Marcelo Kricheldorf

Fred Astaire não foi apenas um artista do entretenimento; ele foi o homem que alfabetizou visualmente o cinema musical. Em uma época em que Hollywood ainda aprendia a lidar com o som e o movimento, Astaire impôs uma disciplina técnica e uma visão estética que elevaram a dança de um mero número de intervalo para o centro da narrativa cinematográfica. Sua jornada, que vai da poeira do Vaudeville ao prestígio do Oscar, é o relato de um perfeccionismo quase religioso escondido sob a leveza de um fraque e uma cartola.
A base da arte de Astaire foi moldada nos palcos itinerantes do Vaudeville ao lado de sua irmã, Adele. Essa escola de “entretenimento puro” deu a ele a versatilidade do músico e a precisão do comediante. No entanto, sua verdadeira revolução ocorreu atrás das câmeras. Astaire odiava como o cinema editava a dança: os cortes bruscos e os planos detalhados de rostos ou pés “quebravam” o fluxo do movimento. Ele estabeleceu uma regra de ouro: a câmera deveria filmar o corpo inteiro do bailarino em planos longos e contínuos.Com isso, ele transformou o espectador em uma plateia de primeira fila, onde a fluidez não era fruto da montagem, mas do talento bruto e ensaiado exaustivamente.

Embora possuísse a precisão de um solista clássico, Astaire frequentemente se autodenominava um “anti-bailarino”. Ele rejeitava a pompa do balé tradicional em favor de uma fusão híbrida: o sapateado (tap dance), o jazz e o bailado de salão social. Para ele, o chão e as paredes não eram apenas cenários, mas instrumentos de percussão. Em números icônicos onde “batia no chão”, ele não apenas dançava sobre a música, ele criava a música com seus pés. Esse domínio espacial atingiu o ápice em Royal Wedding (1951), onde, através de engenharia cinematográfica e coreografia impecável, ele desafiou a gravidade ao dançar pelas paredes e pelo teto, tornando o surrealismo algo crível.
A parceria com Ginger Rogers definiu uma era. O segredo do sucesso da dupla não estava apenas na técnica, mas na construção de um romance sem beijos. Nos dez filmes que fizeram juntos, a dança era o diálogo. Onde as palavras falhavam ou as convenções sociais impediam o contato físico explícito, os passos de valsa e o sapateado sincronizado serviam como metáfora para a sedução e a união. Eles provaram que uma sequência de movimentos poderia narrar o início, o meio e o ápice de uma paixão de forma mais eficaz do que qualquer roteiro.

Fora dos holofotes, Astaire era uma figura de paradoxos. Profundamente inseguro sobre sua aparência e sua voz. Embora não fosse um cantor de grande alcance, ele possuía um fraseado rítmico que fascinava compositores como George Gershwin e Cole Porter. Ele tratava as canções como tratava seus passos: com uma exatidão métrica. Esse perfeccionismo beirava a obsessão; ele era capaz de ensaiar um único número por meses, levando suas parceiras à exaustão, apenas para que, no momento da gravação, tudo parecesse um improviso espontâneo.
Diferente de muitos de seus contemporâneos, Astaire não permitiu que a idade o tornasse obsoleto. Aos 50 anos, ele continuava a se reinventar, buscando novos desafios em filmes como Cinderela em Paris, onde contracenou com Audrey Hepburn, e explorando dramas sem música em sua fase tardia. Enquanto a rivalidade com Gene Kelly era alimentada pela mídia , contrastando o estilo de Kelly com a elegância aristocrática de Astaire; ambos compartilhavam o mérito de ter transformado a coreografia em uma linguagem universal. Fred Astaire encerrou sua carreira com um Oscar Honorário que reconhecia não apenas seus passos, mas sua capacidade de elevar o cinema a uma experiência rítmica. Ele deixou um legado onde o estilo nunca sacrificou a substância e onde o trabalho duro foi o único caminho para a imortalidade artística.
Filmografia de Fred Astaire(Primcipais Filmes)
- Voando para o Rio (1933)
- A Alegre Divorciada (1934)
- O Picolino (1935)
- Sigamos a Marinha (1936)
- Ritmo Louco (1936)
- Vamos Dançar? (1937)
- Cuidado com as Pernas (1937)
- Melodias Imortais (1940)
- Ao Compassos da Música (1941)
- Duas Semanas de Prazer (1942)
- Céu de Prata (1943)
- Ziegfeld Follies (1945)
- Desfile de Páscoa (1948)
- Ciganos do Amor (1949)
- Núpcias Reais (1951)
- A Roda da Fortuna (1953)
- Papai Pernilongo (1955)
- Cinderela em Paris (1957)
- Meias de Seda (1957)
- A Hora Final (1959)
- O Caminho do Arco-Íris (1968)
- Inferno na Torre (1974)
- História de Fantasmas (1981)