Leandro Banner

O omnibus A SAGA DO LOBISOMEM, capa cartão com 320 páginas em papel couché de ótima gramatura da Tábula Editora, de julho de 2025, representa muito mais do que uma simples republicação de histórias antigas de terror. A edição funciona como resgate histórico de um momento singular dos quadrinhos brasileiros: quando a criatividade nacional precisou ocupar, quase clandestinamente, o espaço deixado pela perda dos direitos da Marvel pela Editora Bloch no final dos anos 1970. O resultado foi uma das experiências mais curiosas, ousadas e artisticamente sofisticadas da HQ brasileira de horror. As histórias originalmente publicadas em CAPITÃO MISTÉRIO APRESENTA: LOBISOMEM #13 a 20, entre dezembro de 1978 e julho de 1979, nasceram de uma situação editorial improvável. A Editora Bloch publicava o material do personagem Werewolf by Night, criado pela Marvel, mas quando o estoque de histórias americanas acabou e os direitos começaram a escapar das mãos da editora, surgiu a decisão radical: continuar a revista com produção nacional, mantendo inclusive a numeração original.

Foi então que entrou em cena FLÁVIO COLIN, um dos maiores desenhistas da história dos quadrinhos nacionais (e certamente um dos preferidos deste escriba). O antigo Jack Russell virou “Tab Russell”, uma adaptação quase improvisada do nome original, mas rapidamente a série deixou de ser mero simulacro da Marvel para adquirir personalidade própria.O mais impressionante é que Colin não apenas “imitou” o modelo americano, o artista absorveu sua estrutura e a reconstruiu com identidade brasileira. Seu Lobisomem tem menos glamour gótico europeu e mais atmosfera rural, superstição popular, miséria humana e sensação de fatalismo. E também não é saco de pancada do vilão da vez (o Lobisomem da Marvel apanhava de todo mundo, mas não nos percamos… talvez um dia falemos melhor sobre isso). É possível perceber que existe algo profundamente brasileiro nessas histórias — como se o horror clássico da Universal tivesse atravessado o interior do país, passando por vilas decadentes, sertões sombrios e personagens marcados pela culpa e pela violência. Visualmente, o trabalho de Colin é extraordinário. Seu traço possui uma síntese gráfica raríssima e muito particular, pois ao mesmo tempo em que simplifica formas, ele potencializa dramaticidade. Colin desenha como quem entalha madeira: rostos sulcados, sombras densas, anatomias distorcidas e uma narrativa extremamente fluida. Seu preto e branco é agressivo, texturizado e atmosférico, onde é possível perceber influência de artistas como Milton Caniff e José Luis Salinas, mas filtrada por uma estética muito pessoal e brasileira. O resultado lembra, em alguns momentos, xilogravura nordestina misturada ao expressionismo europeu.

A maneira como Colin representa a transformação do lobisomem é especialmente poderosa. Não existe a preocupação anatômica “realista” típica dos quadrinhos americanos dos anos 1970. A metamorfose aqui é quase espiritual, febril. O corpo parece derreter em sombras e pelos. A criatura surge como manifestação visual da loucura e do sofrimento. Em vários momentos, o monstro parece menos um personagem físico e mais uma presença maldita contaminando a página. Narrativamente, as histórias também surpreendem, pois mesmo trabalhando dentro das limitações editoriais da Bloch — revistas populares, produção rápida e orçamento reduzido — Colin entrega HQs carregadas de melancolia, suspense e estranheza. Parece haver uma forte influência da literatura pulp e dos filmes B de terror, mas também ecos do folclore brasileiro e das histórias orais do interior. O horror aqui raramente é espetacular; é decadente, sofrido, triste e inevitável. Outro mérito do omnibus é permitir perceber a evolução gráfica do artista ao longo da série. Lidas isoladamente, as histórias poderiam parecer apenas bons exemplares de terror setentista. Reunidas em sequência, revelam um Colin cada vez mais solto, experimental e cinematográfico. A narrativa ganha ritmo mais sofisticado, os enquadramentos tornam-se mais ousados e o uso das massas de preto vai ficando progressivamente mais expressionista. A edição da Tábula possui importância documental enorme justamente por consolidar esse material disperso e historicamente negligenciado, promovendo um mais que necessário resgate. Durante décadas, essas HQs sobreviveram quase como lenda entre colecionadores de terror nacional. Sua reunião em formato omnibus ajuda a reposicionar o trabalho de Colin dentro da história dos quadrinhos brasileiros, não apenas como curiosidade derivada da Marvel, mas como obra autoral de grande relevância estética. Ainda assim, existe um ponto discutível na edição: a ausência de colorização.
O preto e branco funciona perfeitamente para valorizar o desenho original de Colin, especialmente pela força de suas sombras e contrastes. Porém, considerando o caráter definitivo da coletânea, teria sido interessante incluir ao menos uma versão parcialmente colorizada — talvez como extra ou seção especial. Isso poderia ampliar ainda mais a dramaticidade visual da obra e aproximar novos leitores acostumados à estética contemporânea. E há um detalhe importante: as revistas originais da Bloch possuíam capas coloridas extremamente chamativas, típicas do terror popular dos anos 1970. Uma recuperação cromática cuidadosa, respeitando a paleta vintage – e totalmente louca da Bloch – , poderia criar um contraste fascinante entre o miolo sombrio e a exuberância gráfica pulp das capas. Não seria uma modernização artificial, mas uma valorização histórica. Não obstante, entende-se a escolha editorial da Tábula Editora. Colorir integralmente o material talvez descaracterizasse justamente aquilo que faz Colin tão poderoso: sua relação visceral com o preto e branco. Seus desenhos dependem das sombras, do vazio e da textura crua da página. Uma colorização inadequada poderia suavizar demais uma obra que funciona exatamente por sua aspereza gráfica. No fim, A SAGA DO LOBISOMEM acaba sendo não apenas uma grande HQ de terror, mas também um retrato de um período extremamente criativo dos quadrinhos brasileiros — quando artistas nacionais precisavam improvisar, adaptar e reinventar personagens e conceitos em meio ao caos editorial da época. E poucos fizeram isso com tanta personalidade quanto Flávio Colin. Seu Lobisomem permanece moderno porque não tenta competir com o horror hollywoodiano ou com os super-heróis americanos. Colin abraça plenamente sua identidade brasileira, artesanal e autoral, regalando o público com um terror de sombras, silêncio e atmosfera. Uma obra que comprova que os quadrinhos nacionais sempre tiveram mestres capazes de transformar limitações em arte, e Colin certamente era um verdadeiro mestre nesse quesito.
Avaliação: 4/5
Vida longa e próspera e até a próxima!🖖🏻