GALERIA DE ESTRELAS | TYRONE POWER

Adilson Santos

Quando Tyrone Edwards Power nasceu em Cincinatti, Ohio a 5 de Maio de 1914 o cinema ainda não tinha som, o mundo estava prestes a mergulhar no primeiro conflito de proporções globais e o rádio era a maior mídia da época. Nascido com a veia artística vinda de seu pai, Tyrone Power Sr, também pertencente a uma linhagem de atores teatrais iniciada com o bisavô de Tyrone. Logo após nascer, problemas de saúde levaram a família a se mudar para San Diego, na Califórnia para cuidar do pequeno Tyrone. Este se interessou desde cedo pela atuação e o futuro grande astro chegou até mesmo a atuar nos palcos junto com seu pai. Quando o pai de Tyrone foi contratado para o filme The Miracle Men de 1932, logo levou seu filho para as filmagens, já pensando em conseguir colocá-lo no meio, mas passou mal e morreu nos braços do filho, aos 44 anos, de infarto. A perda foi dura para o jovem Tyrone de 18 anos, mas este nunca desistiu de seguir os passos de seu pai. O jovem, então usando o nome artístico de Tyrone Power Jr fez pontas em diversos filmes no início da década de 30, mas depois de vários insucessos mudou-se para Nova York em busca de trabalho nos palcos e também seguiu o conselho do amigo, o ator Don Ameche,  fazendo rádio em Chicago por um curto tempo. Em 1936, foi para Hollywood onde conseguiu um contrato com a 20th Century Fox fazendo papéis pequenos e inexpressivos até que o corajoso ator entrou no escritório do diretor Henry King para pedir uma chance melhor.

O ator em A Marca do Zorro

Contrariando a vontade de Darryl F. Zanuck, o todo poderoso da Fox, King – que se tornou grande amigo de Tyrone e com quem veio a trabalhar outras vezes – quem deu ao novato o papel que seria de Don Ameche em “Lloyd’s of London”. Ainda que em preto em branco, seu belo rosto, sua presença em cena e sua impostação de voz o fizeram ser notado e abriram as portas para novas oportunidades em filmes como “Na Velha Chicago” (1937) e “Maria Antonietta” (1938), onde fez par romântico com a já consagrada estrela Norma Shearer. Em 1939, sua condição já era de grande astro ascendente quando se casou com a atriz francesa Annabelle, uma relação que duraria por cinco anos. No mesmo ano teve uma excelente atuação como protagonista de “Jesse James”, versão romanceada do notório pistoleiro do velho oeste, trabalhando ao lado de Henry Fonda. A escalação de Tyrone, que já havia retirado o “Jr” de seu nome artístico, foi perfeita para transformar a figura de um violento fora-da-lei em um carismático rebelde com o qual o público poderia se identificar. O filme, dirigido pelo mesmo Henry King que lhe havia aberto as portas do sucesso, foi duramente criticado pela violência e pela distorção dos fatos relativos a um personagem moralmente questionável. As bilheterias aprovaram e o público se rendeu de vez ao charme de Tyrone, o que levou o estúdio a fazer a sequência “A Volta de Frank James”, sem Tyrone, no ano seguinte.

Com a estonteante Rita Hayworth em Sangue & Areia

1940 foi definitivo para a carreira de Tyrone Power quando a Fox lhe entregou o papel do herói mascarado Zorro, criado por Johnston McCaulley, que havia sido vivido por Douglas Fairbanks no período do cinema mudo. Apesar de sua descedência irlandesa, Tyrone parecia convincente como o herói de origem espanhola que defendia seu povo dos abusos da tirania. Em cena ao seu lado, Basil Rathbone fazia seu antagonista, o Capitão Esteban e juntos protagonizam uma das melhores cenas de esgrima do período, tendo recebido a orientação de Fred Cavens, o melhor instrutor do gênero que trabalhou as lutas de outros filmes. Durante as filmagens, a habilidade de esgrimista de Rathbone era superior a de Power, mas ainda assim este o elogiou muito por sua desenvoltura em cena. Power soube como trabalhar a dualidade de seu personagem, afetado e sensível como Dom Diego mas audaz e determinado como Zorro. Satisfeitíssima com o carisma de Tyrone Power, a Fox o escalou para outro papel de natureza latina, o toureiro arrogante Juan Gallardo de “Sangue & Areia” (1941) – refilmagem do clássico que marcou a carreira de Rodolfo Valentino no cinema mudo, baseado no clássico da literatura espanhola de Vicente Basco Ibanez. O filme foi um grande sucesso e imortalizou a química entre Tyrone e a então novata Rita Hayworth como a sedutora Dona Sol.

Com a belíssima Maureen O’Hara em O Cisne Negro

Apesar se experimentar a comédia em “Esposas Ciumentas” (Day-Time Wife) de 1939, ano que foi coroado o “Rei das Bilheterias”,  e o drama em “Um Yankee na R.A.F” (A Yankee in R.A.F – 1940), a Fox continuava a explorar a imagem de sedutor e herói das matinês em colocou Tyrone no papel de pirata em “O Cisne Negro” (The Black Swam) em 1942, superficialmente adaptado do romance de Rafael Sabatini. Ao lado da belíssima Maureen O’Hara e antagonizado pelo excelente Anthony Quinn, Tyrone foi fantástico. Lamentavelmente, interrompeu sua carreira nesse período para ingressar nas forças armadas e lutar na Segunda Guerra Mundial, recusando qualquer tratamento especial. Dando baixa como Tenente, Tyrone retomou a carreira com um novo contrato com a Fox no drama “O Fio da Navalha” (Razor’s Edge) de 1946, adaptado do Best-seller de W.Somerset  Maughan. O papel era interessante para Tyrone para se distanciar dos papéis de herói romântico. Nessa fase de sua vida, se separou de Annabelle e pouco depois casou-se novamente com a também atriz Linda Christian com quem teve duas filhas: Romina em 1951 e Taryn em 1953.

Tyrone e suas filhas

Aceitou voltar ao gênero aventura em “O Capitão de Castela” (Captain from Castille) em 1947, outro papel a lhe impor o rótulo de herói latino, trabalhando  ao lado do amigo Cesar Romero. Apesar de bom ator, Tyrone Power foi subestimado em Hollywood, rotulado demais por mais que demonstrasse talento inegável nos palcos, sendo um dos atores favoritos de Charles Laughton que o escalava para suas peças, sempre elogiando sua dicção. Tyrone, contudo, buscou papéis diferenciados nas telas, trabalhando até para outros estúdios, porém nunca conquistando um Oscar. Separado de Linda Christian em 1955, Tyrone teve excelente desempenho ao lado de Errol Flynn e Ava Gardner em “E Agora Brilha o Sol” (The Sun Also Rises) de 1957, adaptação da obra de Ernest Hemingway e dirigido pelo velho amigo Henry King. Chegou a recusar o papel de Leonard Vole em “Testemunha de Acusação” (Witness For The Prosecution), do mesmo ano,  mas foi convencido pelo diretor Billy Wilder.

O ator em Testemunha de Acusação

Power brilhou nessa adaptação da peça de Agatha Christie, atuando ao lado de Charles Laughton e Marlene Dietrich. Nesse mesmo ano conheceu e se casou pela terceira vez , com Deborah Ann Montgomery que logo veio a engravidar. Em 1958, Power gravava em Madrid “Solomon & Sheba”, dirigido por King Vidor, quando sofre um infarto fulminante enquanto filmava uma cena de luta com George Sanders e  – assim como seu pai – morreu. Seu filho, Tyrone Power IV nasceu no ano seguinte. O filme foi terminado com Yul Brinner entrando no lugar de Tyrone. Prematuro fim para um grande ator que deixou sua marca na história do cinema. Descrito pelos que o conhecera como um homem gentil e de grande empatia, Tyrone Power completaria 110 anos nesta data e, certamente, preenche hoje o firmamento como uma das maiores estrelas de sua geração.

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