Marcelo Kricheldorf revita o aclamaso musical de Bob Fosse.
16h30 – Estação NET Rio

O cinema, em sua essência, frequentemente busca a catarse, mas poucas obras o fazem com a crueza e o virtuosismo de All That Jazz – O Show Deve Continuar (1979). Sob a direção de Bob Fosse, o filme transcende o gênero musical para se tornar uma análise cinematográfica em vida. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o longa-metragem não apenas narra a trajetória de um artista em colapso, mas estabelece um novo padrão visual para o sofrimento, o narcisismo e a genialidade. O coração da narrativa reside na figura de Joe Gideon, interpretado por Roy Scheider com uma precisão cirúrgica. Scheider não apenas atua; ele incorpora os tiques, a postura curvada e o carisma corrosivo do próprio Fosse. Ao escalar um ator para viver sua vida enquanto ela ainda acontecia, Fosse utiliza a autobiografia como um exorcismo. Ele expõe sua vida pessoal, suas infidelidades e sua negligência emocional, transformando o “eu” em um objeto de estudo clínico e artístico. A obra é frequentemente descrita como um 8½, dada a clara influência do surrealismo de Federico Fellini. Assim como o mestre italiano, Fosse borra as fronteiras entre o real e o imaginário. O dispositivo narrativo mais potente nesse sentido é a presença de Angelique (Jessica Lange), a personificação da Morte como uma mulher de branco. Ela é a confidente de Gideon, uma amante silenciosa que o escuta nos momentos de delírio. Através desses diálogos, o filme revela que, para o protagonista, a morte não é um fim aterrorizante, mas o único público que ele ainda não conseguiu seduzir completamente. Tecnicamente, o filme é um triunfo da forma. A edição funciona como o batimento cardíaco da película: cortes rápidos e rítmicos acompanham a narrativa, criando uma atmosfera de urgência.. Essa técnica atinge seu ápice na montagem paralela entre o palco e a mesa de cirurgia. Enquanto Gideon é operado, a precisão cirúrgica dos médicos é espelhada pela precisão coreográfica de seus dançarinos. Para Fosse, a arte e a medicina são formas semelhantes de violência sobre o corpo humano. O tema central, no entanto, é o Show Business como um vício. A Broadway é retratada como uma fornalha que queima por dentro; uma indústria que exige perfeição absoluta em troca da sanidade do artista. O narcisismo de Gideon não é um defeito de caráter, mas um estilo de sobrevivência. Ele precisa ser o centro do universo para que o universo continue a fazer sentido. O clímax cinematográfico ocorre em “Bye Bye Life”, possivelmente o maior número musical sobre o ato de morrer já concebido. Em um cenário de programa de auditório psicodélico, Gideon se despede da vida com um sorriso cínico e passos de jazz. É a celebração última do artifício: se a vida foi um espetáculo, a morte deve ser o grand finale definitivo. Em última análise, All That Jazz permanece como um testamento de que a arte pode ser, simultaneamente, um ato de criação e de destruição. Bob Fosse não apenas dirigiu um filme; ele coreografou sua própria finitude, provando que, mesmo quando o coração para de bater, o ritmo imposto pela montagem e pela memória permanece eterno.
Ficha Técnica: All That Jazz (1979)
- Título original: All That Jazz
- Ano: 1979
- País: Estados Unidos
- Duração: 123 minutos
- Gênero: Musical, Drama
- Direção e coreografia: Bob Fosse
- Roteiro: Robert Alan Aurthur e Bob Fosse
- Produção: Robert Alan Aurthur
- Música: Ralph Burns
- Fotografia: Giuseppe Rotunno
- Edição: Alan Heim
- Produtoras: 20th Century-Fox, Columbia Pictures
- Distribuição: 20th Century-Fox nos EUA e Canadá, Columbia Pictures internacional
Elenco principal
- Roy Scheider — Joe Gideon
- Jessica Lange — Angelique
- Ann Reinking — Kate Jagger
- Leland Palmer — Audrey Paris
- Cliff Gorman — Davis Newman
- Ben Vereen — O’Connor Flood
- Erzsebet Foldi — Michelle Gideon
- Michael Tolan — Dr. Ballinger
- 4 Oscars: Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora Original.
parabéns pelo artigo porém não assisti o filme
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