Adilson Santos

Prêmio de melhor filme do júri popular e oficial do último Festival de Gramado, O filme O Homem da Capa Preta, de Sérgio Rezende, baseado na vida de Tenório Cavalcanti é um dos grandes filmes do cinema nacional oitentista. Tenorio Cavalcanti foi um advogado e político brasileiro que se tornou famoso por sua personalidade agressiva, de tolerância zero. Migrante alagoano, Tenório se fixou em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde criou-se o mito do Homem da Capa Preta. Esse mito, mais que a figura humana, serve de força motriz do filme de Sérgio Rezende com José Wilker vivendo o protagonista. O filme ganhou os Kikitos de melhor filme, melhor música, melhor ator (Wilker) e melhor atriz (Marieta Severo) no Festival de Gramado de 1986. Figuram ainda no elenco: Jonas Bloch, Carlos Gregório, Paulo Vilaça, Tônico Pereira, Jackson de Souza (Cabral), Chico Bias, Isolda Cresta, Jurandír de Oliveira e Guilherme Karan. O roteiro é do próprio Sérgio, com Tairone Feitosa e José Louzeiro; a música é de David Tygel e a fotografia de César Charlone, que optou por uma imagem quase sempre esfumaçada, reproduzindo a Duque de Caxias de um passado mais violento. Na época Sérgio Rezende foi acusado de romantizar a vida de Tenorio, que certamente nao esconde a aura polêmica de sua natureza e época.

O filme começa com o nascimento de Tenório.em Alagoas, faz uma breve passagem com ele adolescente, quando mata um homem e foge para o Rio. Segue com o Tenório no fim da década de 40 em Caxias, acompanhando a sua trajetória de político populista ligado à União Democrática Nacional (UDN), até o seu rompimento com esse partido, a disputa para governador, o apoio ao Presidente João Goulart e a recusa ao movimento militar de 1964. De político ligado à direita, o filme mostra o que seria a transformação de Tenório Cavalcanti num homem alinhado à esquerda, sempre empunhando sua metralhadora batizada de Lurdinha e terminando com uma frase famosa do próprio biografado: “Não sou fascista, não sou comunista, não sou covarde. Sou Tenório Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque. Sou macho“. Melhor definição só assistindo ao filme infelizmente ausente das plataformas de streaming mas que merece ser revisto e redescoberto como uma das grandes produções nacionais 40 anos depois de seu lançamento.