LUZ CAMERA DIREÇÃO  | AGNES VARDA

Marcelo Kricheldorf

A história oficial do cinema ocidental costuma creditar a eclosão da modernidade cinematográfica aos jovens críticos da revista Cahiers du Cinéma, que na virada dos anos 1950 para os 1960 sacudiram as estruturas da indústria francesa com a Nouvelle Vague. Contudo, esse panorama histórico omite um dado cronológico fundamental: o verdadeiro marco inaugural do movimento foi concebido por uma mulher. Em 1955, antes que Jean-Luc Godard ou François Truffaut operassem suas claquetes, Agnès Varda (1928–2019) lançava La Pointe Courte. Reconhecida tardiamente como a “Mãe da Nouvelle Vague“, a diretora belga de coração francês e alma cosmopolita estruturou uma cinematografia indissociável da experimentação formal, da militância política e da investigação poética do cotidiano. Sua transição da fotografia para o cinema de baixo orçamento moldou uma obra em que a realidade e a subjetividade fundem-se em um mesmo plano material.


A gênese do cinema de Varda reside em seu olhar fotográfico. Como fotógrafa oficial do Théâtre National Populaire, ela desenvolveu uma percepção aguda sobre a composição geométrica do espaço e a captura do instante psicológico dos sujeitos. Ao migrar para a direção cinematográfica sem qualquer formação técnica ou acadêmica na área, transformou o desconhecimento em liberdade. Sem as amarras das convenções industriais do “cinema de qualidade” francês da época, realizou produções baratas, ágeis e profundamente autorais. Integrante fundamental do grupo da Rive Gauche (Margem Esquerda); ala da Nouvelle Vague mais alinhada à literatura e à política, que incluía Alain Resnais e Chris Marker, Varda destacou-se como a única mulher em um ecossistema predominantemente masculino. Ela provou que a escassez de recursos financeiros poderia ser superada por uma inventividade estética radical, inaugurando o cinema moderno a partir de uma economia de produção periférica.
Essa emancipação financeira permitiu que Varda construísse uma das mais sólidas fundações do “olhar feminino” (female gaze) no audiovisual global. Em uma década de 1950 sufocante para a autonomia das mulheres, sua câmera emergiu como um instrumento de desconstrução do fetiche e da passividade feminina.
Para dar forma a essa visão de mundo, a cineasta teorizou e aplicou o conceito de ciné-écriture (cine-escrita). Longe de enxergar a direção como a mera ilustração de um roteiro literário, Varda defendia que o filme é escrito na totalidade de suas escolhas: na textura da película, na angulação da lente, na montagem rítmica e no desenho de som. Essa busca formal manifestou-se de maneira brilhante na manipulação do tempo. Em Cléo das 5 às 7, a narrativa adota o tempo real cronológico, fazendo com que a duração da projeção coincida com a angústia da protagonista que espera o resultado de um exame de câncer. Décadas mais tarde, essa inquietude com o espaço-tempo transpôs as salas de cinema. Varda converteu-se em artista plástica e passou a ocupar museus internacionais com instalações visuais, destacando-se suas célebres “cabanas de cinema”; estruturas físicas construídas inteiramente com os rolos de película descartados de seus próprios filmes de 35mm, transformando a memória do celuloide em abrigo palpável.
A maleabilidade de sua cine-escrita permitiu-lhe também implodir as fronteiras entre o documentário e a ficção. Varda operava sob a premissa de que o cinema era o seu quintal particular; um território doméstico e afetivo aberto ao acaso, à colheita e ao encontro com o Outro. No ano 2000, ao adotar precocemente as câmeras digitais de pequeno porte em Os Catadores e Eu, ela revolucionou o cinema de ensaio. Ao filmar camponeses e cidadãos urbanos que sobreviviam da coleta de sobras e resíduos da sociedade de consumo, Varda estabeleceu um paralelo poético com o seu próprio ofício: ela também era uma catadora de imagens, de histórias e de afetos esquecidos nas margens da história. O documentário de Varda abandonava o distanciamento didático para abraçar uma etnografia afetiva e profundamente humanista.
Essa indissociabilidade entre a existência e a criação artística reflete-se na costura de sua vida pessoal com a tela. Seu casamento com o diretor Jacques Demy constituiu uma das parcerias afetivas e estéticas mais célebres do cinema francês. Após a morte de Demy, Varda transformou o luto em celebração histórica através de obras como Jacquot de Nantes (1991), ficcionalizando a infância do companheiro com uma delicadeza ímpar. Essa permeabilidade afetiva estendia-se à sua condição geopolítica. Nascida na Bélgica, radicada na França e autoproclamada cidadã do mundo, ela possuía uma curiosidade indomável que a levou a capturar o espírito do tempo global. Em suas estadias em Los Angeles entre as décadas de 1960 e 1970, registrou com precisão a efervescência da cultura hippie e a estética dos murais de rua, demonstrando uma capacidade única de filmar o estrangeiro sem o viés do exotismo.
Em suma, o legado de Agnès Varda transcende a catalogação de sua filmografia; reside na democratização do fazer cinematográfico e na validação de uma sensibilidade livre de concessões comerciais. Ao inventar uma linguagem própria que equilibrou o rigor formal e a generosidade documental, ela ofereceu às gerações contemporâneas de diretoras um modelo ético e estético de independência criativa. Varda provou que o cinema não precisa de grandes aparatos industriais para alcançar a imensidão lírica, bastando manter os olhos abertos para o mundo e a mente disposta à invenção. Sua obra permanece como um exemplo de alteridade, demonstrando que filmar é, fundamentalmente, um ato de amor e de cidadania universal.

Filmografia de Agnès Varda

La Pointe-Courte (1955)
L’Opéra-Mouffe (1958)
Du Côté de la Côte (1958)
Cléo das 5 às 7 (1962)
Saudações, Cubanos! (1963)
As Duas Faces da Felicidade (1965)
As Criaturas (1966)
Os Panteras Negras (1968)
O Amor dos Leões (1969)
Daguerreótipos (1975)
Resposta das Mulheres: Nosso Corpo, Nosso Sexo (1975)
Uma Canta, a Outra Não (1977)
Mur Murs (1981)
Documentira (1981)
Ulisses (1983)
Os Renegados / Sem Teto Nem Lei (1985)
Jane B. por Agnès V. (1988)
Kung-Fu Master! (1988)
Jacquot de Nantes (1991)
As Cento e Uma Noites (1995)
O Universo de Jacques Demy (1995)
Os Catadores e Eu (2000)
As Praias de Agnès (2008)
Visages, Villages (2017)
Varda por Agnès (2019)

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