Marcelo Kricheldorf fala dos musicais que compõem o evento do Grupo Estação NET em sua edição 2026.
HOJE, 13/05 / 21h – Estação NET Rio

Lançado em 2002 sob a direção de Rob Marshall, o filme Chicago não apenas resgatou o gênero musical do ostracismo comercial, mas também redefiniu a forma como o cinema traduz a linguagem teatral de Bob Fosse para o público. Vencedor do Oscar de Melhor Filme, a obra funciona como uma sátira feroz ao sistema judiciário americano e à cultura da celebridade, onde a verdade é irrelevante frente a um número de sapateado bem executado.
A grande inovação de Marshall foi a estrutura narrativa. Em vez de interromper a realidade para os personagens cantarem, o diretor situou os números musicais dentro da imaginação de Roxie Hart. O Vaudeville, gênero de teatro de variedades popular no início do século XX; torna-se a linguagem mental da protagonista. Essa escolha justifica o uso do palco como metáfora: para Roxie, a vida só ganha sentido se for uma performance. O brilho dos holofotes na sua mente contrasta com a crueza cinzenta da prisão de Cook County, estabelecendo que, naquele universo, a fama é o único caminho possível. A figura de Billy Flynn, interpretada com charme e presença por Richard Gere, é o pilar central da crítica social do filme. Flynn não é um advogado, mas um diretor de cena. Para ele, o tribunal é um espetáculo onde o júri é a audiência. Através da canção “We Both Reached for the Gun”, o filme ilustra como a imprensa e a justiça são manipuláveis; Roxie é literalmente uma marionete em seu colo.

Diferente de muitas narrativas contemporâneas que romantizam a união feminina, Chicago apresenta um cenário mais realista.Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones) e Roxie Hart (Renée Zellweger) vivem em um estado de sobrevivência máxima. Elas personificam o narcisismo da era do jazz, onde o sucesso de uma depende do esquecimento da outra. O Oscar de Zeta-Jones foi amplamente merecido por capturar essa essência. A aliança final entre as duas não nasce do afeto, mas do pragmatismo comercial do Sonho Americano.
O número “Cell Block Tango” eleva o crime passional ao status de arte, oferecendo seis justificativas estéticas para o assassinato. É a celebração, que ressoa com a figura de Mama Morton (Queen Latifah), a carcereira que transforma a corrupção em um sistema de trocas recíprocas (“When You’re Good to Mama”). Em contrapartida, o filme oferece o momento de maior melancolia em “Mr. Cellophane”. Amos Hart, o marido invisível, é o único personagem moralmente íntegro, e por isso mesmo é o mais punido: provando que, em Chicago, a invisibilidade é o verdadeiro crime.

Realizado em um contexto pós-11 de setembro, Chicago ofereceu um escapismo ácido. O filme adaptou a estética de Bob Fosse, marcada pelo erotismo sombrio e movimentos fragmentados; para uma montagem cinematográfica frenética que ditou o ritmo dos musicais modernos.
Por fim, o sonho americano é apresentado como uma grande farsa onde a ética é sacrificada no altar do entretenimento. No fim, as luzes se apagam, mas o cinismo permanece: em Chicago, o show nunca pode parar, especialmente se houver sangue no figurino.
Ficha Técnica: Chicago (2002)
- Título original: Chicago
- Ano: 2002
- País: Estados Unidos
- Duração: 113 minutos
- Gênero: Musical.
- Direção e coreografia: Rob Marshall
- Roteiro: Bill Condon
- Baseado em: Musical Chicago de Bob Fosse e Fred Ebb, e na peça Chicago de Maurine Dallas Watkins
- Produção: Martin Richards
- Música: John Kander, Danny Elfman, Steve Bartek
- Canções: John Kander e Fred Ebb
- Fotografia: Dion Beebe
- Edição: Martin Walsh
- Figurino: Colleen Atwood
- Produtoras: Producer Circle Co., Zadan/Meron Production
- Distribuição: Miramax
Elenco principal
- Renée Zellweger — Roxie Hart
- Catherine Zeta-Jones — Velma Kelly
- Richard Gere — Billy Flynn
- Queen Latifah — Mama Morton
- John C. Reilly — Amos Hart
- Christine Baranski — Mary Sunshine
Prêmios: Ganhador de 6 Oscars: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante, Edição, Figurino, Direção de Arte e Mixagem de Som
Não percam, de 13 a 20 de maio, os maiores espetáculos da Terra no Estação Rio e no Estação Gávea, com exibições de obras-primas que vão desde clássicos incontornáveis da Era de Ouro de Hollywood a abordagens musicais menos convencionais ao redor do globo, com exemplares do cinema latino-americano e do cinema europeu compondo a seleção. Porque não adianta contar histórias: precisamos cantá-las e dançá-las.