Marcelo Kricheldorf nos lembra hoje do ator que completaria 119 anos,

A identidade cultural dos Estados Unidos no século XX encontra-se intrinsecamente ligada à mitologia da expansão para o Oeste, um período histórico representado pelo cinema no gênero conhecido como western. No centro dessa construção simbólica repousa a figura de John Wayne. Nascido Marion Robert Morrison, o ator transcendeu a mera condição de astro de Hollywood para se transformar no próprio arquétipo do herói americano: um homem de moral retilínea, força física imponente e determinação inabalável. Compreender a trajetória de Wayne é analisar como a indústria cultural moldou o ideal de masculinidade, patriotismo e individualismo que definiu a psique norte-americana durante a Guerra Fria. A sua figura de mito não nasceu pronta; ela foi forjada em um início de carreira árduo, lapidado por parcerias estéticas geniais e, eventualmente, desconstruído pelo próprio tempo.

Antes de se tornar o símbolo de uma nação, o ator enfrentou a crueza da rejeição em Hollywood. Após uma lesão interromper sua promissora trajetória no futebol americano universitário, ele encontrou refúgio nos estúdios da Fox como assistente de estúdio e figurante. Sua primeira grande oportunidade surgiu quando o diretor Raoul Walsh o escalou como protagonista no épico A Grande Jornada (1930), rebatizando-o artisticamente como John Wayne. Contudo, o filme foi um retumbante fracasso de bilheteria, o que relegou o jovem ator ao ostracismo das produções de baixo orçamento, conhecidas como “filmes B”, durante quase toda a década de 1930. Esse período, embora comercialmente frustrante, foi fundamental para o amadurecimento de Wayne. Nos estúdios da Republic Pictures, atuando em dezenas de faroestes baratos, ele refinou sua presença cênica, aprendeu a coreografar lutas e desenvolveu a resiliência necessária para sustentar o peso do protagonismo que viria a seguir.
A virada definitiva na carreira de John Wayne ocorreu em 1939, quando o diretor John Ford o resgatou do circuito secundário para interpretar Ringo Kid em No Tempo das Diligências (Stagecoach). A famosa cena em que a câmera avança rapidamente em um close-up de Wayne, que gira seu rifle com apenas uma mão, tornou-se um dos marcos fundadores do cinema moderno. A partir dali, estabeleceu-se uma das parcerias mais prolíficas e esteticamente relevantes da história da sétima arte. Ford, um cineasta de visão patriótica mas complexa, enxergou em Wayne a tela perfeita para pintar suas crônicas sobre a formação da América.

O diretor atuava como um mentor rigoroso, frequentemente utilizando-se de abusos psicológicos no set para extrair do ator atuações viscerais. Sob a tutela de Ford em obras como Sangue de Heróis (1948) e Rio Grande (1950), Wayne deixou de ser apenas um ator de faroeste para se tornar o rosto oficial da expansão civilizatória americana.
O sucesso do arquétipo de John Wayne residia na construção minuciosa de uma identidade visual e performática instantaneamente reconhecível, que funcionava como um código semiótico para o público: Se a parceria com John Ford criou o herói idealizado, foi também ela quem o desconstruiu em 1956 com a obra-prima Rastros de Ódio (The Searchers). No papel de Ethan Edwards, um veterano da Guerra Civil amargurado e consumido por um racismo patológico contra os povos nativos, Wayne entregou a atuação mais complexa de sua vida. O personagem passa anos em uma busca obsessiva por sua sobrinha raptada por comanches, não para resgatá-la no sentido tradicional, mas com a intenção latente de matá-la por ter sido absorvida pela cultura indígena. Ao interpretar um homem violento, intolerante e psicologicamente fraturado, Wayne antecipou a figura do anti-herói que dominaria o cinema nas décadas seguintes. A icônica imagem final do filme, com Ethan Edwards emoldurado pela porta da casa, observando a família se reunir enquanto ele caminha de volta para a solidão do deserto, simboliza a tragédia do próprio herói da fronteira: um homem cuja violência é necessária para fundar a civilização, mas que, por essa mesma violência, torna-se inadequado para viver nela.

Vale citar ainda a parceria do ator com o diretor Howard Hawks em clássicos absolutos do faroeste como Rio Vermelho (1948) e Onde Começa o Inferno (Rio Bravo, 1959). Dois de seus papéis mais marcantes também devem ser mencionados são Sean Thorton no excelente Depois do Vendaval (The Quiet Man, 1952) ao lado de Maureen O’Hara, com quem fez 5 filmes; e a obra-prima O Homem que Matou o Fascinora (The Man who shot Liberty Valence, 1962). À medida que as fronteiras do Velho Oeste se consolidavam na ficção, John Wayne transpôs seu magnetismo para os cenários dos conflitos mundiais contemporâneos, alinhando sua carreira ao esforço ideológico dos Estados Unidos. Em produções como Iwo Jima – O Portal da Glória (1949), ele encarnou o sargento durão que molda jovens recrutas para o sacrifício supremo em nome da liberdade. Essa transição fortaleceu sua figura pública como o guardião dos valores conservadores durante o auge da Guerra Fria. Anos mais tarde, em meio à polarização da sociedade americana na década de 1960, Wayne financiou, codirigiu e estrelou Os Boinas Verdes (1968), uma obra abertamente propagandística que visava legitimar a intervenção militar americana na Guerra do Vietnã. Embora o filme tenha sido duramente criticado por setores progressistas devido ao seu tom maniqueísta, ele reforçou o papel de Wayne como uma bússola moral para a parcela da população que ansiava pela manutenção do nacionalismo tradicional.
Em relação a sua imensa popularidade e de ter sido o ator que mais vezes figurou na lista das dez maiores bilheterias de Hollywood, o reconhecimento formal por parte da crítica e da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi tardio.

A consagração ocorreu na cerimônia do Oscar de 1970, quando Wayne recebeu a estatueta de Melhor Ator por seu desempenho em Bravura Indômita (1969). No papel de Rooster Cogburn, um xerife atipico e de métodos totalmente ortodoxos, Wayne flertou com a paródia de si mesmo. O prêmio, embora concedido por um filme específico, foi amplamente interpretado como uma homenagem de caráter honorário ao conjunto de sua obra. Ao subir ao palco, visivelmente emocionado, “The Duke” brincou dizendo que teria colocado o tapa-olho muito antes se soube que isso ajudaria sua carreira, selando as pazes entre o homem de ação e o establishment cultural de Hollywood.
O capítulo final da filmografia de John Wayne possui contornos de uma tocante metalinguagem. Em O Último Pistoleiro (The Shootist, 1976), dirigido por Don Siegel, o ator interpretou John Bernard Books, um lendário atirador do século XIX que chega a uma pequena cidade sabendo que está sofrendo de um câncer terminal e deseja morrer com dignidade, longe dos olhares dos curiosos e dos jovens que buscam fama matando um mito. A narrativa espelhava de forma dolorosa a realidade do próprio Wayne, que àquela altura já travava uma batalha pública e debilitante contra o câncer.O filme funciona como um réquiem não apenas para o personagem, mas para o próprio gênero do western clássico, que perdia espaço para produções mais cínicas e urbanas. Quando John Wayne faleceu em 11 de junho de 1979, o cinema não perdeu apenas um de seus maiores astros; encerrou-se um capítulo da história americana onde o mundo podia ser dividido claramente entre o bem e o mal, o progresso e a barbárie.
Por fim, a trajetória de John Wayne confunde-se com a própria evolução da identidade cinematográfica e social dos Estados Unidos. Das aventuras dos filmes B à consagração do Oscar, o ator construiu um império semiótico baseado em sua presença física e em escolhas temáticas que ecoavam os anseios de uma nação em busca de liderança moral e estabilidade. Se por um lado sua obra celebrou o expansionismo e o nacionalismo por vezes excludente, por outro, sob a lente de diretores geniais como John Ford, expôs as fraturas latentes e a solidão inerente ao homem de ação. Wayne permaneceu fiel ao seu arquétipo até o último plano, deixando como legado a imagem eterna do homem que, de chapéu na cabeça e olhar firme no horizonte, ajudou a desenhar o mapa mítico da América no imaginário coletivo global.
Filmografia do Ator (Principais Filmes)
A Grande Jornada (1930)
No Tempo das Diligências (1939)
Tigres Voadores (1942)
Fomos Os Sacrificados (1945)
Rio Vermelho (1948)
Sangue de Heróis (1948)
Iwo Jima: Devoção de uma Raça (1949)
Rio Grande (1950)
Depois do Vendaval (1952)
Rastros de Ódio (1956)
Onde Começa o Inferno (1959)
O Álamo (1960)
O Homem Que Matou o Facínora (1962)
O Mais Longo dos Dias (1962)
El Dorado (1966)
Os Boinas Verdes (1968)
Bravura Indômita (1969)
Jake Grandão (1971)
O Último Pistoleiro (1976)