Marcelo Kricheldorf revisita o clássico de Fellini
21h – Estação NET Rio

Em E la nave va (1983), o diretor italiano Federico Fellini constrói uma das alegorias mais profundas sobre o fim da civilização burguesa europeia. Estruturado como uma narrativa histórica e operística, o filme acompanha a viagem do luxuoso transatlântico Gloria N. em julho de 1914. A embarcação transporta a elite da música clássica e da aristocracia mundial para espalhar as cinzas da mítica soprano Edmea Tetua na ilha de Erimo. O enredo se desenvolve a partir do confronto absurdo entre essa comunidade alienada e as tensões geopolíticas que culminaram no início da Primeira Guerra Mundial, transformando a celebração fúnebre em um prenúncio do naufrágio de todo o continente.
O navio funciona como uma metáfora precisa do mundo e da estratificação social da época. Nos conveses superiores, a alta sociedade e os artistas vivem em um estado de ostentação e rituais pomposos, completamente desconectados da realidade. Enquanto isso, nos porões, operários alimentam as caldeiras com carvão. Essa divisão se agrava com o resgate de refugiados sérvios que fogem do conflito balcânico, introduzindo a realidade bruta da geopolítica no microcosmo aristocrático. O Gloria N. personifica uma civilização que navega às cegas em direção ao caos histórico.
A música atua como um personagem central e ativo. Longe de ser um mero artificio, ela dita o ritmo e o comportamento dos passageiros. A morte de Edmea Tetua simboliza a morte da própria ópera como a principal manifestação cultural da hegemonia europeia. As referências a compositores como Giuseppe Verdi e Gioacchino Rossini acentuam o tom nostálgico de uma arte que perdeu seu propósito vital. Os passageiros realizam competições de canto fúteis na cozinha do navio, transformando a arte em um exercício de pura vaidade e isolamento intelectual.
O roteiro utiliza o humor fúnebre para desmascarar a solenidade burguesa. Os personagens formam um verdadeiro coro dos mortos, uma coletividade obsoleta que canta de forma dramática enquanto ignora a própria ruína material iminente. Essa obsessão pelo declínio ganha contornos satíricos na figura de um rinoceronte doente confinado no porão. O animal exala um odor insuportável que contamina o luxo do navio, servindo como símbolo da podridão moral, da irracionalidade humana e do peso inevitável da realidade que a elite tenta desesperadamente sufocar.
Fellini posiciona-se radicalmente contra o realismo estético. O filme inicia com uma homenagem ao cinema mudo, com imagens granuladas e monocromáticas que gradualmente ganham cor. O diretor expõe deliberadamente a natureza artificial da obra ao construir o mar com lençóis de plástico oscilantes e cenários pintados nos estúdios da Cinecittà. O cinema é tratado abertamente como circo e teatro, um jogo de ilusionismo onde a mentira cênica revela a verdade psicológica dos personagens.A condução da história cabe ao jornalista Orlando, que atua como a figura do diretor transformado em repórter. Rompendo a quarta parede, ele olha fixamente para a câmera e narra os acontecimentos diretamente para o espectador. Orlando oscila entre o cinismo do cronista e o espanto do observador, agindo como um guia que documenta o colapso daquela sociedade. Sua presença reforça o caráter documental falso da jornada e expõe o papel do artista como testemunha impotente da história.A iminência da Primeira Guerra Mundial destrói a fantasia lírica quando o navio cruza com um couraçado austro-húngaro que exige a entrega dos refugiados sérvios. O confronto armado sela o destino do transatlântico, culminando no seu naufrágio definitivo. No desfecho desse último grande obra Fellini, a câmera recua para revelar os microfones, as gruas e a equipe técnica de filmagem. Ao despir o dispositivo cinematográfico, Fellini deixa o espectador sozinho com Orlando, que flutua em um bote salva-vidas ao lado do rinoceronte, salvos apenas pela ilusão da própria arte cinematográfica
Ficha Técnica: E La Nave Va / E a Nave Vai (1983)
- Título original: E La Nave Va
- Título no Brasil: E a Nave Vai
- Ano: 1983
- Países: Itália, França
- Duração: 132 minutos
- Gênero: Comédia dramática
- Direção: Federico Fellini
- Roteiro: Federico Fellini, Tonino Guerra, Catherine Breillat
- Produção: Franco Cristaldi
- Fotografia: Giuseppe Rotunno
- Montagem: Ruggero Mastroianni
- Cenografia: Dante Ferretti
- Música: Não há trilha original — usadas óperas de Verdi, Puccini, Rossini e outros
- Produtoras: Rai Cinema, Gaumont, Vides Production.
Elenco principal
- Freddie Jones — _Orlando
- Barbara Jefford — Il Principessa Lherimia
- Peter Cellier — Sir Reginald Dongby
- Elisa Mainardi — L’Iniziata
- Paolo Paoloni — Il Presidente
- Jonathan Cecil — Riccardo
- Sarah Walker — Doris Speed
- Victor Poletti — Auric Goldfinger
parabéns pelo artigo
CurtirCurtir