Adilson Santos

Os quadrinhos de super heróis seguem estruturas narrativas bem definidas, especialmente os da DC Comics, desde que em 1938 o Superman ergueu um carro acima da cabeça na capa de Action Comics #1. O bem precisa triunfar sobre o mal, e durante um longo tempo está premissa espelhava uma visão moralizante para crianças, uma inspiração para os valores de conduta da sociedade ocidental. Quando crianças viram adultas percebe-se que “bem” e “mal” são multifacetados, e que a ideia de justiça não é dual. Para esse leitor que cresceu com o gênero, o desenhista Alex Ross, revelado em 1994 na minissérie revisionista Marvels, imaginou um futuro distópico para os heróis da DC. Ross escreveu um esboço manuscrito de 40 páginas sobre o que se tornaria O Reino do Amanhã e apresentou a ideia a James Robinson, como um projeto similar a Watchmen, opondo as noções de heroísmo e vigilantismo para discutir uma realidade que caminha à beira do apocalipse. Aprovado pelos editores, o esboço levou Ross a se associar ao escritor Mark Waid, que foi recomendado pelos editores devido à sua forte familiaridade com a história dos super-heróis da DC.

Dividida em 4 capítulos, a história mostra o panteão original de heróis envelhecidos e uma nova geração de heróis irresponsável e desprovida de retidão moral. Nesse mundo o Batalhão da Justiça liderado por Magog representa uma mão de ferro para conter o crime, e em uma missão mal conduzida provoca a morte do Capital Átomo e com isso a explosão do Kansas. Um Superman exilado desde a morte de Lois Lane pelas maos do Coringa é chamado de volta pela Mulher Maravilha com a missão de recriar a Liga da Justiça e servir de força de manutenção da lei em meio ao caos instaurado no mundo e da ineficácia da nova geração. Compondo a Liga recriada temos Dick Grayson, agota denominado Robin Vermelho, que assume como sucesso de Bruce Wayne, Alan Scott como Lanterna Verde, um Flash que permanece intangível, Roy Harper , ex Ricardito, como Arqueiro Vermelho, Garth como novo Aquaman e outros. A nova Liga assume seu papel radicalizando suas ações outrora mais humanitárias e leva os criminosos para a prisão do Gulag. Do outro lado Lex Luthor lidera uma nova versão da Legião do Mal mantendo um Billy Batson sob controle mental instável. Logo se instaura uma guerra entre Liga e os humanos liderados por Luthor. A medida que esta evolui para um conflito iminente entre os dois lados, um Bruce Wayne envelhecido e mantido ativo com uma armadura high-tech forma um grupo independente por nao concordar com os excessos da nova Liga nem com a corrupção representada por Luthor e seu grupo.

A historia é conduzida pelo pastor Norman McKay, guiado pelo Espectro, e que se torna o olhar do homem comum o narrador observador que nos conecta com um mundo em que semi deuses decidem o futuro da humanidade. Armado o palco, todas essas forças antagônicas se dispõem em um mundo desprovido de esperança, e que conduz inevitavelmente a uma possível extinção da raça humana. A arte realista de Alex Ross é impecável seja recriando a aparencia clássica dos heróis ou criando uma nova geração de personagens de visual impactante como a Darkstar (a filha de Donna Troy), Kid Flash (a filha de Wally West), Nightstar (a filha de Dick Grayson e Estelar) entre outros. Alguns quadrinhos permanecem até hoje icônicos na memória como a figura central do Superman voando com os braços abertos simbolizando uma crucificação consequente de suas ações ou a luta entre o Superman e Shazam capaz de estremecer o mundo culminando em um sacrifício que determinará o futuro deste mundo do Amanhã, em que heróis e vilões se tornam mais que alegorias de vícios e virtudes, encarnando a complexidade humana.

O Reino do Amanhã foi originalmente lancada em maio de 1996 nos Estados Unidos. No Brasil chegou em quatro capítulos quinzenais, pela editora Abril em 1997. Em 1998, foi encadernada pela Abril num volume único. Também foi encadernada pela Panini Comics, após esta adquirir os direitos de publicação da DC Comics no Brasil, no ano de 2004. A editora Panini republicou a história em uma ‘edição definitiva’, em 2013, contendo mais de trezentas páginas, incluindo extras. Sem dúvida O Reino do Amanhã se tornou uma referência nas hqs e revistada 30 anos depois de sua publicação inicial uma das obras mais relevantes do gênero.
