Aliás, meu velho, na cena em que o protagonista se apresenta a Nick Carraway (Tobey Maguire, o eterno Homem Aranha) e lhe sorri, não resta dúvida que Gatsby está ali, em carne e ossos – aplausos para DiCaprio.);

– Seu indiscutível sucesso financeiro;

– As duas estatuetas que recebeu da Academia na edição do Oscar 2014 (Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino).

No mais, esqueça: o filme é um grande pavão manco que não vale os 142 minutos que cobra da vida de qualquer incauto espectador. Barulhenta e cafona, a versão de 2013 comete um erro irreparável: tentar trazer os anos 1920 para os dias atuais (Dance Music, RAP e Hip Hop naquela época? Pelo amor!!). Alguém esqueceu de avisar ao diretor Baz Luhrmann que o encanto de “O Grande Gatsby” está no exato oposto: levar o leitor (ou o espectador) de volta àqueles tempos, como fez Jack Clayton em sua versão magistral de 1974, muito mais sóbria e bem menos extravagante.

Não bastassem as derrapadas musicais e outros devaneios semilisérgicos, a produção peca ainda pelo excessivo colorido de cenários e locações, que bem podem causar a impressão de se tratar não da obra consagrada de F. Scott Fitzgerald, mas sim de uma continuação de Avatar. É de doer os olhos! Uma obra impressionista de Claude Monet mais pareceria simples garatujas de jardim da infância diante de tantas cores berrantes.

Já o ator Tobey Maguire segue muito bem na sua interpretação de Peter Parker, a tal ponto que o espectador se põe a imaginar em qual momento Nick Carraway lançará suas teias enquanto fala sobre sua amizade com Gatsby. Nem mesmo o Rolls-Royce Phantom I amarelo usado nessa versão escapa do escatológico: de tão turbinado, parece já contar com injeção eletrônica, embora essa tecnologia automotiva ainda tivesse que esperar 30 anos para ser inventada.

A “arma do crime”: o turbinado Rolls-Royce Phantom I.

Resumo do circo: se tiver a opção de assistir a esse Grande Gatsby produzido por mentes pequenas, é melhor procurar a versão clássica de 1974.

Tobey Maguire, Leonardo DiCaprio e Carey Mulligan na produção de 2013.

* O Livro

O Grande Gatsby foi escrito por F. Scott Fitzgerald e publicado pela primeira vez em1925. Inicialmente o livro não se popularizou, vendendo cerca de 25.000 cópias durante os 15 anos restantes da vida de seu autor. Embora a história tenha ganhado adaptações no teatro e no cinema no ano seguinte à sua publicação, acabou por cair no esquecimento por conta da Crise de 1929 e, anos depois, pela Segunda Guerra Mundial. Todavia, entre 1945 e 1953, “O Grande Gatsby” foi republicado, conquistando um grande sucesso e arrebatando uma legião de novos leitores. Nas décadas seguintes, a obra alcançou o status de clássico da literatura norte-americana, tornando-se texto padrão nas universidades que oferecem cursos relacionados à Literatura dos Estados Unidos. O romance se passa entre as cidades de Nova Iorque e Long Island durante o verão de 1922. Jay Gatsby é uma personagem envolvente, cuja existência se mostra um verdadeiro castelo de cartas diante de uma quase obsessiva vontade de retomar seu antigo relacionamento com Daisy Buchanan, affair de outro tempo – agora casada, mas não necessariamente feliz. Aí reside a falha trágica de Jay Gatsby, pois o resultado dessa tentativa de reconquista acaba por seguir um caminho inesperado.

O Grande Gatsby está classificado em segundo lugar na lista dos 100 melhores romances do século XX da conceituada Modern Library. Confira a lista completa no site da editora:

https://www.modernlibrary.com/top-100/100-best-novels/

Os atores que viveram Jay Gatsby no cinema: A-Warner Baxter, B-Alan Ladd, C-Robert Redford, D-Leonardo DiCaprio.

* O Autor

Francis Scott Key Fitzgerald nasceu em 24 de setembro de 1896 e faleceu a 21 de dezembro de 1940. Foi romancista, contista e roteirista e se notabilizou por seus romances que descreviam as extravagâncias da Era do Jazz – termo que, aliás, Fitzgerald popularizou. Teve uma carreira curta, porém produtiva, publicando quatro romances, quatro coleções de histórias e 164 contos. Após a Primeira Guerra Mundial, F. Scott Fitzgerald iniciou sua carreira literária publicando, em 1920, seu primeiro romance “Este Lado do Paraíso”, cujo sucesso o catapultou entre os escritores mais promissores de sua época. Em 1922, lançou “Belos e Malditos” e, gozando de grande cartaz, foi convidado para escrever em revistas populares, como “The Saturday Evening Post” e “Esquire”. Em 1925, F. Scott Fitzgerald mudou-se para a França com sua esposa, Zelda S. Fitzgerald, onde concluiu o clássico O Grande Gatsby. A obra recebeu críticas favoráveis, mas não agradou o público como seus antecessores, ficando suas vendas aquém do esperado. Somente em 1934, F. Scott Fitzgerald publicaria seu romance seguinte, Suave é a Noite, obra que o autor considerava seu melhor trabalho. Anos depois, em 1939, vivendo em Hollywood e já com a saúde bastante abalada pelo alcoolismo, F. Scott Fitzgerald escreveu grande parte do romance O Último Magnata – mas não teve tempo suficiente para concluí-lo: o autor faleceu vítima de um ataque cardíaco no ano seguinte, aos 44 anos. Seu amigo Edmund Wilson concluiu e publicou postumamente o livro, em 1941.

F. Scott Fitzgerald está sepultado no Old Saint Mary’s Catholic Church Cemetery, em Rockville, Maryland, nos Estados Unidos.

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Dica Coluna – Onde Encontrar:

Você pode adquirir seu exemplar de “O Grande Gatsby” em:

https://bit.ly/33A60Kt

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