Marcelo Kricheldorf

O testamento cinematográfico de Sergio Leone, Era uma Vez na América (Once Upon a Time in America, 1984), notabiliza -se não apenas como o ápice de sua cultuada “Trilogia da América“, mas como uma das investigações mais profundas e melancólicas sobre a condição humana já registradas no cinema. Distanciando-se do romantismo heróico e da violência quase lúdica que consagraram seus westerns spaghetti, Leone utiliza o universo do crime organizado para elaborar um retrato épico sobre a passagem do tempo e a perda da inocência.
No centro desta trama está a trajetória de David “Noodles” Aaronson, brilhantemente interpretado por Robert De Niro, e seu grupo de amigos leais.A narrativa, que retrata mais de quarenta anos, divide-se em três atos fundamentais que espelham a própria evolução social de Nova York. Começa na década de 1920, retratando a infância miserável no fervilhante gueto judaico do Lower East Side; avança para a década de 1930, onde o grupo alcança o apogeu financeiro e o poder através do contrabando de bebidas durante a Lei Seca; e culmina em 1968, quando um Noodles envelhecido retorna do exílio para confrontar os fantasmas de seu passado e as mentiras que moldaram sua vida.
O maior trunfo estético e narrativo de Leone reside na subversão da linearidade temporal. O filme recusa a cronologia tradicional, operando através de uma lógica puramente estratégica e onírica. O cineasta utiliza transições sensoriais geniais, como o eco persistente e angustiante de um toque de telefone que atravessa décadas para fundir passado, presente e futuro. Essa ligação cria uma atmosfera hipnótica que desafia a percepção do espectador. De fato, a sequência final do filme, que traz Noodles dopado em um antro de ópio em 1933, sustenta até hoje a famosa teoria crítica de que todo o terço final do filme, situado em 1968, não passa de um delírio ou de uma projeção fantasiosa de um homem incapaz de lidar com a própria culpa e com a traição
Sob essa estrutura complexa, Leone desenvolve uma crônica visceral sobre a saga da imigração e o mito do “Sonho Americano“. Ao contrário de outras obras do gênero que focavam na máfia italiana, o diretor lança luz sobre a comunidade judaica marginalizada no início do século XX. Para esses jovens, inseridos em um ecossistema hostil que lhes negava caminhos legítimos de ascensão, o crime não se apresenta como uma escolha moral ou fruto de uma maldade intrínseca, mas como o único camiinho de sobrevivência e escape da miséria absoluta
Entretanto, essa busca frenética pela ascensão social cobra um preço impagável, evidenciado na dinâmica de amizade e lealdade entre Noodles e Max, vivido por James Woods. Se na infância os laços eram forjados pela pura cumplicidade e sobrevivência mútua, a maturidade introduz a ganância desmedida e a megalomania. Enquanto Noodles permanece atado a um código de honra primitivo e inflexível, Max personifica a ambição desenfreada que engole qualquer rastro de afeto. A obra demonstra como o capitalismo selvagem e a busca pelo poder corroem as conexões humanas mais sagradas, transformando irmãos de sangue em peões de um jogo corporativo violento
Nesse contexto, a violência e a corrupção não são meros artifícios de choque; elas são apresentadas em toda a sua crueza e desconforto moral. O “Sonho Americano” é despido de sua aura mítica e revelado como uma farsa erguida sobre cadáveres, suborno e a perda completa da integridade moral.
Por fim, Era uma Vez na América consagra-se como uma obra-prima ao transcender os limites do cinema de gângster tradicional. Leone resgata a iconografia do cinema noir clássico e a eleva ao nível da tragédia grega, onde o destino dos homens já está traçado por suas próprias falhas trágicas. Amparado pela cinematografia excepcional de Tonino Delli Colli e pela trilha sonora do maestro Ennio Morricone, o filme é um lamento fúnebre sobre a identidade perdida e a dor de lembrar. É uma obra cinematográfica que fala sobre homens que ganharam o mundo exterior, mas perderam irremediavelmente suas próprias almas no processo.
Ficha Técnica
- Título Original: Once Upon a Time in America
- Direção: Sergio Leone
- Roteiro: Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi, Enrico Medioli, Franco Arcalli, Franco Ferrini, Sergio Leone. Baseado no livro The Hoods de Harry Grey
- Gênero: Drama, Crime, Épico
- Duração: 229 min (versão do diretor) / 139 min (versão de cinema nos EUA)
- País de Origem: Itália, Estados Unidos
- Idioma: Inglês
- Distribuidora: Warner Bros.
- Trilha Sonora: Ennio Morricone
- Fotografia: Tonino Delli Colli
- Elenco Principal:
- Robert De Niro como David “Noodles” Aaronson
- James Woods como Maximilian “Max” Bercovicz
- Elizabeth McGovern como Deborah Gelly
- Joe Pesci como Frankie Monaldi
- Tuesday Weld como Carol
- Burt Young como Joe
- Treat Williams como Jimmy O’Donnell