LEANDRO BANNER

No ano de 2026 completa 40 anos do lançamento de uma das obras mais marcantes e revolucionárias dos quadrinhos: O HOMEM DE AÇO (The Man Of Steel) por JOHN BYRNE, minissérie em seis partes da DC COMICS que redefiniu profundamente o personagem para uma nova era que se formava naquele momento. E convidamos você, que nos privilegia com sua presença neste espaço, a nos acompanhar nessa viagem no tempo para relembrar esse momento de grande impacto na vida editorial do personagem. A série nasceu no contexto da grande reestruturação do universo da editora após a megassaga CRISE NAS INFINITAS TERRAS, evento que buscou simplificar décadas de continuidade acumulada e confusa. Coube a Byrne a tarefa monumental de reconstruir a mitologia do Superman praticamente do zero — tarefa que ele executou com uma mistura de respeito à tradição e ousadia criativa. Dessa forma, após o fim de CRISE NAS INFINITAS TERRAS, a DC COMICS decidiu reiniciar a cronologia de boa parte de seus personagens, com especial destaque para sua “Trindade” de medalhões por uma equipe estelar, com BATMAN – ANO UM por Frank Miller e David Mazzucchelli, MULHER-MARAVILHA por George Pérez e Len Wein e, finalmente, SUPERMAN por John Byrne. Este, depois de desentendimentos com o polêmico Jim Shooter, deixou a Marvel no final de 1985 e foi contratado pela DC COMICS para a reformulação do SUPERMAN, em atendimento ao convite do lendário DICK GIORDANO para tal empreitada. Mas não seria apenas mais um retcon, como vinha ocorrendo com o personagem desde a década de 1940, com sucessivas modificações e aumento de seus poderes e habilidades, seria realmente um recomeço, a partir do zero… Byrne teria a oportunidade de recontar, desde o início, as histórias do maior herói das HQs, tendo carta branca para tal… ou talvez nem tão “branca” assim…😬😬
Refreado no seu afã de modificar excessivamente alguns conceitos essenciais do cânone, John Byrne escreveu e desenhou (acompanhado de Giordano na arte-final), a minissérie THE MAN OF STEEL, de 1986, trazendo o Superman para uma nova geração de leitores, desde o momento em que o bebê Kal-El é colocado num foguete pelo seu pai biológico Jor-El, para salvá-lo da iminente destruição do planeta Krypton, até sua chegada ao planeta Terra para ser criado e educado pelos fazendeiros Jonathan e Martha Kent.

Uma das mudanças mais radicais aparece já no primeiro número. Byrne apresenta um Krypton frio, tecnologicamente avançado e emocionalmente distante, um mundo quase estéril onde os nascimentos ocorrem em matrizes artificiais. Essa escolha narrativa reforça o contraste entre Krypton e a Terra: enquanto o planeta natal de Kal-El é racional e alienante, Smallville e a família Kent representam calor humano e valores morais. Assim, o menino vai crescendo e descobrindo suas habilidades, e por conta da forte formação moral que recebera de seus pais terráqueos, percebe que o mais correto é usar seus dons especiais para servir e ajudar a Humanidade da maneira que lhe fosse possível. Byrne ainda fez sensíveis alterações no personagem nesse novo recomeço, tornando- o menos poderoso do que sua versão pré-Crise e muito mais humano, de modo que CLARK KENT fosse o homem real e o Superman fosse o disfarce para que ele pudesse ajudar as pessoas e também manter seus entes queridos protegidos e sua privacidade resguardada. O resultado foi uma abordagem mais humana e contemporânea do personagem. Byrne deslocou o foco do Superman quase mitológico da chamada Era de Prata para um herói mais acessível, emocionalmente próximo do leitor. Clark Kent passa a ser a verdadeira identidade, enquanto o Superman torna-se a máscara heroica — uma inversão conceitual fundamental e inovadora em relação às décadas anteriores. Essa inversão reforça o aspecto central da nova abordagem: Superman é, essencialmente, um herói humano que por acaso veio de outro planeta.

Já Lois Lane deixou de ser a eterna donzela em perigo e passou a ser uma repórter arrojada, corajosa e determinada, muitas vezes sofrendo consequências de suas atitudes – muitas vezes inconsequentes – sem a presença perene do Superman para salvá-la, com o mesmo podendo ser dito sobre Jimmy Olsen nessa reformulação. Outra alteração decisiva foi manter Jonathan e Martha Kent vivos na vida adulta de Clark. Em vez de figuras idealizadas apenas na memória do herói, eles passam a atuar como conselheiros e base emocional permanente. Essa decisão muda profundamente o tom das histórias. Superman deixa de ser um personagem trágico e solitário e passa a ter um porto seguro emocional, o que reforça sua humanidade. Praticamente toda a essência dessa genial reformulação promovida por John Byrne serviu de mote para a série LOIS & CLARK, AS NOVAS AVENTURAS DO SUPERMAN (1993/1997) contando com um total de quatro temporadas.

Byrne também modernizou o principal antagonista do herói. Valendo-se de uma sugestão de Marv Wolfman, LEX LUTHOR abandona a imagem clássica de cientista obsessivo e transforma-se em um bilionário corporativo, símbolo do poder econômico e da corrupção institucional. Esse Luthor é mais realista e ameaçador, não apenas um gênio excêntrico isolado, mas um homem que controla Metrópolis por meio de dinheiro, influência política e manipulação. O conflito entre ele e Superman passa a representar também o embate entre poder moral e poder econômico. Dessa nova situação advém também a atualização do conceito do personagem BIZARRO, que se torna um clone defeituoso do Superman numa tentativa de Luthor em replicar o DNA alienígena do herói ao fabricar uma criatura com os mesmos poderes e habilidades que lhe devesse cega obediência. Depois de estabelecer os alicerces desse novo e intrigante Superman, Byrne encerra a minissérie retratando a descoberta por parte de Kal-El da sua origem alienígena. Numa visao geral, a minissérie de seis edições funciona quase como um romance de formação heroica. Cada capítulo apresenta um momento fundamental da (re)construção do mito:
- Krypton e o nascimento de Kal-El
- Smallville e a formação de Clark
- A chegada a Metrópolis
- O primeiro encontro com Batman
- A ascensão de Luthor
- A consolidação do Superman como símbolo
Byrne conduz a narrativa com ritmo clássico e elegante, equilibrando ação, exposição e desenvolvimento de personagens. O roteiro evita excessos cósmicos e aposta em conflitos humanos, políticos e psicológicos, aproximando o herói do mundo real. No campo visual, Byrne entrega alguns dos melhores trabalhos de sua carreira. Seu Superman é poderoso, atlético e dinâmico, mas sem exageros caricaturais. A narrativa gráfica é clara e cinematográfica, com enquadramentos que valorizam tanto a ação quanto os momentos íntimos.
Byrne também redesenha muitos elementos icônicos — da nave kryptoniana ao uniforme — com uma estética limpa e moderna, adequada ao espírito de renovação da DC naquele período. Não se pode relegar ao esquecimento que grande parte da força visual da obra se deve à arte-final precisa de Dick Giordano. Seu traço reforça a solidez anatômica dos desenhos de Byrne, acrescentando peso, textura e elegância às páginas. Giordano equilibra linhas firmes e sombras bem colocadas, criando páginas de grande clareza visual. A parceria entre os dois artistas resulta em uma estética clássica, porém moderna, que ajudou a definir o visual do Superman pelos anos que se seguiram. Quatro décadas depois, THE MAN OF STEEL permanece como uma das reinvenções mais influentes da história dos quadrinhos. Elementos introduzidos por Byrne — como o Lex Luthor empresário, os Kents vivos e o Superman mais humano — influenciaram animações, filmes e histórias posteriores.
Mais do que uma simples atualização editorial, a obra reafirmou o núcleo do personagem: um herói movido por valores humanos, esperança e responsabilidade moral.

Celebrar os 40 anos de THE MAN OF STEEL é reconhecer o momento em que o maior ícone da DC foi reconstruído para o mundo moderno — e provar que, mesmo após tantas versões e interpretações posteriores, o Superman de John Byrne continua sendo uma das reinvenções mais elegantes e bem estruturadas da história dos super-heróis, equilibrando reverência ao passado com modernização narrativa.
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻