Adilson Santos

Todas as estrelas de cinema são extremamente sensíveis em relação à sua imagem, mas poucas, se é que alguma, brincaram com sua persona de forma mais ousada do que Clint Eastwood. Depois de se estabelecer como um ícone do western e um policial que ignora as regras do devido processo legal, Eastwood não perdeu tempo em testar até que ponto seu público aceitaria alterações nessa imagem. Em sua estreia na direção, Perversa Paixão (Play Misty for Me), ele interpretou um DJ que é perseguido por uma fã (Jessica Walter) após se envolver em um relacionamento romântico casual com ela. Lembre-se de que Eastwood fez isso depois de interpretar um soldado ferido da União em seu thriller gótico sobre a Guerra Civil, O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled), que foi um fracasso de bilheteria, e que ambos os filmes foram lançados nos cinemas em 1971, antes de Perseguidor Implacável (Dirty Harry). Eastwood não dava a mínima. Ele só queria fazer filmes e interpretar personagens que lhe interessassem. No final da década de 1970, Eastwood não tinha como errar aos olhos de seus fãs. Eles faziam fila para assistir aos filmes da série Dirty Harry, aos seus westerns revisionistas, destacando-se, sobretudo, o que Eastwood considera o auge de sua carreira, Josey Wales – O Fora da Lei (The Outlaw Josey Wales) e à sua comédia caipira com um orangotango, Doido Para Brigar Louco Para Amar (Every Which Way But Loose). Eastwood estava em sintonia com o público, então ele arriscou novamente em 1980 ao dirigir e estrelar Bronco Billy (1980), um estudo de personagem caprichoso sobre um atirador de elite cujo espetáculo itinerante do Velho Oeste luta para se manter relevante em uma época em que essas atrações antiquadas estão perdendo o apelo. Para Eastwood, o filme representou uma oportunidade de, pela primeira vez, atrair um público familiar e, talvez, lamentar o apelo cada vez menor da mitificação do Velho Oeste. Era muito cedo na carreira de Eastwood para ele fazer um elogio fúnebre a esse pedaço da cultura americana, mas ele acabou criando uma comédia dramática em grupo cativante sobre pessoas feridas e/ou pecadores em busca de uma segunda chance. Seu público não ficou louco por isso, mas Eastwood ainda guarda Bronco Billy no coração.