Leandro Banner

O quarto volume da Edição Definitiva de Blueberry, publicada pela editora Pipoca & Nanquim, reafirma a grandiosidade dessa que é considerada uma das maiores séries do faroeste nos quadrinhos mundiais. Esta coleção tem o mérito de resgatar a obra em formato luxuoso e com tratamento editorial à altura da importância histórica que ela carrega, permitindo que leitores contemporâneos experimentem a força narrativa de Jean-Michel Charlier e a evolução artística de Jean Giraud (Moebius). Neste volume, que compila histórias de um dos arcos mais marcantes do personagem, vemos Blueberry mergulhado em tramas onde a fronteira entre a lei e a selvageria é cada vez mais nebulosa. Para encerrar essa última leva de histórias, retomaremos a breve analise de cada álbum no compilado, que começa com:
#1. Arizona Love (1990)
Blueberry retorna em um arco mais leve, com forte dose de ironia e sátira; entretanto a razão dessa leveza se deve à tristeza ocasionada pelo falecimento de Jean-Michel Charlier, que escreveu pouco menos da metade da trama. Coube então a Giraud colocar a dor e o luto de lado para continuar a história iniciada por seu amigo, e como forma de suportar a enorme tristeza pela perda, optou por uma aventura mais leve e sem qualquer morte. Assim sendo, trama envolve um casamento improvisado no Arizona e a presença de personagens pitorescos, beirando o cômico. Embora bem menos sombrio que os álbuns anteriores, pelas razões já mencionadas, é um verdadeiro deleite observar a versatilidade de Giraud ao transitar entre ação e humor, sem perder a crítica social. Giraud consegue terminar a história de forma muito satisfatória, e poderia até mesmo ser o fim definitivo da saga de Blueberry… mas ele e Charlier amavam tanto o personagem que seria difícil dizer adeus naquele momento, mesmo que ainda demorasse um pouco mais de tempo para o próximo álbum, que foi:
#2. Mister Blueberry (1995)
Aqui começa o último grande ciclo de aventuras. Blueberry se estabelece em Tombstone, Arizona, e passa a conviver com figuras históricas do Oeste, como Wyatt Earp e Doc Holliday. A narrativa mistura fatos históricos e ficção, situando o protagonista na efervescência do lendário período dos duelos e da expansão da fronteira. A diferença no tom e na qualidade do roteiro é percebida; não que Giraud não seja um roteirista de qualidade, muito pelo contrário… seu estilo difere do de Charlier no sentido de utilizar menos texto em quadros de apresentação e ser menos expositivo, mas curiosamente nessa história é possível experimentar uma sensível redução do ritmo narrativo, sentido também na próxima história, que é:

#3. Sombras Sobre Tombstone (1997)
A tensão em Tombstone aumenta com rivalidades políticas, interesses econômicos e a presença constante da violência. Blueberry se vê no meio de conspirações locais, o que dá um tom quase policial à narrativa. Giraud desenvolve aqui uma trama mais lenta, como já dito, e também reflexiva, em contraste com a ação desenfreada dos primeiros anos da série. Num primeiro momento pode causar alguma estranheza, que desaparece numa possível e necessária releitura posterior.
A história seguinte:
#4. Gerônimo, o Apache (1999)
Combinando a veracidade histórica e o olhar crítico, a história insere Blueberry nos conflitos que envolvem a resistência apache liderada por Gerônimo. É um retrato do choque cultural e da injustiça contra os povos indígenas, feito com a maturidade que Giraud já carregava em sua carreira.
#5. O.K. Corral (1999)
Um dos álbuns mais emblemáticos dessa fase. O famoso duelo no O.K. Corral é reinterpretado pelo olhar de Giraud, que coloca Blueberry como testemunha de um dos momentos mais lendários do faroeste. Aqui, realidade e mito se fundem, e o herói de quadrinhos se encontra com a História oficial dos EUA, com consequências que se desdobrarão no álbum posterior, encerrando a saga, que é
#6. Dust (2005)
Última história longa finalizada por Giraud. Blueberry lida com desdobramentos do arco de Tombstone, num clima de desencanto e melancolia. A violência aparece mais contida, mas permeada de reflexão sobre a passagem do tempo e a decadência da era dos pistoleiros. Este álbum funciona como um testamento artístico: uma narrativa contida, madura e reflexiva, em que Blueberry já carrega o peso da idade e dos fracassos, distante do herói impetuoso do passado. É a despedida de Giraud de sua criação, um adeus repleto de silêncios e espaços abertos, como se o próprio deserto do Arizona refletisse a solidão do personagem.
#7. Apaches (2007)
Publicada após a morte de Charlier, a história retoma os temas indígenas e funciona como um olhar final sobre os dilemas éticos e culturais que sempre estiveram no cerne de Blueberry. Na verdade trata-se da história integral exibida sob forma de reflexões do personagem sobre o passado nas edições anteriores.

No que concerne à a arte, Giraud aqui alcança um patamar ainda mais impressionante. Neste ponto da série, seu traço ganha maturidade plena: cenários minuciosamente detalhados, domínio absoluto do movimento e da anatomia, e uma paleta de cores que captura tanto a brutalidade da paisagem árida quanto a melancolia que permeia a trajetória do protagonista. É visível como Giraud, cada vez mais seguro, equilibra a precisão do realismo com um olhar quase poético para a vastidão do Oeste. Essas histórias formam um desfecho crepuscular da saga. Se no início Blueberry representava a vitalidade do faroeste clássico — cheio de ação, intriga e fuga constante — aqui o personagem é confrontado com a História real, os limites da própria lenda e sua condição de homem envelhecido. Giraud conduz esse ciclo final com ritmo mais lento e contemplativo, ampliando a densidade psicológica do protagonista e mostrando que o mito do Oeste é também uma construção permeada de dor, fracasso e ilusões. A Edição Definitiva 4 da Pipoca & Nanquim não apenas encerra a saga com acabamento gráfico impecável, mas também valoriza a experiência do leitor com materiais extras, contextualização histórica e acabamento gráfico digno de coleção, e evidencia a transformação de Blueberry ao longo das décadas: de um western clássico, cheio de perseguições e duelos, para um relato amadurecido, que questiona o mito da fronteira e mostra um protagonista falível, contraditório e profundamente humano. É um fecho que não busca respostas fáceis, mas sim a contemplação de um tempo que já não existe, preservado na memória e na arte de Giraud. Uma coleção necessária que corrigiu um erro editorial de décadas, trazendo pela primeira vez ao Brasil, a saga completa de um dos personagens mais marcantes e relevantes, não apenas dos quadrinhos europeus, mas dos quadrinhos mundiais. Por essa razão, BLUEBERRY – EDIÇÃO DEFINITIVA não se trata apenas uma publicação de luxo, mas uma oportunidade de preservação cultural, permitindo que novas gerações tenham acesso a um clássico incontornável da nona arte. Assim, este volume final é mais do que um encerramento: é um epitáfio poético para um dos maiores personagens da história dos quadrinhos que vale a pena ser conhecido, lido, relido e apreciado como uma verdadeira obra-prima. 😉
Muito obrigado, Editora Pipoca & Nanquim! 👏🏻👏🏻
Avaliação: 4,5/5
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻