Marcelo Kricheldorf

A história das artes no século XX é indissociável da figura de Orson Welles. Definir Welles apenas como um cineasta é reduzir a amplitude de um artista que foi, simultaneamente, um revolucionário do rádio, um renovador do teatro e um filósofo da imagem. Sua trajetória é marcada por um paradoxo fascinante: ao mesmo tempo em que foi coroado pelo “mito” da perfeição técnica, foi também a figura do exilado, o artista que encontrou na Europa e na precariedade o terreno para suas experimentações mais profundas.
Antes de tocar uma câmera, Welles já havia abalado as estruturas de Nova York com o Mercury Theatre. Conhecido como o “Mago do Teatro”, ele aplicava uma visão cinematográfica aos palcos, utilizando iluminação expressionista e leituras políticas ousadas, como o seu célebre Júlio César ambientado em uma estética autoritária. No entanto, sua consagração popular veio através do som. Em 1938, a transmissão de A Guerra dos Mundos tornou-se um marco sociológico. Ao simular boletins jornalísticos de uma invasão marciana, Welles gerou o “Pânico de 1938”, provando que a voz e a narração, quando aliadas à técnica dramática, tinham o poder de moldar a percepção da realidade coletiva.
O impacto do rádio rendeu-lhe o contrato mais liberal da história de Hollywood. O resultado foi Cidadão Kane (1941). Mais que um filme, a obra é um inventário de inovações: a profundidade de campo, os tetos nos cenários e a narrativa fragmentada por múltiplos pontos de vista. Contudo, ao desafiar o magnata William Randolph Hearst, Welles selou seu destino na indústria. A “Briga com Hollywood” não foi apenas comercial, mas ideológica; a indústria buscava artesãos dóceis, e Welles era um autor total. O desmembramento de seu filme seguinte, Soberba, marcou o fim de sua era de ouro nos grandes estúdios, transformando-o no eterno “Artista Inacabado”.Um cineasta que teve uma vasta coleção de obras que nunca foram finalizadas quanto à sua própria natureza criativa, que parecia ser grande demais para caber em um resultado final.

Welles foi um gênio da narrativa visual seja como em A Dama de Shanghai (1947), com sua entao esposa Rota Hayworth, em que a sequência da sala dos espelhos impacta a percepção da história. Outra obra fabulosa é A Marca da Maldade (1958) com sua sequência inicial em plano sequência, até hoje impressionante.
Forçado a se tornar um nômade, Welles encontrou na Europa o seu exílio produtivo. Longe dos orçamentos milionários, ele se tornou um mestre da improvisação e da presença cênica. Sua voz de timbre marcante e autoritária tornou-se seu principal meio de subsistência e expressão, narrando documentários e atuando para financiar seus próprios projetos. Foi nesse período que ele levou Shakespeare ao cinema de forma visceral. Em obras como Otelo e Falstaff, Welles provou que a grandeza de Shakespeare não residia no luxo dos cenários, mas na montagem dinâmica e na capacidade da câmera de capturar a tragédia humana em planos expressionistas.
Nos seus anos finais, Welles antecipou debates contemporâneos. Em F for Fake, ele se apresenta como um documentarista que duvida da própria verdade. Ao explorar a vida de falsários, ele questiona a autoria e a validade da arte, admitindo que o cinema é, em essência, o trabalho de um charlatão talentoso. É o fechamento de um ciclo: o homem que começou enganando a América pelo rádio termina sua carreira explicando como a mentira é a ferramenta fundamental do artista.
Orson Welles permanece como uma figura monumental, não pelos prêmios que acumulou, mas pelas cicatrizes de suas batalhas criativas. Ele foi o homem que dominou todas as linguagens, o rádio, o teatro e o cinema; apenas para descobrir que a liberdade absoluta muitas vezes leva ao isolamento. Sua obra é um testemunho de que o gênio não reside na finalização técnica, mas na coragem de subverter a forma e desafiar o espectador a ver além da superfície das imagens.
Filmografia
- Cidadão Kane (1941)
- Soberba (1942)
- O Estranho (1946)
- A Dama de Xangai (1947)
- Macbeth – Reinado de Sangue (1948)
- Othello (1951)
- A Arca de Noé / Grilhões do Passado (1955)
- A Marca da Maldade (1958)
- O Processo (1962)
- Falstaff – O Toque da Meia-Noite (1965)
- História Imortal (1968)
- Verdades e Mentiras (1973)
- Filming Othello (1978)
- O Outro Lado do Vento (2018 – póstumo)
Filmografia como Ator
- O Terceiro Homem (1949)
- Moby Dick (1956)
- Casino Royale (1967)